ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 minutos min de leitura

O mito da falta de qualificação das pessoas com deficiência

Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.
CEO e fundadora do Grupo Talento Incluir.

Compartilhar:

Quando se trata de inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, um argumento aparece com frequência como justificativa das empresas: a suposta falta de qualificação profissional. Ao longo dos anos, isso se consolidou como uma explicação conveniente para a baixa presença de pessoas com deficiência em determinadas áreas, cargos de liderança e posições estratégicas. Porém, os dados mostram que essa narrativa está longe de explicar a realidade.

É verdade que o Brasil ainda convive com profundas desigualdades educacionais que atingem essa população. Segundo o Censo de 2022, entre as pessoas com deficiência com 15 anos ou mais, 21,3% eram analfabetas, um índice quatro vezes superior ao das pessoas sem deficiência. Entre os brasileiros com deficiência com 25 anos ou mais, 63,1% não haviam concluído o ensino fundamental e apenas 7,4% possuíam ensino superior completo, percentual inferior aos 19,5% registrados entre pessoas sem deficiência.

Esses números revelam um histórico de exclusão que começa muito antes da busca por emprego. A falta de acessibilidade nas escolas, metodologias de ensino pouco inclusivas, ambientes inadequados e ausência de formação para profissionais da educação criam barreiras que limitam o acesso ao ensino e ao desenvolvimento de pessoas com deficiência. No entanto, utilizar esses dados como justificativa para a exclusão no mercado de trabalho é um equívoco. É perpetuar a exclusão.

A 2ª edição da pesquisa Radar da Inclusão 2025, realizada pela Talento Incluir em parceria com o Pacto Global da ONU – Rede Brasil, mostrou que a maioria das pessoas com deficiência que responderam à pesquisa (63%) têm nível superior (ou mais) completo, sendo que 84% estão empregadas ou em busca de trabalho. Ainda assim, a pesquisa revelou também que metade das pessoas com deficiência ou neurodivergentes empregadas possui mais de três anos de empresa e apesar desse tempo de permanência, 67% afirmam nunca ter recebido uma promoção.

A questão é: por que a qualificação não se converte em desenvolvimento de carreira na mesma proporção observada entre profissionais sem deficiência? A resposta aparece quando observamos a trajetória dessas pessoas dentro das organizações.

Se a falta de qualificação fosse realmente o principal problema, seria razoável esperar que, à medida que as pessoas acumulassem estudos, experiência e tempo de empresa, suas oportunidades nas empresas aumentassem. Porém, os dados mostram justamente o contrário: muitos profissionais permanecem por anos nas mesmas funções, independentemente de sua formação acadêmica ou de seus resultados.

Essa realidade evidencia um problema estrutural que raramente é discutido com a mesma intensidade: o capacitismo presente nas decisões de carreira. Ele reduz pessoas com deficiência a uma única característica e frequentemente impede que sejam percebidas em toda a complexidade de suas competências, experiências, potencial de liderança e capacidade de entrega. Em muitos casos, a contratação acontece, mas a confiança para oferecer novos desafios, projetos estratégicos e promoções não acompanha essa decisão.

Não por acaso, 66% das pessoas com deficiência e neurodivergentes que participaram da pesquisa afirmam acreditar que as oportunidades oferecidas pelas empresas não são equânimes.

As principais barreiras apontadas para seu desenvolvimento profissional reforçam esse cenário: ausência de programas de mentoria ou desenvolvimento voltados para pessoas com deficiência (49%), vieses cognitivos nos processos de gestão (40%) e falta de comunicação clara sobre oportunidades internas (40%).

Outro dado chama atenção: muitos profissionais afirmam que as empresas ainda concentram suas contratações de pessoas com deficiência em cargos de entrada, criando um funil que dificulta o acesso a posições de maior responsabilidade. Nesse contexto, a inclusão acontece na porta de entrada, mas não se sustenta ao longo da jornada profissional.

Por isso, é fundamental ampliar o debate sobre qualificação. Não basta discutir se as pessoas com deficiência estão preparadas para trabalhar. Precisamos discutir se as empresas estão preparadas para desenvolver esses profissionais.

Isso inclui tornar acessíveis todos os programas de treinamento e capacitação corporativa. Conteúdos digitais precisam ser compatíveis com tecnologias assistivas. Vídeos devem contar com legendas, audiodescrição e interpretação em Libras. Materiais precisam seguir padrões de acessibilidade. Gestores e instrutores devem receber formação para conduzir processos de aprendizagem inclusivos.

Quando o treinamento não é acessível, cria-se mais uma barreira. A pessoa está contratada, mas fica afastada das oportunidades que impulsionam o crescimento na carreira.

A verdadeira inclusão não se mede apenas pelo número de admissões. Ela se revela quando pessoas com deficiência conseguem acessar treinamentos, participar de projetos estratégicos, assumir posições de liderança e construir trajetórias profissionais compatíveis com sua formação e seu potencial.

A qualificação é importante e continua sendo uma ferramenta fundamental para ampliar oportunidades. Os dados mostram que ela não é, sozinha, o fator que determina o crescimento profissional das pessoas com deficiência. Quando profissionais qualificados permanecem estagnados por anos, o problema deixa de ser individual e passa a ser organizacional.

Os dados já desmontaram o mito da falta de qualificação. Às empresas, cabe ajudar a derrubar essa barreira sobre pessoas com deficiência poderem ocupar qualquer vaga, mas não necessariamente todos os espaços de poder, desenvolvimento e liderança.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O mito da falta de qualificação das pessoas com deficiência

Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

O tempo que doamos é o futuro que aceleramos

O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

O cliente ainda precisa de vendedores?

A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

76% das organizações já têm um Chief AI Office (CAIO). E agora, qual é o papel do CEO?

Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Empresa familiar sem governança é refém do fundador; com governança, vira legado

O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

A NR-1 perguntou sobre o trabalho. A empresa respondeu sobre as pessoas.

A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

Estratégia, Ecossistema
15 de agosto de 2026 08H00
Embora a maioria das empresas reconheça o potencial dos ecossistemas de parceiros para gerar receita e ampliar mercados, poucas conseguem transformar essa ambição em resultados consistentes. O artigo explora por que a construção de um ecossistema eficaz vai muito além da criação de um canal comercial, exigindo arquitetura, governança, ativação e uma estratégia capaz de conectar parceiros aos objetivos de crescimento do negócio.

Juliana Tubino e Nara Vaz Guimarães - Cofundadoras do Ecossistema Octo e coautoras do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing
14 de agosto de 2026 13H00
Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

Antonio Carlos Matos da Silva - Conselheiro independente associado ao IBGC

5 minutos min de leitura
Liderança
14 de agosto de 2026 08H00
Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

13 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de agosto de 2026 14H00
Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Marcos Gurgel - Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Vendas
13 de agosto de 2026 08H00
Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança
12 de agosto de 2026 14H00
Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo