Liderança, ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 minutos min de leitura

O que uma prótese de quadril me ensinou sobre os erros de decisão dentro das empresas

Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.
É CEO da REIS - Rede Empresarial de Inclusão Social, Sócio da Egalite, Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro e docente dos MBAs de Recursos Humanos da FGV além de professor convidado da FDC, Escola Aberje de Comunicação e IEP-Hospital Sírio Libanês. Djalma é psicologo, pai da Aurora e especialista em diversidade, equidade e inclusão, passou por multinacionais no varejo (Walmart), serviços (Sodexo) e EY) e indústria (Vivo), liderando cases de sucesso em diversidade. O executivo construiu um dos maiores case de inclusão de pessoas com deficiência do país e é reconhecido como #1 em empregabilidade de pessoas com deficiência no capítulo brasileiro da Global Business Disability Network (OIT/ONU).

Compartilhar:

Há pouco mais de oito meses, fiz uma cirurgia de prótese total de quadril. Não vou usar este espaço para falar de recuperação ortopédica. Vou usar para falar de algo que qualquer líder reconhece na hora: o custo de decidir sem ouvir quem está mais perto do problema.

Durante a internação, toda vez que eu relatava dor 10 – a nota máxima da escala usada em qualquer hospital do mundo – recebia de volta a mesma frase: “mas você parece bem, não pode ser dor 10. Geralmente pessoas nesse estágio estão aos berros”. A primeira linha de analgesia oferecida era um remédio leve, mesmo depois de uma cirurgia reconhecidamente dolorosa. Quando eu pedia algo mais forte, o pedido era recebido com desconfiança – o mesmo olhar que qualquer gestor já viu em uma sala de reunião quando alguém pede recurso, orçamento ou tempo além do “padrão esperado” e é lido como estar exagerando.

Minha resposta virou quase um refrão: “tenho dor crônica, mas posso gritar se quiser.” Não gritava porque depois de décadas convivendo com dor diariamente, me ensinaram regulação emocional e a conviver – não porque a dor fosse menor. Só que a equipe estava lendo comportamento, não ouvindo meu relato. E aqui está a lição que interessa a qualquer liderança, dentro ou fora de um hospital: o sinal mais confiável quase nunca é o mais visível.

O erro que toda organização comete

Empresas – assim como hospitais – constroem seus protocolos a partir de um perfil médio. Funciona bem para a maioria e falha silenciosamente para quem está fora da curva: a pessoa com deficiência, o colaborador neurodivergente, o profissional com uma condição crônica ou deficiência invisível, que aprendeu a não demonstrar o que sente porque, cedo na vida, aprendeu que ao demonstrar, e pedir ajuda muitas vezes, tem custo ou gera um estigma.

Isso, ao meu ver, não é um problema de recursos humanos. É um problema de decisão. Uma liderança que só confia no que consegue observar diretamente – e desconfia do relato de quem vive a situação – está, estruturalmente, tomando decisões com menos informação do que poderia ter. Na minha recuperação, os poucos profissionais que acertaram comigo não foram os mais experientes em geral, mas os que já haviam trabalhado de perto, na prática, com pacientes com a mesma deficiência que possuo, a paralisia cerebral – e por isso sabiam que protocolo padrão, aplicado sem ajuste a um corpo fora da curva mediana, não é neutro: agrava o problema que deveria resolver.

Substitua agora “protocolo clínico” por “processo de avaliação de desempenho”, “política de home office” ou “critérios de promoção” e a lógica se repete integralmente dentro de qualquer empresa.

Autonomia não é um conceito de RH, é uma competência de gestão

Boa parte do discurso corporativo sobre inclusão trata autonomia como protagonismo; um valor declarado – algo que está no código de conduta e na cultura. Na prática, autonomia e o protagonismo, são testados exatamente nos momentos em que confiar no relato de alguém custa mais do que confiar na própria leitura visual da situação. Foi o que descrevi, em outro contexto, em artigo que escrevi para esta própria HSM Management usando o esporte paralímpico como metáfora: reconhecer publicamente a superação de um atleta com deficiência e, ao mesmo tempo, não abrir espaço real de decisão para profissionais com deficiência dentro da sua empresa é uma contradição que ainda não resolvemos. Admiração não é o mesmo que confiança, e tão pouco paga boletos.

A pesquisadora Amy Edmondson, de Harvard, batizou de segurança psicológica a condição que permite que um colaborador diga “isto não está funcionando para mim” sem temer julgamento. O que vivi no hospital é a versão extrema – e literal – dessa mesma falha: um ambiente onde relatar a própria experiência gera desconfiança em vez de ação.

O que fazer com isso, na prática?

Deixo aqui mudanças, todas replicáveis a partir da próxima segunda-feira:

Trate relato como dado, não como opinião. Quando um colaborador diz que um processo não está funcionando para ele, a primeira resposta não deveria ser avaliar se ele “parece” estar certo, mas registrar o dado e investigar.

Desconfie de protocolos aplicados sem exceção. Um processo que nunca é ajustado não está sendo justo – está sendo aplicado de forma quadrada e dura a quem não se encaixa no perfil para o qual foi desenhado.

Coloque quem vive a barreira na sala onde a decisão é tomada. Não depois, para validar pois custa mais caro arrumar. Antes, para desenhar. É o princípio que sustenta minha atuação à frente do capítulo brasileiro da Global Business and Disability Network, rede vinculada à OIT: nada sobre nós, sem nós – inclusive, e principalmente, nas decisões de negócio.

Nenhuma empresa vai eliminar completamente o problema de decidir com informação incompleta. Mas toda empresa pode decidir ouvir melhor quem está tentando lhe dizer algo que ela ainda não sabe enxergar.

Compartilhar:

É CEO da REIS - Rede Empresarial de Inclusão Social, Sócio da Egalite, Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro e docente dos MBAs de Recursos Humanos da FGV além de professor convidado da FDC, Escola Aberje de Comunicação e IEP-Hospital Sírio Libanês. Djalma é psicologo, pai da Aurora e especialista em diversidade, equidade e inclusão, passou por multinacionais no varejo (Walmart), serviços (Sodexo) e EY) e indústria (Vivo), liderando cases de sucesso em diversidade. O executivo construiu um dos maiores case de inclusão de pessoas com deficiência do país e é reconhecido como #1 em empregabilidade de pessoas com deficiência no capítulo brasileiro da Global Business Disability Network (OIT/ONU).

Artigos relacionados

O que uma prótese de quadril me ensinou sobre os erros de decisão dentro das empresas

Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Nenhuma estratégia é melhor do que a lente que a criou

Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Centauros corporativos: quem está no controle da inteligência?

Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Cláusula de raio: proteção legítima ou barreira à concorrência?

Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Estratégia, Ecossistema
15 de agosto de 2026 08H00
Embora a maioria das empresas reconheça o potencial dos ecossistemas de parceiros para gerar receita e ampliar mercados, poucas conseguem transformar essa ambição em resultados consistentes. O artigo explora por que a construção de um ecossistema eficaz vai muito além da criação de um canal comercial, exigindo arquitetura, governança, ativação e uma estratégia capaz de conectar parceiros aos objetivos de crescimento do negócio.

Juliana Tubino e Nara Vaz Guimarães - Cofundadoras do Ecossistema Octo e coautoras do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing
14 de agosto de 2026 13H00
Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

Antonio Carlos Matos da Silva - Conselheiro independente associado ao IBGC

5 minutos min de leitura
Liderança
14 de agosto de 2026 08H00
Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

13 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de agosto de 2026 14H00
Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Marcos Gurgel - Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Vendas
13 de agosto de 2026 08H00
Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança
12 de agosto de 2026 14H00
Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo