ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 minutos min de leitura

O que estamos fazendo para garantir trabalho digno às pessoas com deficiência e avançar nos ODSs da agenda 2030?

Trinta e cinco anos após a criação da Lei de Cotas, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho continua sendo medida principalmente pelo número de contratações. O desafio agora é outro: garantir experiências de trabalho dignas, acessíveis e capazes de promover desenvolvimento, pertencimento e crescimento profissional.
CEO e fundadora do Grupo Talento Incluir.

Compartilhar:

Precisamos falar de forma mais direta sobre inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Não apenas sobre quantas contratações são feitas, mas sobre a qualidade dessa inclusão e o impacto real que ela tem nos compromissos assumidos pelas empresas com a Agenda 2030 da ONU.

Os avanços existem, mas ainda são tímidos. E, na maioria das vezes, continuam concentrados no acesso ao emprego e não na experiência de trabalho. A Lei de Cotas, que acaba de completar 35 anos, segue sendo a principal e, muitas vezes, a única porta de entrada para pessoas com deficiência no mercado formal. Esse dado, por si só, revela um cenário importante: ainda estamos falando mais de obrigação do que de transformação.

Mas a inclusão não é sobre contratar. É sobre contratar com dignidade. É exatamente esse o ponto de conexão com a Agenda 2030. Ao estabelecer os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a ONU propôs um compromisso global que coloca pessoas, planeta e prosperidade no centro das decisões. Entre esses objetivos, a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades aparecem como desafios estruturais e absolutamente interligados ao acesso ao trabalho digno.

Nesse contexto, a inclusão de pessoas com deficiência deixa de ser uma pauta isolada de diversidade e passa a ocupar um lugar estratégico na agenda de sustentabilidade. As empresas assumem, aqui, um papel protagonista e nos últimos anos, esse protagonismo começou a se materializar.

O avanço da agenda ESG e a crescente pressão por resultados concretos nos ODS vêm levando empresas a reverem suas práticas. O Relatório Ambição 2030, do Pacto Global da ONU no Brasil, mostra o crescimento do engajamento empresarial e o aumento de metas públicas voltadas à sustentabilidade. Na agenda social, movimentos como o Elas Lideram 2030 já ampliam o olhar para uma perspectiva interseccional, incorporando, entre outros recortes, a deficiência. Esse movimento tem provocado uma mudança importante na forma como a inclusão vem sendo construída dentro das organizações.

A pergunta já não é mais se estamos incluindo. É como estamos incluindo. Essa mudança de foco faz toda a diferença. Empresas que estão avançando de forma mais consistente nessa agenda têm algo em comum: deixaram de tratar a inclusão como um processo pontual e passaram a estruturá-la como parte da estratégia do negócio. Para isso, já tomaram algumas atitudes, como: revisar processos seletivos para eliminar barreiras, investir em acessibilidade em todas as suas dimensões, criar programas estruturados de desenvolvimento e preparar lideranças para lidar com a diversidade de maneira intencional.

Além disso, o mais importante: elas têm olhado para toda a jornada dessas pessoas dentro da organização. Tenho acompanhado empresas que estão alcançando etapas importantes. São organizações que incluem por convicção porque incorporaram, em seus valores e políticas internas, o compromisso efetivo com a ‘não discriminação’ e com a ‘equidade’.

E fazem valer quando estruturam programas de desenvolvimento e acompanhamento de carreira para pessoas com deficiência; formam lideranças mais preparadas para gerir equipes diversas e monitoram indicadores de inclusão que vão além da contratação. Ao fazerem isso, estão diretamente alinhadas aos ODS da Agenda 2030.

Na prática, o mais comum ainda tem sido um desalinhamento entre discurso e experiência. Empresas que ampliam programas de bem-estar, mas não garantem acessibilidade. Oferecem treinamentos às pessoas colaboradoras, mas não consideram acessibilidade para treinar junto pessoas com deficiência.

A pesquisa Radar da Inclusão 2025 – sobre empregabilidade das pessoas com deficiência – realizada pela Talento Incluir e Pacto Global da ONU – Rede Brasil, apontou que 1 em cada 3 pessoas entrevistadas afirma que o ambiente de trabalho não é adequado às suas necessidades. Além disso, nos programas de treinamento e desenvolvimento oferecidos por suas empresas, quase metade relata dificuldade de acesso, falta de adaptação ou inadequação dos conteúdos. A falta de acessibilidade é uma barreira que limita diretamente o crescimento profissional das pessoas com deficiência.

A verdade é que, as empresas que estão, de fato, comprometidas, são aquelas que decidiram olhar para a experiência real e individual das pessoas com deficiência dentro do ambiente de trabalho. Isso começa com escuta estruturada, contínua e com capacidade de gerar mudança concreta.

Essa mudança também exige uma nova forma de medir resultados. Durante muito tempo, as empresas acompanharam números de contratação, o que foi fundamental em um primeiro momento. Mas, para avançar na agenda dos ODS, isso já não basta. É preciso medir a dignidade da pessoa com deficiência no trabalho. Isso significa olhar para:

  • permanência no emprego;
  • desenvolvimento de carreira;
  • acesso a oportunidades;
  • saúde mental e social;
  • sensação de pertencimento.


Quando esses indicadores passam a fazer parte da estratégia, as empresas dão um passo concreto em direção aos compromissos da Agenda 2030. E os impactos são diretos. Garantir trabalho digno para pessoas com deficiência contribui:

  • para o ODS 1, ao ampliar o acesso à renda e reduzir a pobreza;
  • para o ODS 5, ao considerar as múltiplas desigualdades, especialmente no caso de mulheres com deficiência;
  • para o ODS 8, ao promover trabalho decente e crescimento econômico;
  • para o ODS 10, ao enfrentar desigualdades estruturais.


Mais do que cumprir metas, trata-se de construir uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável. A Agenda 2030 é, essencialmente, um convite à ação coletiva. Empresas, governos e sociedade civil precisam atuar de forma integrada. Garantir trabalho digno para pessoas com deficiência é assumir um compromisso com o futuro, que só será possível se ninguém ficar para trás.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Geopolítica da transição: o país precisa transformar potencial em influência

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos – energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva – que pode transformar sua posição internacional.

Três hipóteses para redesenhar o primeiro degrau da carreira

A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

A meta não assusta. O comportamento do líder, às vezes, sim.

Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Direito, Regulação & Compliance
8 de setembro de 2026 08H00
Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Daniel Cerveira - sócio do escritório Cerveira, Bloch, Goettems, Hansen & Longo Advogados Associados e Coordenador da Comissão de Expansão e Pontos Comerciais da ABF - Associação Brasileira de Franchising

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 14H00
Muito além da programação e da montagem de robôs, o artigo mostra como a robótica educacional está ajudando estudantes a pensar criticamente, experimentar, colaborar e criar soluções para problemas reais, conectando aprendizagem, propósito e impacto social desde a escola.

André Brandão Sala - CEO da Robomind

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 08H00
O Brasil já demonstrou sua capacidade de formar pesquisadores altamente qualificados. O desafio agora é fortalecer as pontes entre universidades, empresas, investidores e empreendedores para que a produção científica gere mais inovação, competitividade e impacto social.

Luiz Caires, PhD - Cofundador e CEO da Vyro Bio

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
6 de setembro de 2026 15H00
Nem sempre a queda de engajamento está relacionada à falta de motivação individual. Muitas vezes, ela surge em ambientes onde as pessoas deixam de se sentir ouvidas, evitam discordar e aprendem que é mais seguro permanecer em silêncio.

Rodrigo Rovaris - Gerente de Gente & Gestão da Blendus

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Marketing & growth
6 de setembro de 2026 08h00
À medida que a produção de conteúdo se torna cada vez mais presente na vida profissional e pessoal, surge uma questão importante: estamos ampliando oportunidades ou naturalizando a ideia de que toda experiência, habilidade e momento da vida precisam ser convertidos em visibilidade, audiência e monetização?

Ingrid Spyker - sócia da Creator Economy

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
5 de setembro de 2026 14H00
A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Felipe Berneira - CEO da Pronnus Tecnologia

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
5 de setembro de 2026 08H00
À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
4 de setembro de 2026 14H00
A busca por equidade de gênero não se encerra quando as mulheres conquistam um assento nas mesas de decisão. Ela continua na forma como suas ideias são recebidas, valorizadas e transformadas em influência. Ao discutir comunicação, liderança e protagonismo, o artigo mostra por que fortalecer a voz feminina é também uma estratégia para ampliar diversidade, inovação e resultados nas organizações.

Juliana Algodoal - PhD em Análise do Discurso e especialista em comunicação corporativa

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
4 de setembro de 2026 08H00
As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

Juliana Bezerra - Líder de conteúdo na DEA Design

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Direito, Regulação & Compliance
3 de setembro de 2026 18H00
A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura um novo cenário para as redes de franquias brasileiras. Com redução gradual de tarifas, acesso mais facilitado a tecnologias e insumos, além da possibilidade de expansão para novos mercados, o franchising passa a enxergar na internacionalização uma oportunidade concreta de crescimento. Ao mesmo tempo, a chegada de concorrentes europeus exigirá das marcas nacionais mais inovação, eficiência e capacidade de adaptação para competir em um ambiente cada vez mais globalizado.

Camila Nicolau - Advogada especialista em Direito Empresarial e Contratual

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução