Pessoas reúnem repertórios, experiências, expectativas e formas de trabalhar diferentes e esse parece um ponto pacificado nos discursos sobre gestão. Se é assim, por que a discordância, que faz parte desse encontro, causa tanto desconforto e desconexão, quando nada mais é do que a realidade? E o que fazer quando ela não aparece?
Convivemos com diferenças represadas. A reunião termina, nem todo mundo disse o que precisava ser dito e a divergência migra para conversas paralelas. Pessoas mais jovens evitam tensionar quem ocupa posições mais seniores. Profissionais com mais tempo de experiência deixam de insistir quando percebem que suas referências já foram classificadas como antigas. O incômodo circula nas entrelinhas, paralelas, subsolos… O nome pouco importa. Fato é que a conversa, aquela necessária, gentil, mas que não vai deixar de tocar no que deve ser discutido, não acontece.
Esse silêncio cobra um preço alto.
Quando as diferenças não encontram espaço para conviver como posicionamentos, contribuições, complementaridades, todo mundo perde acesso a perguntas melhores e decisões mais consistentes. A diversidade segue presente no time, nos números e até nas metas e compromissos, mas não tem potência prática.
Confundir baixa tensão visível com alinhamento é um erro comum. O ambiente parece calmo, mas porque as discordâncias aparecem na resistência silenciosa, na execução sem convicção, na conversa de corredor, na decisão que ninguém questionou.
Diferenças podem gerar complementaridade quando encontram condições para virar conversa. O conflito produtivo nasce exatamente aí e a literatura ajuda a nomear essa diferença.
O conflito de tarefa coloca ideias, caminhos e prioridades em debate. O conflito relacional desloca a tensão para as pessoas. O primeiro amplia repertório e pode favorecer inovação. O segundo desgasta vínculos e reduz a colaboração.
O bom conflito exige curiosidade, abertura, humildade intelectual e segurança para falar. Também, liderança capaz de sustentar a tensão, ouvir perspectivas diferentes e evitar consensos apressados.
Silêncio não significa alinhamento e colaboração nasce da capacidade de fazer algo útil com a tensão.
O movimento existe quando a há espaço para que as diferenças existam como matéria-prima para aprendizagem, ampliação de perspectivas, melhora nas decisões e criação de combinações entre experiência e renovação, velocidade e profundidade, repertório e experimentação, e tantas outras possibilidades quanto aquelas que permitirmos ter voz.
“O E” ajuda a visibilizar e sustentar a tensão com responsabilidade. Para aprofundarmos o desenvolvimento dessa competência, que tal pensar por aí em quais discordâncias importantes ainda não encontraram espaço para serem conversadas, priorizá-las e iniciar o movimento?
Certamente há valor esperando por uma conversa!




