Liderança
5 minutos min de leitura

O CEO fundador é o maior obstáculo do próprio negócio

Quando a empresa cresce, o modelo mental do fundador precisa crescer junto - ou vira obstáculo. Este artigo demonstra que criar uma empresa exige um tipo de liderança. Escalá‑la exige outro.
CEO do Lance! e empreendedor serial com 25 anos de atuação no mercado digital. Fundou e liderou startups como We Do Logos e Escola de CEO, ele também construiu negócios em educação e aceleração comercial, como o Grupo Mola e o Sales Club. Gustavo é board member, investidor e TEDx Speaker.

Compartilhar:

Durante muitos anos, o fundador foi visto e celebrado como o grande herói da história de uma empresa. É quem tem a visão inicial, assume riscos quando ninguém mais acredita e constrói o primeiro produto que dá origem ao negócio. Sem essa figura, muitas empresas simplesmente não existiriam. Mas há uma provocação importante que todo empreendedor precisa enfrentar em algum momento da jornada: a mesma pessoa que cria o negócio pode se tornar o principal obstáculo perante ao seu crescimento.

Essa ideia pode parecer dura à primeira vista, afinal, estamos falando justamente da pessoa que teve a coragem de começar, mas ela reflete uma realidade bastante comum no mundo dos negócios: as habilidades necessárias para criar uma empresa são muito diferentes daquelas necessárias para escalar o negócio.

Um estudo acadêmico ajuda a explicar esse fenômeno. Pesquisadores ligados a universidades como Harvard, Duke e London School of Economics analisaram mais de 13 mil empresas em dezenas de países no âmbito do World Management Survey, um dos maiores levantamentos globais sobre práticas de gestão. O resultado revelou um padrão curioso: empresas lideradas por CEOs fundadores tendem, em média, a apresentar práticas de gestão menos estruturadas do que aquelas comandadas por executivos profissionais. A diferença aparece principalmente em áreas como definição de metas, monitoramento de desempenho e gestão de pessoas – todos fatores diretamente associados à produtividade das companhias. 

O estudo não sugere que os fundadores sejam líderes piores, mas indica que o conjunto de domínios necessários para criar um negócio nem sempre é o mesmo exigido para administrar uma organização em escala. Negócios bem-sucedidos costumam passar por duas fases muito distintas, que exigem tipos de lideranças completamente diferentes.

A fase do fundador

Toda empresa nasce em um ambiente de incerteza. Nos primeiros momentos, o papel do fundador é experimentar: testar produtos, testar canais de aquisição, validar hipóteses e descobrir se aquilo que está sendo construído realmente resolve um problema relevante para o mercado.

No início, o trabalho é quase artesanal. O empreendedor está envolvido em todas as áreas do negócio ao mesmo tempo, do produto às vendas, do marketing à tecnologia. É um período de muita execução e pouca estrutura.

Esse é o momento em que se busca o chamado product-market fit.

Processos ainda não existem, o time é pequeno e as decisões são tomadas rapidamente. A empresa cresce na base da experimentação, aprendendo com erros e ajustando o rumo constantemente. É um modelo que funciona – e muitas vezes é exatamente o que permite que algo ali sobreviva no início.

O problema é que o modelo mental da fase de fundação nem sempre funciona quando a empresa começa a crescer.

A virada de chave: de fundador para gestor

Depois que o negócio encontra tração, a empresa entra em uma nova etapa. O desafio deixa de ser provar que o produto funciona e passa a ser; construir uma organização capaz de crescer de forma sustentável. Nesse momento, o papel do líder muda completamente.

Se antes o foco estava em testar e executar, o foco agora é: estruturar processos, desenvolver líderes, estabelecer rotinas e garantir que a companhia consiga crescer sem depender de uma única pessoa. É uma das transições mais difíceis da vida de um empreendedor. 

Para dar esse próximo salto, não basta ter boas ideias. É preciso estruturar áreas focadas em crescimento, criar processos e consolidar um modelo de gestão que permita fazer o negócio deslanchar.

Quando o fundador vira gargalo – e como resolver

Em empresas em crescimento é comum encontrar fundadores que continuam centralizando decisões, interferindo em áreas operacionais ou mantendo estruturas que funcionavam quando a empresa tinha dez pessoas – mas não quando ela passa a ter cem. Já conheci fundadores que, mesmo com um time na casa dos três dígitos, se mantinham responsáveis por todos os pagamentos da empresa. 

Muitas vezes isso acontece por boas razões. Este profissional quer garantir qualidade, quer manter o padrão que ajudou a construir o negócio ou simplesmente sente dificuldade em delegar responsabilidades. Mas, à medida que a empresa cresce, essa centralização começa a gerar um problema estrutural – e o fundador vira gargalo.

Esse é um padrão recorrente em empresas de todos os setores. E não se trata de uma questão de talento ou capacidade do empreendedor. Muitas vezes é só uma questão de modelo mental. O problema é que crescer exige sistemas, processos e liderança distribuída.

Todo fundador precisa se transformar. Isso significa desenvolver habilidades e gerar conhecimentos que muitas vezes não eram necessários na fase inicial da empresa: gestão de pessoas, construção de governança, tomada de decisão baseada em dados e desenvolvimento de lideranças dentro da organização. 

