Inovação & estratégia, Marketing
5 minutos min de leitura

Mudar para continuar o mesmo

Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?
Mestre em Farmácia, mestrando em Gestão e Políticas Públicas pela FGV-EAESP e especialista em Acesso à Inovação em Saúde. Possui MBA em HealthTech pela FIAP e mais de duas décadas de experiência de alta gestão no setor de setor de saúde. Conselheiro independente associado ao IBGC.

Compartilhar:

Em junho, caminhei pelos 4,58 hectares do Château Lafleur, em Pomerol. Meu objetivo era compreender uma decisão que vai além do mundo do vinho. Queria entender por que uma propriedade familiar de reconhecimento global decidiu deixar a denominação de origem (AOC). Essa denominação, durante décadas, ajudou a proteger sua origem e reputação. Foi uma renúncia voluntária à denominação Pomerol, em uma região que reúne algumas das terras agrícolas e garrafas mais valorizadas do mundo.

A resposta da família Guinaudeau, construída em uma conversa sobre solo, genética, clima e sucessão, pode ser resumida em uma aparente contradição: mudar para continuar o mesmo.

Não se tratava de rejeitar a tradição, nem de negar o valor da regulação. As denominações de origem foram fundamentais para combater fraudes, proteger a procedência e construir a confiança dos consumidores. O dilema surgiu quando a família concluiu que a mudança do regime climático exigia novas formas de manejar a água e o solo, não acomodadas pelas regras vigentes. Permanecer fiel à qualidade passava, paradoxalmente, por deixar a estrutura que, durante décadas, ajudara a reconhecê-la.

Essa tensão não pertence apenas ao vinho. Ela está presente em empresas familiares e corporações que começam a se tornar prisioneiras das fórmulas responsáveis por seu próprio sucesso. Afinal, o que deve permanecer em uma organização: seus princípios ou seus procedimentos?

Lafleur nasceu de uma escolha incomum. Em 1872, Henri Grelou decidiu não incorporar aquela pequena parcela a uma propriedade maior. Em uma época de expansão agrícola, preferiu manter uma escala reduzida para produzir um vinho pequeno em quantidade e grande em qualidade. Qualidade antes da quantidade tornou-se uma espécie de constituição não escrita da família orientando escolhas economicamente difíceis ao longo de gerações.

Essa história ajuda a distinguir tradição de repetição. Tradição envolve enfrentar as perguntas de cada época com compromisso semelhante com a excelência e o longo prazo. Empresas familiares frequentemente afirmam preservar o legado quando, na realidade, protegem hábitos, cargos, produtos ou processos decisórios que perderam sua finalidade. Confundem continuidade com imobilidade. Perpetuar uma organização não é congelá-la.

A trajetória de Lafleur também provoca uma reflexão sobre os efeitos do progresso. No pós-guerra, a agricultura europeia precisava recuperar sua capacidade produtiva. A mecanização e a seleção clonal trouxeram volume e previsibilidade, mas também reduziram parte da diversidade genética dos vinhedos. A propriedade preservou plantas antigas e conhecimentos desenvolvidos ao longo de gerações, não porque seus responsáveis tivessem previsto o futuro, mas porque foram prudentes o suficiente para não substituir rapidamente aquilo que ainda não compreendiam por completo.  

A lição não é rejeitar a tecnologia, mas reconhecer que toda inovação produz ganhos visíveis mas que pode eliminar capacidades cujo valor ainda não sabemos medir. Nas empresas, a automação acelera processos, mas pode apagar conhecimentos tácitos. A terceirização reduz custos, mas pode levar embora competências estratégicas. O benchmarking oferece referências, mas também pode pasteurizar estratégias.

Outra lição surgiu da relação entre a videira e a água. Historicamente, os solos secos de Bordeaux submetiam a planta a uma restrição benéfica. A videira interrompia seu crescimento e concentrava energia no amadurecimento das uvas. Com a mudança do regime climático, a mesma restrição começou a se transformar em estresse.  A distinção é valiosa para as organizações. Limitações de capital estimulam escolhas. Metas desafiadoras produzem foco. Conselheiros independentes criam tensão produtiva. Mas existe uma fronteira: quando metas ignoram a realidade, cortes eliminam capacidade operacional e equipes vivem em permanente estado de emergência, a pressão deixa de produzir qualidade e passa a gerar exaustão e destruição de valor. O papel da governança não é eliminar todo desconforto, mas reconhecer quando o desconforto produtivo se transforma em estresse destrutivo.

A virada climática revelou ainda outro paradoxo: a baixa retenção de água, que contribuiu para a excepcionalidade daqueles terrenos, tornou-se uma vulnerabilidade diante do aumento das temperaturas. O mesmo ocorre nos negócios. Uma ampla rede física pode deixar de ser vantagem e transformar-se em custo. Uma cultura de controle pode garantir consistência em determinado momento e, posteriormente, impedir inovação. Uma integração vertical pode oferecer segurança em uma fase e rigidez na seguinte.  

Por isso, conselhos não deveriam perguntar apenas quais são as vantagens competitivas da empresa hoje. Deveriam questionar: em quais cenários essas vantagens podem se converter em passivos? Quanto maior o sucesso produzido por uma competência, maior o risco de a liderança transformá-la em dogma.

Ao relatar a aquisição da propriedade, o responsável por Lafleur usou uma expressão memorável: era necessário preservar o desconforto. Isso significava permanecer próximo da operação, questionar intermediários e impedir que a reputação gerasse complacência. Empresas bem-sucedidas também precisam dessa fricção. Conselheiros independentes, contato direto com clientes, visitas à operação e disposição para ouvir más notícias evitam que a alta liderança se afaste da realidade. Independência não é distância.  

Deixar uma denominação reconhecida internacionalmente implica renunciar a uma referência valiosa e assumir riscos reputacionais. No caso de Lafleur, porém, a decisão foi precedida por anos de observação, dados, testes e aprendizado. Coragem não é impulsividade. Convicção não dispensa evidências.  

Organizações longevas precisam de equilíbrio para administrar tensões, estrutura para proteger o que tem valor e estratégia para distinguir o que deve permanecer daquilo que precisa ser abandonado. Mudar para continuar o mesmo não é uma contradição. É reconhecer que o verdadeiro legado não está nas respostas do passado, mas na capacidade de formular novas respostas sem abandonar os princípios que deram sentido à organização.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Mudar para continuar o mesmo

Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

SOMPO Holdings: da crise provocada por si mesma a uma transformação guiada por propósito

Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Por que lavar as mãos ainda é uma das maiores armas da medicina?

Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Vamos falar sobre vendas?

Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Se o estagiário lidera a reunião, quem é o líder?

Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Liderança, Cultura organizacional
5 de agosto de 2026 08H00
A mobilização que o maior evento esportivo do mundo desperta revelou algo poderoso sobre os brasileiros: nossa capacidade de nos unir em torno de um objetivo comum. Mas por que essa mesma energia raramente se traduz em avanços estruturais para o país?

Laura Jane Pereira de Souza - Administradora de empresas, consultora e mentora

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 de agosto de 2026 14H00
O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
4 de agosto de 2026 de 2026
Durante um dos maiores congressos de RH do mundo, uma provocação ganhou destaque: o futuro da área não será definido por sua capacidade de justificar sua relevância, mas por demonstrar, com dados e resultados, o impacto que gera para o negócio. Em um cenário marcado por inteligência artificial, novas formas de trabalho e pressão crescente por resultados, o RH é chamado a assumir um papel cada vez mais estratégico.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

3 minutos min de leitura
Liderança
3 de agosto de 2026 14H00
Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
3 de agosto de 2026 08H00
Por que relações saudáveis deixaram de ser apenas uma questão de clima organizacional para se tornarem um fator estratégico de competitividade? O artigo mostra como a confiança entre pessoas e áreas influencia diretamente a velocidade de execução dos negócios.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
2 de agosto de 2026 13H00
Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Sthefano Scalon Cruvinel - Doutrinador do Direito, Auditor Judicial com atuação no STJ e CEO da EvidJuri

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de agosto de 2026 08H00
Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Fernando Wosniak Steler - Co-Fundador e CEO da Delend

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
1º de agosto de 2026 14H00
Impulsionadas pelas exigências de investidores, certificações ambientais e adaptação climática, as edificações sustentáveis consolidam-se como ativos estratégicos para empresas que buscam eficiência, resiliência e geração de valor de longo prazo.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor e responsável técnico da HotFloor

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de agosto de 2026 08H00
Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Roberto Vilela - Consultor empresarial, estrategista de negócios, escritor e palestrante 

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de julho de 2026 14H00
Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

Tássia Galvão - Fundadora e CEO da Konne

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo