Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 minutos min de leitura

O cargo que vai sumir não é o que você está pensando

A maior vulnerabilidade da era da IA pode não estar nos profissionais juniores, mas nos cargos criados para coordenar fluxos e transmitir informações. O que acontece quando a tecnologia passa a fazer isso melhor, mais rápido e mais barato?
Economista, palestrante, estrategista de negócios e conselheira. Fundadora da Trama, consultoria estratégica focada no crescimento de negócios, já ajudou mais de 1.000 empresas e produtos a escalarem com inteligência e impacto real. Com passagens por organizações como Cubo Itaú, Stefanini e Liga Ventures, e conselheira de empresas em crescimento. Foi reconhecida pela Exame como uma das 10 profissionais mais influentes em Open Innovation no Brasil e pela Wired como uma das 50 pessoas multiplicadoras de criatividade.

Compartilhar:

A leitura mais comum sobre o impacto da IA nas empresas está olhando para o lugar errado do organograma. Anota aí, a primeira fileira que vai sumir não é a de entrada, é a do meio. E os dados que circulam pouco já confirmam esse padrão.

A imprensa repetiu nos últimos meses uma versão simpática do mesmo argumento: a IA vai engolir o trabalho de entrada, vai fechar a porta dos jovens, vai estrangular a base da pirâmide corporativa. Eu não tenho dúvida que parte disso vai acontecer, mas a estatística silenciosa do mercado mostra outro filme. Segundo levantamento do Gartner divulgado neste ano, até o final de 2026, uma em cada cinco grandes empresas vai usar IA para eliminar mais da metade dos cargos de gestão intermediária. A consultoria Revelio Labs apontou que a oferta de vagas de média gerência nos Estados Unidos no fim de 2025 caiu 42% em relação ao pico de três anos antes. O cargo que está sendo silenciosamente esvaziado não é o de quem começa, é o de quem coordena.

Faz sentido se você olhar para o que esses cargos efetivamente fazem. Boa parte da gestão intermediária tradicional, ou média gestão, existia para coordenar fluxo entre áreas, traduzir prioridades de cima para baixo, consolidar relatórios, distribuir tarefas, cobrar status e responder por entrega. Em uma frase só, esses cargos faziam trabalho de ponte. Recebem de um lado, processam, encaminham para o outro. E esse tipo de trabalho de ponte é a primeira coisa que sistemas integrados de IA conseguem fazer sem cansar, sem férias, sem virada de humor e sem custo trabalhista. O gestor cuja função se resumia, na prática, a ser elo entre áreas, e havia muitos, está descobrindo agora que essa função se sobrepõe quase inteiramente ao escopo de um agente automatizado que custa o equivalente a um quinto do salário dele.

Aqui está o paradoxo que torna o caso difícil. Esses gestores não foram contratados sendo medíocres. Muitos eram tecnicamente bons, organizados, confiáveis, e cresceram por mérito. O que mudou foi a natureza da função, não a qualidade da pessoa. Eles cresceram quando coordenar era valioso. Hoje, coordenar virou infraestrutura. O que continua escasso, e o que vai sustentar quem ficar, é decidir, mediar e contextualizar. Decidir, no sentido de assumir o risco da escolha quando os dados não fecham. Mediar, no sentido de negociar interesses humanos que não cabem em painel. Contextualizar, no sentido de traduzir uma diretriz da matriz para uma realidade de planta, de filial, de cliente específico. Nenhuma dessas três é trabalho de ponte. Todas as três são, no vocabulário antigo, soft skill, e estão virando o eixo da nova gerência.

E o que as empresas estão fazendo com isso? Na maioria dos casos, ainda nada de estrutural. Estão demitindo analistas júnior porque é mais fácil politicamente, estão protegendo gestores que viraram pura ponte operacional porque é mais difícil pessoalmente, e estão atrasando uma conversa que só fica mais cara quanto mais demora. Pesquisa do próprio Gartner divulgada em maio alerta que demissões em massa motivadas por IA têm gerado retorno menor do que o esperado, e que as organizações que estão de fato melhorando ROI são as que ampliam a capacidade das pessoas através de sistemas de IA, em vez de cortar posições. Reconversão tem dado mais resultado do que substituição.

Para quem está na cadeira de decisão de pessoas agora, três princípios ajudam mais do que um plano de cortes. Mapear cada cargo de gestão intermediária. Priorizar reconversão antes de substituição, porque a empresa que troca pessoa por sistema sem antes esgotar a capacidade de reaproveitar vai pagar duas vezes a mesma fatura. Redesenhar a régua de avaliação da liderança intermediária para que decidir, mediar e contextualizar entrem com peso explícito, porque o que não se mede continua sendo o que se demite.

A pergunta que precisa estar na pauta do conselho não é mais quanto cortar. É o que estamos protegendo como infraestrutura humana da empresa. Gestão intermediária, ou média gestão, não é uma linha de custo. É o tecido que sustenta cultura, sucessão e capacidade de execução. Quando esse tecido é tratado como linha de planilha, o ganho de curto prazo aparece no próximo trimestre. A fatura aparece três anos depois, nas decisões que ninguém quer tomar, nas mediações que ninguém quer fazer e nas traduções que ninguém soube preservar.

Os próximos três anos vão dizer quem entendeu a diferença.

Compartilhar:

Economista, palestrante, estrategista de negócios e conselheira. Fundadora da Trama, consultoria estratégica focada no crescimento de negócios, já ajudou mais de 1.000 empresas e produtos a escalarem com inteligência e impacto real. Com passagens por organizações como Cubo Itaú, Stefanini e Liga Ventures, e conselheira de empresas em crescimento. Foi reconhecida pela Exame como uma das 10 profissionais mais influentes em Open Innovation no Brasil e pela Wired como uma das 50 pessoas multiplicadoras de criatividade.

Artigos relacionados

Por que a IA se tornou membro essencial em equipes de manutenção preditiva?

A evolução da manutenção preditiva está levando a inteligência artificial para além da detecção de falhas. Sistemas multiagentes especializados começam a atuar como apoio para diferentes perfis profissionais, conectando análises técnicas, indicadores operacionais e recomendações de ação em um único fluxo de trabalho. O resultado é uma tomada de decisão mais rápida, contextualizada e alinhada às necessidades da operação.

Estamos dispostos a arriscar o futuro da humanidade pelo resultado no curto prazo?

Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

O papel dos lubrificantes nos 70 anos da indústria automotiva no Brasil

A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Smart Sampa: vazamento de senhas expõe o desafio de proteger uma cidade monitorada por milhares de câmeras

O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

Direito, Regulação & Compliance
16 de setembro de 2026 08H00
Em tempos de exposição digital permanente, o compartilhamento de fotos e informações de crianças nas redes sociais exige uma reflexão cada vez mais necessária: até que ponto registrar memórias é diferente de tornar a infância pública? O fenômeno do sharenting convida pais e responsáveis a repensarem os limites entre afeto, privacidade e responsabilidade no ambiente online.

Ana Bia Medeiros - Líder em Educação na Kiddle Pass

4 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
15 de setembro de 2026 14H00
Mais conectado, informado e exigente, o consumidor de hoje compara sua experiência de hospedagem com os melhores serviços que encontra em qualquer setor. Em um mercado cada vez mais competitivo, o futuro dos hotéis dependerá da combinação entre inovação, eficiência e de pessoas que tenham a capacidade de criar experiências memoráveis

Rodrigo Miluzzi - Diretor de Operações do Grupo Mabu

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
15 de setembro de 2026 08H00
A partir de uma conversa com Rogério Almeida, principal executivo do Cristália, este artigo discute como investimentos de longo prazo em pesquisa, tecnologia e capacidade produtiva podem contribuir para a construção de maior autonomia científica e industrial no Brasil.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

23 minutos min de leitura
Tecnologia e inovação, Estratégia
14 de setembro de 2026 18H00
A pergunta tem aparecido cada vez mais nas reuniões de orçamento. O desafio é que a resposta raramente está no código. Mais do que anunciar o fim do SaaS, a nova onda tecnológica está redefinindo onde o valor do software realmente está, quem o captura e quais capacidades as organizações escolherão desenvolver ou contratar.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

13 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
14 de setembro de 2026 14H00
Um erro pesa mais do que dez acertos! A ciência mostra que experiências negativas exercem um impacto desproporcional sobre nosso comportamento. Nas organizações, essa tendência pode fazer com que líderes se tornem especialistas em apontar falhas e deixem invisíveis os comportamentos que fortalecem resultados, aprendizado e colaboração.

Valter Bahia Filho - Autor e consultor educacional de Neurociência e Comportamento, Psicologia Positiva, Comunicação, Artes e Gestão de Pessoas.

12 minutos min de leitura
Liderança
14 de setembro de 2026 08H00
Inspirada na filosofia dos mestres jardineiros japoneses, o autor analisa a trajetória centenária da Omron e questiona um dos pilares da gestão tradicional: e se o papel do líder não fosse controlar resultados, mas cultivar o ambiente onde inovação, autonomia e crescimento acontecem naturalmente?

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

11 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 17H00
Modelos de inteligência artificial estão cada vez mais baratos, disponíveis e semelhantes em desempenho. O desafio das organizações não é apenas automatizar processos, mas definir onde a decisão deve continuar sendo humana e como transformar discernimento em vantagem competitiva.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Estratégia e Execução
13 de setembro de 2026 14h00
Os movimentos recentes de Art’G e Belmont Emeralds revelam estratégias de geração e captura de valor

Adriana Salles Gomes

0 min de leitura
Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 08H00
Enquanto os ciclos tecnológicos se tornam cada vez mais curtos, organizações enfrentam um desafio permanente: transformar inovação em resultados concretos e que gere valor para o negócio no longo prazo.

Andréia Rengel - CEO e sócia da AMcom

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
12 de setembro de 2026 14H00
Em um ambiente empresarial cada vez mais orientado por dados, o people analytics permite que o RH amplie sua influência nas decisões corporativas.

Gabriela Resende - Diretora de Operações de Recursos Humanos da Propay

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução