Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
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Nem todo problema precisa de inteligência artificial

A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.
Idealizado em parceria entre Learning Village, CESAR e Automotive Business, o Hub Mobilidade do Learning Village se posiciona como um epicentro de inovação e tecnologia no setor.
Diretor de Operações da Formel D e possui mais de 15 anos de experiência em operações industriais e no setor automotivo. Ao longo da carreira, atuou em ambientes Tier 1 e liderou áreas como supply chain, manufatura, engenharia industrial, qualidade e melhoria contínua, em posições gerenciais e executivas.

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Em reuniões com executivos e gestores de empresas de diferentes portes, escuto com frequência a mesma orientação: “Precisamos implementar inteligência artificial”. Minha primeira pergunta é: para resolver qual problema? Nem sempre existe uma resposta clara.

Em muitas organizações, a IA ainda é tratada como uma cobrança, e não como parte de decisões estratégicas. Exige-se que as áreas utilizem a tecnologia antes mesmo de definir claramente o problema a ser resolvido, os objetivos, o orçamento e os resultados esperados. Esse tipo de situação produz iniciativas com pouco retorno, que perdem apoio antes de ganhar escala. Quando fracassam, reforçam a percepção de que a IA não funciona, embora a causa esteja, muitas vezes, na definição inadequada do problema, na falta de integração e na falta de planejamento.

A escolha começa pelo problema

Antes de escolher a tecnologia, a liderança precisa compreender claramente o problema, dimensionar seu impacto e definir o resultado esperado. Somente depois dessa fase, deve avaliar quais dados estão disponíveis e qual solução é mais adequada.

Mesmo quando a empresa possui grande volume de dados, essas informações frequentemente permanecem dispersas entre os departamentos. Sem integração, torna-se difícil compreender como uma decisão afeta o processo de ponta a ponta. O desafio não é apenas possuir dados, mas dar contexto a eles e utilizá-los nas decisões do negócio de tal forma que gere valor.

Na minha avaliação, a escolha da solução começa pelo entendimento dos efeitos do problema. Em seguida, peço uma análise da causa raiz, utilizando uma metodologia estruturada, e verifico se o processo está estável. Somente depois avalio as tecnologias disponíveis e o retorno sobre o investimento. Procuro sempre adotar a solução mais simples que resolva o problema de forma robusta e evite sua reincidência. Se uma melhoria de processo ou uma automação convencional for suficiente, não há razão para aplicar inteligência artificial

Na automação convencional, a empresa define previamente as regras e o sistema as executa. Na inteligência artificial, o modelo identifica relações nos dados para classificar, prever ou recomendar ações em situações nas quais as regras fixas não são suficientes. A decisão sobre qual abordagem utilizar deve considerar a complexidade do problema, a qualidade dos dados, o custo da solução e o retorno esperado.

Sem essa disciplina, a empresa corre o risco de automatizar um processo ineficiente ou aplicar uma solução complexa de IA quando uma melhoria de processo ou uma automação convencional resolveria o problema com menor custo e maior retorno.

Automatizar a inspeção não significa resolver o problema

Em uma operação industrial que acompanhei, discutiu-se a implantação de um sistema de inspeção com uso de inteligência artificial para identificar irregularidades no cordão de solda. Durante a análise, percebemos que o investimento aumentaria a velocidade e a precisão da detecção, mas não reduziria a geração de defeitos. Em outras palavras, passaríamos a identificar melhor o problema sem eliminar sua causa.

Antes de automatizar a inspeção, é necessário investigar as possíveis causas: parâmetros inadequados do equipamento, desgaste de componentes, variação da matéria-prima, falhas de preparação, condições ambientais ou ausência de padronização operacional.

Depois que o processo estiver compreendido e estabilizado, a automação pode assumir tarefas repetitivas de inspeção. A inteligência artificial passa a fazer sentido quando existe a necessidade de reconhecer padrões complexos, relacionar o defeito às variáveis do processo e sinalizar causas prováveis ou tendências de falha, que deverão ser validadas pelos especialistas do processo.

A decisão pode seguir cinco etapas: compreender o problema → eliminar a causa → estabilizar o processo → automatizar o controle → aplicar IA quando a complexidade justificar.

Esse exemplo mostra que investir em mais tecnologia não garante uma decisão melhor. O resultado depende de escolher a solução adequada para cada estágio do problema.

Visão sistêmica exige governança

Para que essa lógica saia do papel, cada iniciativa precisa de patrocínio executivo e de uma equipe transversal. As áreas envolvidas devem analisar o processo em conjunto e utilizar uma metodologia comum para comparar alternativas de solução.

Isso não significa reunir todos os departamentos em todos os projetos. A composição da equipe deve considerar quem conhece o processo, quem possui os dados, quem será afetado pela mudança e quem tem autoridade para disponibilizar os recursos necessários.

Os papéis precisam estar claramente definidos. A liderança estabelece as prioridades, os resultados esperados e os recursos disponíveis. As áreas de negócio compreendem o problema, mapeiam o processo, dimensionam os impactos e acompanham os resultados. A área de tecnologia avalia a infraestrutura, a integração, a disponibilidade, a qualidade e a segurança dos dados necessários para viabilizar a solução

Consultorias, startups, universidades e centros de inovação podem contribuir com metodologia e conhecimento especializado. Entretanto, não devem definir sozinhos o que é estratégico para a organização. Essa responsabilidade continua sendo dos executivos e das áreas de negócio.

Sem governança, muitos projetos não avançam além da prova de conceito. A empresa testa a tecnologia e apresenta uma demonstração, mas não define responsável, orçamento, indicadores, integração com os processos existentes ou critérios para ampliar a solução.

Por isso, cada iniciativa deve começar com respostas objetivas para algumas perguntas:

  • Qual problema será resolvido?
  • Qual resultado esperamos alcançar?
  • Quem será o responsável pelo projeto?
  • Quais áreas precisam participar?
  • Quais dados serão necessários?
  • Quanto será investido?
  • Como o resultado será medido?
  • Quais critérios determinarão a continuidade ou interrupção do projeto?


Sem essas definições, a cobrança pelo uso de inteligência artificial permanece no discurso. Com governança, os projetos deixam de ser experiências isoladas e passam a se conectar à estratégia e à operação da empresa.

Quando estrutura e tecnologia produzem resultados

Um exemplo recente é o projeto INSIGHT, desenvolvido pelo BMW Group em parceria com a Universidade de Zagreb para otimizar a produção de células de bateria. Os resultados mais recentes da iniciativa foram divulgados em abril de 2026.

A iniciativa utiliza dados de testes existentes e informações coletadas em tempo real para prever parâmetros de processo e desempenho. Segundo o BMW Group, em determinadas etapas, os sistemas reduziram em mais de 50% o material e o tempo necessários, mantendo ou melhorando a qualidade.

Para esta discussão, o aspecto mais relevante não é apenas o algoritmo, mas a forma como o projeto foi organizado. Havia um problema concreto, especialistas de diferentes áreas e uma parceria acadêmica para estruturar os dados e desenvolver os modelos.

A combinação de conhecimento industrial, engenharia e ciência da computação conectou a inteligência artificial a uma necessidade concreta da produção e permitiu mensurar os resultados.

Na minha avaliação, esse caso confirma algo que observo nas operações industriais: a decisão de utilizar inteligência artificial não pode ser o ponto de partida. Projetos consistentes começam com um problema relevante, dados disponíveis, competências adequadas, governança e critérios claros para medir os resultados.

Quando a empresa não possui internamente todas as competências necessárias, pode recorrer a consultorias, startups, universidades e centros de inovação. Esses parceiros podem apoiar o mapeamento dos processos, a identificação das oportunidades e a avaliação da solução mais adequada, que poderá envolver melhoria de processo, automação ou inteligência artificial.

No Brasil, mecanismos de inovação cooperativa também podem apoiar esses projetos. A EMBRAPII é um exemplo: por meio de instituições credenciadas, compartilha parte dos custos e dos riscos de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Esse apoio pode reduzir as barreiras iniciais à experimentação, mas não substitui a análise do problema, do retorno esperado e da viabilidade da solução.

Independentemente do parceiro ou do mecanismo de fomento, vejo como papel da liderança definir as prioridades, assegurar os recursos e garantir que a iniciativa esteja conectada aos objetivos estratégicos da organização

Tecnologia como meio, não como fim

Automação e inteligência artificial são meios para alcançar resultados, não fins em si mesmas. Para sustentar e ampliar seu uso, a organização precisa de responsáveis definidos, orçamento, processos conhecidos e dados confiáveis.

Nem todo problema precisa de inteligência artificial. Algumas situações exigem a correção ou padronização do processo; outras podem ser resolvidas com automação baseada em regras. A IA torna-se relevante quando a complexidade, o volume de dados ou a variabilidade do cenário ultrapassam a capacidade das abordagens convencionais. Entender essa diferença permite aplicar a inteligência artificial onde ela realmente pode gerar valor.

Na minha opinião, antes de decidir qual solução de inteligência artificial utilizar, o executivo deveria responder a três perguntas: qual problema queremos resolver? Qual resultado esperamos alcançar? Nossa organização está preparada para sustentar essa solução?

Por isso, considero que a maturidade digital de uma empresa não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de identificar problemas relevantes, escolher a abordagem adequada e  transformar tecnologia em resultados concretos.

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