Significa também aprender a delegar. Em empresas pequenas, o empreendedor costuma resolver tudo. Em empresas maiores, isso simplesmente não é possível. O papel do CEO deixa de ser executar e passa a ser criar as condições para que o time execute bem – e é isso que CEOs fundadores que seguem à frente do negócio aprenderam a fazer.

Empreender não é apenas criar um produto ou abrir uma empresa. O verdadeiro desafio está em evoluir junto com o negócio.

O fundador é fundamental para iniciar a jornada. Ele enxerga oportunidades onde outros veem riscos e tem a coragem necessária para dar o primeiro passo. Mas, para que a empresa continue crescendo, esse mesmo empreendedor precisa estar disposto a se reinventar.

No fim das contas, construir uma empresa de longo prazo exige mais do que visão. Exige capacidade de adaptação. Se antes isso já era necessário, em tempos como os nossos, essa é a habilidade mais importante que um CEO pode desenvolver.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Contratar, promover ou buscar fora: a decisão que separa o líder do gestor

Promover talentos internos, contratar no mercado ou recorrer a executivos por projeto são decisões cada vez mais frequentes em empresas que crescem e se transformam. Mas a escolha mais importante acontece antes disso: compreender qual problema realmente precisa ser resolvido. O artigo discute por que muitas organizações se concentram em preencher posições rapidamente, quando deveriam dedicar mais tempo a entender a natureza, a duração e a complexidade dos desafios que enfrentam.

O retorno ao escritório e a ilusão do controle

O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?

O RH precisa parar de provar que é importante

Durante um dos maiores congressos de RH do mundo, uma provocação ganhou destaque: o futuro da área não será definido por sua capacidade de justificar sua relevância, mas por demonstrar, com dados e resultados, o impacto que gera para o negócio. Em um cenário marcado por inteligência artificial, novas formas de trabalho e pressão crescente por resultados, o RH é chamado a assumir um papel cada vez mais estratégico.

O que a Odisseia pode ensinar às empresas sobre liderança e crise

Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.

Bem-estar & saúde
17 de julho de 2026 08H00
A sensação constante de apagar incêndios não é apenas um problema de produtividade. Este artigo mostra por que organização, gestão da agenda e definição de limites são competências essenciais para preservar desempenho, reduzir o esgotamento e recuperar o controle sobre a própria rotina profissional.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia
16 de julho de 2026 14H00
Copa do Mundo, Olimpíadas, Super Bowl ou Black Friday: toda vez que a atenção coletiva se concentra em um grande evento, o mercado de mídia muda de comportamento. Entender esse movimento pode ser a diferença entre capturar demanda reprimida ou pagar, mais uma vez, o preço do improviso.

Rafael Mayrink - Empresário, sócio do Neil Patel e CEO da NP Digital Brasil

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de julho de 2026 08H00
Robôs humanoides deixaram de ser protótipo e entraram em produção comercial em série. Enquanto conselhos ainda debatem a IA generativa, a automação física avança sem esperar. O atraso não aparece no balanço, mas se acumula como dívida de reação.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Empreendedorismo
15 de julho de 2026 15H00
Construído sobre a área que durante décadas abrigou a fábrica e a recreativa da Tigre, o Cidade das Águas nasceu de uma pergunta pouco comum ao mercado imobiliário: antes de erguer torres, que tipo de bairro vale a pena construir?

Sandra Regina da Silva - Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios

12 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth, User Experience, UX
15 de julho de 2026 08H00
Enquanto a IA assume processos, diagnósticos e tarefas repetitivas, cresce a importância de competências exclusivamente humanas. O desafio das lideranças não é automatizar mais, mas decidir onde a presença humana gera valor que nenhuma tecnologia consegue reproduzir plenamente.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
14 de julho de 2026 18H00
Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

16 minutos min de leitura
Lifelong learning, Estratégia, Marketing & growth
14 de julho de 2026 14H00
Este artigo mostra como os eventos corporativos se tornaram ambientes estratégicos de inteligência coletiva, capazes de ampliar repertório, antecipar tendências e reduzir incertezas para líderes e organizações.

Sidnei Metzner - Gestor nacional de vendas da WK

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
14 de julho de 2026 08H00
Enquanto a longevidade transforma a composição da sociedade e do mercado de trabalho, muitas organizações continuam operando com modelos de gestão construídos para uma realidade demográfica que já não existe. Este artigo discute o conceito que desafia o jovem-centrismo corporativo e convida líderes a repensarem o valor da experiência, da diversidade geracional e da longevidade nas empresas.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora nas áreas de Diversidade Geracional, Etarismo e Longevidade

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de julho de 2026 14H00
Dados mostram o avanço da solidão no ambiente de trabalho, especialmente entre profissionais remotos. O texto propõe uma reflexão sobre como relações de confiança, segurança psicológica e capacidade de convivência se tornaram ativos estratégicos para a saúde organizacional.

Daniela Cais - Designer de Relações Profissionais, TEDx Speaker, Mentora de Comunicação para Carreiras e Negócios

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
13 de julho de 2026 08H00
Durante décadas, empresas competiram por telas, cliques e atenção. Agora, à medida que agentes inteligentes passam a interpretar intenções e executar tarefas, o valor começa a migrar para outro lugar: dados, contexto e capacidade de decisão.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo