Inovação & estratégia
5 minutos min de leitura

O tempo que escolhemos medir

Como o mercado está revendo métricas para entregar resultados no presente e valor no futuro?
Fundadora da Zero Gravity Thinking. Consultora e mentora em estratégia, inovação e transformação organizacional.

Compartilhar:

Todo início de ano traz aquele ritual quase automático: rever metas, ajustar planos, definir indicadores. Em muitos casos, temos observado que os números nas planilhas mudam, mas a lógica por trás da construção deles continua a mesma. Que tal aproveitar este momento para repensar a forma como mede resultados, usando indicadores não apenas como avaliação do que aconteceu no passado, mas como um sistema vivo de aprendizado estratégico e ajuste contínuo?

Vou começar falando sobre uma métrica fora do mundo corporativo. Recentemente fiz um exame de densitometria óssea de corpo inteiro. Durante anos, acompanhei minha saúde a partir de um indicador simples: peso. Ele subia ou descia e, a partir disso, eu ajustava minha alimentação e atividade física. Mas este exame me trouxe outra perspectiva, pois analisou em detalhes a minha composição corporal, medindo de forma precisa a massa muscular, massa magra, gordura, distribuição corporal. Meu peso praticamente não havia mudado, mas a história era completamente diferente. E a minha conversa e abordagem com o nutrólogo deixou de ser sobre “quanto eu peso” e passou a ser sobre “do que esse peso é composto”. Ou seja, a mudança de indicador mudou a minha estratégia para saudabilidade.

Algo parecido vem acontecendo no mercado de startups. Durante mais de uma década, especialmente em ambientes de capital abundante, a métrica mais valorizada foi crescimento de receita. Crescer rápido, ganhar mercado, escalar. Muitas empresas foram avaliadas por múltiplos de faturamento, mesmo operando com prejuízos relevantes. Assim nasceram diversos e enormes unicórnios. Mas esse modelo começou a ser questionado quando o custo do capital aumentou, as taxas de juros subiram e os investidores passaram a exigir sustentabilidade financeira. Um caso recente que ilustra bem a mudança de foco de crescimento de receita pura para uma valorização que considera lucratividade e sustentabilidade é o IPO da Hinge Health em 2025. A empresa estreou na Bolsa de Nova York com um valuation 52% abaixo do que registrado na Série E em 2021, mas com destaque por ter se tornado lucrativa antes da abertura de capital. Esse é um sinal claro de que tanto investidores quanto o mercado público estão recompensando startups que demonstram capacidade de gerar lucro e caixa e não apenas receita rápida.

Essa mudança também se refletiu na forma como empresas se comunicam com o mercado. O modelo de report trimestral, consolidado a partir das exigências regulatórias de mercados como o norte-americano (SEC) e amplamente adotado por bolsas ao redor do mundo, sempre teve como objetivo dar transparência e previsibilidade aos investidores. Recentemente, ele passou a ser questionado por CEOs e conselhos de várias empresas. Líderes como Jamie Dimon, do JPMorgan e gestores de fundos de longo prazo vêm apontando que o foco excessivo no trimestre pode induzir decisões táticas de curto prazo, em detrimento de investimentos estruturantes (parece óbvio). De acordo com Dimon, “o problema maior não era apenas o relatório trimestral, mas a previsão, onde os CEOs ficam pressionados em ter que atingir as metas (os lucros) e começam a fazer coisas estúpidas para atingir as metas.”

Qualquer semelhança com a realidade corporativa por aqui, não é mera coincidência. Ainda assim, o report trimestral permanece como referência central para o mercado, amplificando reações imediatas nas bolsas diante de resultados abaixo ou acima do esperado, mesmo quando a estratégia de longo prazo não se altera. Em comunicados para investidores, as empressas passaram a além de reportar números, ter que também explicar em detalhes as narrativas, escolhas e consistência na alocação de recursos ao longo do tempo, muitas vezes quando ainda estão no meio do processo de definição dos detalhes quando o trimestre termina. E, mesmo para quem não tem capital aberto, esta mesma lógica se aplica entre afiliadas e matrizes, entre escritórios regionais e globais, e em todas as cadeias hierárquicas de uma empresa.

Nesse contexto, a distinção entre “leading KPIS” e “lagging KPIS” também ganha relevância. Quando o mercado pressiona por resultados frequentes, cresce o risco de se olhar apenas para indicadores finais (“lagging”), que são aqueles que confirmam o que já aconteceu: lucro, receita, EBITDA, participação de mercado. Apesar de serem importantes, eles chegam depois. E é justamente em cenários de maior volatilidade e mudanças (que passa a ser a realidade contínua do mercado) que os indicadores preditivos se tornam importantes, pois ajudam a ajustar a rota antes que o impacto apareça nos resultados consolidados (que chegam sempre atrasados). Os “Leading KPIs” ajudam a apontar tendências sobre o que ainda irá acontecer. São métricas como “churn” (perda de clientes no período), engajamento de clientes, ciclo de vendas, qualidade do pipeline, produtividade dos times, etc. São indicadores mais difíceis de definir e acompanhar, mas que permitem ajustes antes que o resultado final apareça.

E você, já incorporou este tipo de métricas, não apenas para acompanhamento dos resultados mas também nos incentivos de remuneração dos seus times? Afinal, métricas não são neutras. Elas direcionam comportamento, investimento de tempo e tomada de decisão. Quando mudamos as métricas, na prática, estamos revisando prioridades.

Analisando como o mercado tem revisado suas métricas e narrativas, fica ainda mais clara a necessidade de ambidestria nos negócios. Da construção de uma estratégia e um modelo de gestão que sustente a performance do presente enquanto se habilita a adaptabilidade e clareza de visão para o futuro. Onde o planejamento estratégico deixa de ser um exercício estático e passa a ser um processo vivo, alimentado por indicadores que provoquem e permitam testar hipóteses, corrigir desvios e aprender rápido. E quando líderes conseguem combinar métricas de curto prazo com sinais antecipadores e criam organizações mais resilientes, capazes de responder às pressões imediatas e futuras sem comprometer os resultados fazendo “coisas estúpidas”.

Compartilhar:

Fundadora da Zero Gravity Thinking. Consultora e mentora em estratégia, inovação e transformação organizacional.

Artigos relacionados

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

A meta não assusta. O comportamento do líder, às vezes, sim.

Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Onda de recuperações judiciais acende alerta

Quando uma grande empresa entra em recuperação judicial, os impactos não ficam restritos ao seu balanço. Fornecedores deixam de receber, investimentos são adiados, empregos ficam ameaçados e a atividade econômica perde força, criando um efeito dominó que alcança empresas e consumidores em todo o país.

Seu data center está preparado para racks de 100 kW?

A área branca se tornou um ativo estratégico! Energia, refrigeração, distribuição elétrica e gestão térmica passaram a determinar quais infraestruturas conseguirão acompanhar a próxima geração da transformação digital.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 15H00
Em momentos de retração econômica, cortar custos costuma ser uma resposta imediata. O problema é que algumas das perdas mais importantes não aparecem nas planilhas. Conhecimento acumulado, confiança, experiência e capacidade de inovação formam um patrimônio invisível que pode levar anos para ser reconstruído.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 08H00
O artigo utiliza a clássica fábula dos três porquinhos para mostrar por que organizações que apostam apenas em estruturas robustas, sem capacidade de adaptação, podem se tornar mais vulneráveis justamente quando o ambiente exige flexibilidade e aprendizado contínuo.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 20H00
Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução