Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 minutos min de leitura

O benefício existe. Mas as pessoas têm tempo para usá-lo?

Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.
CEO Latam da TotalPass, um dos maiores players de benefício corporativo de saúde e bem-estar integrado do mercado. Com 20 anos de experiência nas áreas de vendas e marketing, o profissional liderou a aceleração de negócios para grandes empresas. Por mais de 6 anos, ocupou o cargo de Diretor de Vendas na Indeed, maior hrtech do mundo. O executivo também teve passagens pela Bueno Netto, Michael Page e Gafisa. Formado em Comunicação Social com ênfase em Publicidade e Propaganda pela FAAP, possui pós-graduação em Liderança e Disrupção pela Stanford e já realizou cursos de especialização em Harvard e Hyper Island.

Compartilhar:

Durante anos, a discussão sobre bem-estar corporativo avançou pela lógica da oferta: ampliar benefícios, criar novas frentes de cuidado e dar mais opções aos colaboradores. Esse movimento foi importante e ajudou a colocar saúde física, emocional e social no radar das empresas. Mas, olhando o mercado hoje como CEO e acompanhando de perto a evolução dessa agenda, acredito que a pergunta mais relevante mudou. O desafio já não é apenas o que as empresas oferecem. É se a forma como o trabalho está organizado permite que as pessoas, de fato, usem o que está disponível.

Essa mudança de perspectiva importa porque é muito fácil confundir acesso com cuidado. Uma empresa pode ter uma plataforma completa de bem-estar e, ao mesmo tempo, manter uma rotina em que reuniões ocupam todos os espaços da agenda, a disponibilidade permanente é interpretada como comprometimento e fazer uma pausa parece exigir justificativa. Nesse cenário, o benefício existe formalmente, mas disputa espaço com regras não escritas muito mais fortes.

Para mim, essa é a provocação que precisa chegar à mesa das lideranças. Quando a adesão é baixa, a pergunta automática costuma ser: por que as pessoas não estão usando o benefício? Talvez devêssemos inverter a lógica: o que, na nossa cultura, na nossa carga de trabalho e no comportamento da liderança, está dificultando esse uso? O bem-estar deixa de ser uma discussão sobre portfólio de benefícios e passa a ser uma discussão sobre desenho do trabalho.

Foi justamente essa contradição que apareceu com clareza no Prêmio RH de Bem-Estar, iniciativa da TotalPass em parceria com a Pin People, que analisou práticas de centenas de empresas brasileiras. O levantamento mostra que a oferta já avançou bastante: praticamente todas as empresas participantes desenvolvem iniciativas ligadas ao bem-estar físico, e a maioria também atua nas dimensões emocional e social. Ainda assim, 44% apontam a falta de tempo como uma das principais barreiras para a participação dos colaboradores.

Eu não leio esse número apenas como um problema de engajamento, mas como um sinal de gestão. Tempo não é um benefício que o RH entrega; ele é consequência de prioridades, carga de trabalho, autonomia, rituais, agendas e exemplos dados pela liderança. Se cuidar da saúde só cabe depois que todas as demandas foram cumpridas, o cuidado inevitavelmente vai para o fim da fila.

E quando o cuidado vai para o fim da fila, as consequências também chegam às organizações. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade relacionados a transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,66% em relação a 2024, quando foram registrados 472.328. O cenário tem múltiplas causas e não pode ser atribuído exclusivamente ao trabalho, mas ajuda a dimensionar os impactos que o adoecimento pode ter sobre a vida profissional e sobre as próprias empresas. Para as organizações, afastamentos podem representar perda de continuidade, sobrecarga das equipes e impactos na produtividade.

É aí que a liderança intermediária ganha um papel decisivo. Um gestor pode dizer que apoia o bem-estar da equipe, mas o comportamento cotidiano comunica muito mais do que qualquer campanha. Se ele próprio não faz pausas, ocupa todos os horários disponíveis com reuniões ou valoriza quem está sempre online, a mensagem que chega ao time é clara. Cultura não é apenas aquilo que a empresa declara que valoriza; é aquilo que as pessoas percebem que podem fazer sem medo de serem julgadas ou penalizadas.

O mesmo levantamento também aponta lacunas na estruturação e no acompanhamento dessas iniciativas. E isso revela outro ponto de maturidade. Durante muito tempo, foi suficiente medir quantos benefícios estavam disponíveis. Agora, precisamos medir se eles são conhecidos, utilizados e incorporados à rotina. Sem essa leitura, uma empresa pode celebrar um portfólio robusto e ainda assim não saber onde estão as barreiras que impedem o cuidado de acontecer.

Na minha visão, a próxima evolução do bem-estar corporativo passa por três movimentos combinados: ouvir melhor as pessoas, reduzir os atritos que dificultam o uso e responsabilizar a liderança pela criação de condições reais de cuidado. Não se trata de reduzir ambição por performance. Trata-se de reconhecer que uma rotina insustentável cobra seu preço justamente pela capacidade de sustentar resultados ao longo do tempo.

Na TotalPass, também buscamos aplicar essa reflexão dentro de casa. Nossos colaboradores têm acesso ao plano mais completo da plataforma, o TP7. A mesma lógica de flexibilidade orienta decisões como o Check-in Extra, pensado para ampliar possibilidades de uso ao longo do dia. O princípio por trás dessas iniciativas é simples: o benefício precisa se adaptar à vida das pessoas, e não exigir que elas se reorganizem toda a vida para conseguir utilizá-lo.

Para CEOs e demais lideranças, esse debate precisa sair do campo do benefício e entrar no campo da gestão. Um benefício pouco utilizado não é apenas uma oportunidade perdida de cuidado; também pode ser um sinal de que existe uma distância entre a cultura que a empresa quer construir e a rotina que ela efetivamente permite. É essa distância que precisamos começar a medir e enfrentar.

As empresas já aprenderam a ampliar o acesso ao bem-estar. O próximo passo é criar espaço para ele acontecer. Talvez a evolução mais importante dessa agenda não seja descobrir qual novo benefício adicionar ao pacote, mas identificar quais barreiras precisam ser removidas para que as pessoas consigam cuidar de si sem culpa, sem justificativas e sem transformar o próprio cuidado em mais uma tarefa após um dia já cheio. Porque, se não há tempo para se cuidar, o benefício existe – mas o bem-estar ainda não.

Compartilhar:

CEO Latam da TotalPass, um dos maiores players de benefício corporativo de saúde e bem-estar integrado do mercado. Com 20 anos de experiência nas áreas de vendas e marketing, o profissional liderou a aceleração de negócios para grandes empresas. Por mais de 6 anos, ocupou o cargo de Diretor de Vendas na Indeed, maior hrtech do mundo. O executivo também teve passagens pela Bueno Netto, Michael Page e Gafisa. Formado em Comunicação Social com ênfase em Publicidade e Propaganda pela FAAP, possui pós-graduação em Liderança e Disrupção pela Stanford e já realizou cursos de especialização em Harvard e Hyper Island.

Artigos relacionados

O que uma prótese de quadril me ensinou sobre os erros de decisão dentro das empresas

Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Nenhuma estratégia é melhor do que a lente que a criou

Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Centauros corporativos: quem está no controle da inteligência?

Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Cláusula de raio: proteção legítima ou barreira à concorrência?

Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de agosto de 2026 08H00
Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Roberto Vilela - Consultor empresarial, estrategista de negócios, escritor e palestrante 

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de julho de 2026 14H00
Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

Tássia Galvão - Fundadora e CEO da Konne

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de julho de 2026 08H00
Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

6 minutos min de leitura
Cultura organizacional
30 de julho de 2026 14H00
Tecnologias, processos e estratégias podem mudar rapidamente. O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de preservar os princípios que orientam decisões e comportamentos, transformando a cultura em um elemento de coerência em meio à mudança contínua.

Diego Alegre - CEO do Arquipélago "Culturas que transformam"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de julho de 2026 07H00
A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

21 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de julho de 2026 14H00
Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.

Átila Persici - COO da Bolder

8 minutos min de leitura
Liderança
29 de julho de 2026 07H00
Embora a presença feminina no mundo do trabalho tenha avançado de forma consistente nas últimas décadas, os desafios permanecem. Neste artigo, a autora propõe uma mudança de perspectiva: menos foco nos obstáculos e mais atenção às alavancas capazes de impulsionar transformações. Entre elas, destaca-se uma competência cada vez mais valiosa em tempos de incerteza: a capacidade de administrar paradoxos e liderar pela lógica do “E”, integrando eficiência e inovação, resultado e cuidado, racionalidade e sensibilidade.

Betania Tanure - PhD, Sócia fundadora da BTA, membro do Conselho de Administração do Magalu e da MRV e cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 14H00
Rampas, tecnologias assistivas e conformidade regulatória são apenas o ponto de partida da inclusão. Entre a conformidade técnica e a adoção real existe um elemento frequentemente negligenciado: a cultura. Este artigo explora como a Inteligência Cultural pode determinar o sucesso ou o fracasso de estratégias globais de inclusão.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor e Clara Choen - Fundadora da Savant Consulting

12 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 08H00
Inspirado pelo legado de Oscar Motomura, o artigo questiona uma das crenças mais difundidas da gestão contemporânea: a ideia de que a transformação acontece apenas por meio das pessoas. A verdadeira mudança, argumenta o autor, depende da capacidade de revisar as estruturas invisíveis que moldam comportamentos, decisões e culturas organizacionais.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
27 de julho de 2026 14H00
Após anos de perda de passageiros e desafios financeiros, o transporte coletivo brasileiro ganha um novo marco regulatório que busca ampliar fontes de financiamento, reduzir desequilíbrios tarifários e criar condições para mais investimentos em qualidade, eficiência e experiência do usuário.

Vinicius Ladeira - Diretor Adjunto Nacional do SEST SENAT

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo