Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 minutos min de leitura

O retorno ao escritório e a ilusão do controle

O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?
Engenheira e especialista em transformação organizacional, com mais de 20 anos de experiência liderando operações, melhoria contínua e programas de mudança em contextos internacionais. Atua com desenho do trabalho, liderança e gestão de pessoas a partir de uma perspectiva operacional e sistêmica. É autora da série A Lean Book.

Compartilhar:

Imagine que um banco descobre que tem dificuldade para acompanhar as transações realizadas pelo seu aplicativo. Em vez de corrigir os sistemas, decide desligar o app, o PIX e obrigar todos os clientes a voltar às agências para preencher cheques e pedir extratos em papel.

A reação seria imediata. Ninguém aceitaria trocar uma solução mais eficiente por um processo mais lento apenas porque a organização não consegue monitorá-lo adequadamente.

No entanto, é exatamente essa lógica que aparece, ainda que de forma menos explícita, em muitas discussões sobre o retorno obrigatório ao escritório.

Durante a pandemia, o trabalho remoto obrigou empresas a fazer algo que muitas vinham adiando havia anos: tornar o trabalho mais visível e não dependente de papel. Sem a referência da presença física, foi necessário definir entregas, criar indicadores, dimensionar capacidade e estabelecer formas mais claras de medir resultados. 

Essa visibilidade gerou um efeito colateral saudável: deu autonomia para o profissional organizar seu tempo, buscar os filhos na escola e trabalhar nos períodos de maior foco. O controle deixou de estar no relógio de ponto e passou a estar na entrega.

No entanto, muitas organizações não conseguiram essa visibilidade e estão forçando o retorno ao escritório sem redesenhar a forma como o trabalho acontece. A parte dessa inteligência construída durante a pandemia, mesmo que residual, acaba sendo abandonada. Quando faltam mecanismos claros de acompanhamento e coordenação, a resposta acaba sendo trazer o trabalho de volta para onde ele sempre esteve: o ambiente físico. 

O argumento da gestão centralizada esbarra na realidade. O time continua participando das mesmas reuniões, agora presenciais. Junto com elas, regressam desperdícios que já pareciam superados: tempo perdido esperando quem chega atrasado, discussões paralelas e interrupções que não agregam valor.

O retorno global ao escritório e a busca por controle

Esse movimento de recuo não é uma anomalia isolada. Grandes bancos de Wall Street, como Goldman Sachs e JPMorgan Chase, lideraram ofensivas agressivas para retomar o regime de cinco dias presenciais, focando o discurso no resgate da cultura. O argumento mais recorrente é o reforço da cultura organizacional e da coesão das equipes.

Uma pesquisa global realizada pela consultoria KPMG com mais de 1.300 executivos apontou que cerca de 80% dos CEOs planejam o retorno total ao modelo presencial até 2027. Os dados, porém, contam uma história mais complexa. Estudos liderados por Nicholas Bloom, da Stanford University, mostram que modelos de trabalho flexível bem estruturados podem aumentar a produtividade entre 13% e 20% e reduzir a rotatividade voluntária até 33%.

Mas quando o movimento aterrissa no Brasil, ele esbarra no nosso abismo de infraestrutura. Um levantamento da WeWork em parceria com a Offerwise indica que cerca de 63% dos profissionais brasileiros estão em regime totalmente presencial, sendo que a maioria relata que o modelo é definido pela empresa e não por escolha individual.

Diferente do cenário europeu, o trabalhador dos grandes centros urbanos no Brasil financia esse modelo gastando, em média, de 1h30 a 3 horas diárias no trânsito, segundo dados consolidados e reportagens do portal G1 sobre mobilidade urbana. Sacrificar tanta energia em deslocamentos sem um ganho operacional claro revela uma falha de desenho do trabalho. Quando um modelo consome mais tempo, mais energia e mais capacidade cognitiva para produzir o mesmo resultado, é difícil argumentar que se trata de uma escolha mais eficiente.

As ineficiências invisíveis

Por que as empresas recuam? Existem argumentos recorrentes. Alguns dizem que é pela dificuldade de gerenciamento de fluxos de trabalho de forma assíncrona.

Outro argumento frequente é o de que a produtividade e a disciplina operacional são mais difíceis de garantir em contexto remoto. Mas para este, é preciso ter uma perspectiva justa sobre os gestores. Muitos sofrem forte pressão por resultados e perdem visibilidade dos processos quando o time está distante. Sem mecanismos maduros de acompanhamento, a reação natural é regressar ao modelo tradicional. Voltam para aquilo que conhecem e sabem gerir há anos: a presença física.

A presença física cria uma sensação de controle que nem sempre corresponde à realidade operacional. 

A grande ironia é que o presencial funciona como uma anestesia organizacional. Antes da pandemia, as ineficiências do ambiente físico já estavam normalizadas e incorporadas ao custo do negócio. O trabalho remoto apenas tornou esse desperdício visível.

Para avaliar a real eficiência do retorno físico, existem três testes simples de fluxo de valor que podem ser feitos:

  • O deslocamento útil: Calcule as horas mensais da equipe gasta em congestionamentos. Quantas horas de alta performance cognitiva foram queimadas no asfalto apenas para transferir o profissional de uma tela para outra?
  • O desperdício em reuniões: Mensure o tempo perdido com atrasos para o início dos encontros presenciais, conversas paralelas e deslocamentos físicos entre salas. Esse tempo, multiplicado pelo número de pessoas envolvidas, justifica financeiramente o ganho?
  • As interrupções fragmentadas: Monitore o impacto dos pequenos roubos de atenção. O colega que passa para tirar “uma dúvida rápida”, a pergunta de corredor sobre um e-mail enviado há cinco minutos ou o ruído constante ao redor. Estudos clássicos de produtividade da Universidade da California, Irvine, mostram que o cérebro humano pode levar mais de 20 minutos para recuperar o foco profundo após uma única distração. No presencial sem regras claras, a capacidade de entrega profunda é pulverizada por esses ruídos diários.

Menos proximidade, mais governança

A fragilidade do retorno obrigatório ao escritório não está na presença física em si. Está na tentativa de substituir sistemas de gestão por proximidade. Quando faltam indicadores, processos claros e responsabilidades bem definidas, a visibilidade das pessoas cria uma sensação de controle. Mas sensação não é governança.

Organizações de alta performance não gerenciam presença. Gerenciam fluxo de valor. Quando esse fluxo é bem desenhado, o resultado aparece de forma consistente, independentemente das coordenadas geográficas de quem executa o trabalho.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Geopolítica da transição: o país precisa transformar potencial em influência

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos – energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva – que pode transformar sua posição internacional.

Três hipóteses para redesenhar o primeiro degrau da carreira

A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

A meta não assusta. O comportamento do líder, às vezes, sim.

Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Empreendedorismo, Marketing & growth
3 de setembro de 2026 14H00
Dois terços das edtechs brasileiras nunca receberam investimento externo. Ainda assim, muitas já superaram a fase inicial, conquistaram clientes e validaram seus modelos de negócio. O artigo propõe uma reflexão sobre como a escassez de capital ajudou a formar startups mais resilientes e eficientes, ao mesmo tempo em que levanta uma questão estratégica para o próximo ciclo do setor: como transformar capacidade de sobrevivência em escala, internacionalização e crescimento sustentável.

Claudia Schulz - CEO da ABStartups

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
3 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a pergunta mais importante já não é qual solução de IA adotar, mas quem está definindo os limites, os objetivos e as regras de uso dessa tecnologia dentro da organização.

Erick Rezende - Diretor de Delivery na Cognitivo AI

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
2 de setembro de 2026 14H00
À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de repensar o papel da experiência nas organizações e na sociedade. Tomando o comportamento do eleitor 70+ como ponto de partida, o artigo questiona o que faz alguém continuar contribuindo quando já não é obrigado a fazê-lo e por que essa pode ser uma das perguntas mais importantes para empresas que desejam se preparar para a era da longevidade.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services

6 minutos min de leitura
User Experience, UX, Marketing & growth
2 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

Bruno Almeida - CEO da US Media

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 15H00
Em momentos de retração econômica, cortar custos costuma ser uma resposta imediata. O problema é que algumas das perdas mais importantes não aparecem nas planilhas. Conhecimento acumulado, confiança, experiência e capacidade de inovação formam um patrimônio invisível que pode levar anos para ser reconstruído.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 08H00
O artigo utiliza a clássica fábula dos três porquinhos para mostrar por que organizações que apostam apenas em estruturas robustas, sem capacidade de adaptação, podem se tornar mais vulneráveis justamente quando o ambiente exige flexibilidade e aprendizado contínuo.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 20H00
Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução