Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
7 minutos min de leitura

Por que tão poucos se sentem realizados no trabalho?

Quando 80% não se sentem realizados, o problema não é individual - é sistêmico.
Fundadora e CEO da Vittude, referência no desenvolvimento e gestão estratégica de programas de saúde mental para empresas. Engenheira civil de formação, possui MBA Executivo pelo Insper e especialização em Empreendedorismo Social pelo Insead, escola francesa de negócios. Empreendedora, palestrante, TEDx Speaker e produtora de conteúdo sobre saúde mental e bem-estar, foi reconhecida em 2023 como LinkedIn Top Voice e, em 2024, como uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina pela Bloomberg Linea.

Compartilhar:

Apenas dois em cada dez profissionais se sentem realizados em seus empregos. O dado vem de um estudo global da HP em parceria com a Edelman, e deveria incomodar mais do que incomoda. Não estamos falando de uma minoria insatisfeita. Estamos falando de 80% da força de trabalho que acorda todos os dias para fazer algo que não faz sentido, ou que faz sentido, mas custa caro demais.

O mesmo estudo revelou que 71% dos entrevistados sentem que as exigências se intensificaram no último ano. E 68% gostariam de trabalhar menos no escritório. Não por preguiça, por esgotamento. Por uma sensação difusa, mas persistente, de que o trabalho tomou uma proporção que não cabe mais na vida. Há quem olhe para esses números e enxergue uma geração frágil. Eu olho e enxergo um modelo de trabalho que já não se sustenta.

O discurso corporativo costuma tratar a insatisfação como problema individual. Falta de propósito, desalinhamento de valores, baixa resiliência. Se o profissional está insatisfeito, talvez precise de coaching, de um plano de carreira mais claro, de mais “ownership” sobre sua jornada. Mas os dados contam outra história, e ela é menos confortável para quem lidera.

No Censo de Saúde Mental da Vittude 2025, analisamos mais de 170 mil trabalhadores de grandes empresas brasileiras. O que encontramos foi um padrão claro e repetido: a forma como o trabalho está organizado está adoecendo as pessoas. Não de forma acidental, de forma estrutural.

O Censo utiliza dois modelos teóricos consolidados internacionalmente para medir o que chamamos de ergonomia cognitiva: o modelo Demanda-Controle de Karasek e o modelo Esforço-Recompensa de Siegrist. Juntos, eles explicam como a organização do trabalho afeta diretamente a saúde mental. A demanda, que mede exigências cognitivas, emocionais e volume de trabalho, apresentou score de -0,42. O esforço ficou em -0,47. Em uma escala que vai de -1 (crítico) a +1 (excelente), esses números indicam que, em muitos contextos, o ritmo e as exigências estão acima da capacidade de recuperação.

Por outro lado, controle (0,57) e recompensa (0,59) aparecem em território positivo, o que resulta em um índice agregado de ergonomia cognitiva de 0,13, um equilíbrio funcional, ainda que frágil. O cenário não é de crise generalizada, mas de tensão latente: a sobrecarga existe e está concentrada em determinadas áreas, níveis hierárquicos e perfis de trabalho.

Isso significa que há empresas e equipes operando em condições saudáveis, e outras onde o esforço supera consistentemente a recompensa, a autonomia é baixa e o ritmo não permite recuperação. Quando esse desequilíbrio se instala, o resultado é conhecido: esgotamento, perda de motivação, queda de desempenho, saída voluntária. Ou pior: permanência silenciosa, com entrega mínima e sofrimento máximo. O índice geral positivo não deve servir de conforto. Deve servir de mapa: há bolsões de risco que precisam ser identificados e tratados antes que contaminem o restante da organização.


O medo que corrói por dentro

Se a ergonomia cognitiva mostra um equilíbrio tenso, mas funcional, o mesmo não se pode dizer da segurança psicológica. Aqui, o dado é mais grave, e mais urgente. O Censo revelou que 45% dos trabalhadores atuam em condições de insegurança psicológica. Quase metade da força de trabalho não se sente segura para discordar, pedir ajuda, assumir riscos ou admitir erros sem medo de punição ou julgamento.

Esse é o tipo de problema que não aparece em dashboards de produtividade. Ele se esconde na reunião em que ninguém discorda do chefe. No erro que é encoberto em vez de discutido. Na ideia que morre antes de ser apresentada porque “não vale o risco”. Na exaustão de quem performa constantemente uma versão editada de si mesmo para sobreviver no ambiente.

E o custo é alto. Ambientes psicologicamente inseguros não apenas adoecem, eles paralisam. A inovação exige risco, e ninguém arrisca onde o erro é punido. A criatividade exige exposição, e ninguém se expõe onde a vulnerabilidade é usada contra você. A colaboração exige confiança, e confiança não sobrevive ao medo.

Onde a insegurança psicológica é alta, o sofrimento psíquico aumenta, o presenteísmo dispara e o engajamento despenca. O trabalhador está ali, mas não está inteiro. Entrega o mínimo necessário para não ser notado, nem para o bem, nem para o mal. É a pior forma de presença: o corpo que comparece enquanto a mente se protege.

O inverso também é verdadeiro, e talvez seja o dado mais importante do Censo: nas empresas onde a segurança psicológica é alta, o burnout é praticamente inexistente. Entre os 29% de trabalhadores que reportaram alta segurança psicológica, a prevalência de propensão ao burnout foi zero. Não é força de expressão, e sim evidência.

Isso muda completamente a conversa. Burnout não é apenas consequência de volume de trabalho. É, principalmente, resultado de ambientes onde reina o medo: medo de errar, de falar, de discordar, de pedir ajuda. A síndrome não nasce do excesso de tarefas, mas da impossibilidade de ser humano enquanto trabalha. Empresas que tratam segurança psicológica como tema “soft” estão ignorando o fator com maior poder de proteção, ou destruição, da saúde mental das suas equipes.


O presenteísmo invisível

Enquanto muitas empresas ainda medem sucesso por horas trabalhadas, um terço da capacidade produtiva está sendo desperdiçada todos os dias.

O presenteísmo médio identificado no Censo foi de 32%. Isso significa que, em média, os trabalhadores estão presentes, mas não estão bem. Estão cumprindo horário, respondendo e-mails, participando de reuniões, entregando demandas. Mas operando muito abaixo do que poderiam se estivessem saudáveis.

É um custo invisível que não aparece no balanço, mas corrói a produtividade real. Diferente do absenteísmo, que é fácil de medir e justificar, o presenteísmo passa despercebido. A pessoa está lá, mas seu corpo chegou sem a mente. Ou a mente chegou sem energia. Ou ambos chegaram carregando um peso que ninguém vê. Esse é o paradoxo das organizações que priorizam presença em vez de condições: ganham corpos, mas perdem potência. E frequentemente culpam os mesmos corpos por não renderem o esperado.

Até pouco tempo atrás, ignorar esses fatores era uma escolha gerencial. Desconfortável, talvez, mas legal. A partir de maio de 2026, será uma infração. A atualização da NR-1 passou a exigir que as empresas identifiquem, documentem e gerenciem riscos psicossociais, incluindo carga cognitiva, pressão temporal, baixa autonomia e demandas emocionais intensas. O que antes era tratado como “clima organizacional” agora é reconhecido como risco ocupacional, no mesmo patamar de ruído, calor ou agentes biológicos.

Não se trata de uma sugestão, é obrigação legal. Empresas que não mapearem esses riscos, não documentarem suas análises e não implementarem medidas de controle estarão sujeitas a sanções. Mais do que isso: estarão perdendo talentos, desperdiçando produtividade e cultivando ambientes que, cedo ou tarde, cobram a conta.

A boa notícia é que existe caminho. Instrumentos como o Censo de Saúde Mental já permitem mapear esses fatores com rigor técnico, escala populacional e indicadores comparativos. O diagnóstico está disponível, e o que falta, em muitos casos, é vontade de olhar.

A insatisfação no trabalho não é mimimi de geração, não é falta de gratidão, e não é problema de quem “não aguenta pressão”. É o resultado previsível de um modelo de organização do trabalho que exige demais e devolve de menos. Que pune o erro e silencia o desconforto. Que mede presença, mas ignora presença real. Que fala de pessoas, mas gerencia planilhas. Dois em cada dez se sentem realizados. Os outros oito não estão pedindo regalias, estão pedindo condições mínimas para trabalhar sem adoecer. A pergunta que fica não é se as empresas vão precisar mudar, é quando vão decidir começar.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O engajamento não nasce das pessoas. Nasce do ambiente.

Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Aprendi que até no Japão as mulheres conseguem quebrar regras

Convidada pelo governo japonês para participar da primeira Convenção de Mulheres realizada no Japão, Chieko Aoki conta como uma experiência inesperada revelou a força da colaboração feminina e o impacto das redes de apoio na construção de lideranças.

Da produção à curadoria: a nova lógica da relevância digital

O avanço dos vídeos curtos, dos criadores digitais e da inteligência artificial transformou a forma como consumimos informação e entretenimento. O desafio das empresas agora não é apenas alcançar audiências, mas construir confiança, interpretar comportamentos e criar experiências capazes de permanecer na memória das pessoas.

Por que todos os líderes começaram a soar iguais?

A autenticidade virou commodity quando todo mundo aprendeu a soar autêntico do mesmo jeito. Este artigo explora como voz, vivência e consistência podem se tornar os principais diferenciais para líderes que desejam construir influência e confiança de forma genuína.

Marketing & growth, Inovação & estratégia
11 de junho de 2026 09H00
Em meio à queda de alcance e às mudanças constantes dos algoritmos, este artigo propõe um ajuste de rota: mais do que tentar “jogar o jogo” das plataformas, a verdadeira conexão, e relevância, ainda nasce da capacidade de ser humano, autêntico e presente nas interações.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

2 minutos min de leitura
Lifelong learning
10 de junho de 2026 17H00
Pior do que não saber é achar que já sabe. Este artigo expõe um risco silencioso nas organizações: não é a falta de conhecimento que mais compromete decisões, mas a combinação perigosa entre entendimento superficial e confiança excessiva.

Jorge Inafuco - Consultor e Palestrante da HSM, Sociólogo, Professor de MBAs, Conselheiro e Mentor

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de junho de 2026 08H00
Dentro dos bilhões investidos em IA existe uma única aposta: a de que a inteligência vai deixar de ser escassa. Se ela se confirmar, não vai apenas cortar os seus custos. Vai dissolver os fossos competitivos sobre os quais as partes mais lucrativas da sua empresa foram construídas, muitas vezes sem ninguém perceber.

Átila Persici Filho - COO da Bolder, Professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação

8 minutos min de leitura
Marketing
9 de junho de 2026 18H00
Em um mundo onde a presença digital se estende para além das redes sociais, este artigo mostra que a reputação de um líder não é construída pelo que ele publica, mas pela coerência entre discurso, comportamento e cada interação do dia a dia.

Bruna Lopes de Barros

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional
9 de junho de 2026 09H00
Nunca tivemos tanto acesso à informação. E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil saber o que está realmente acontecendo.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
8 de junho de 2026 16H00
Este artigo mostra por que a inteligência artificial está deslocando o centro da competitividade das empresas, da tecnologia para a qualidade do pensamento organizacional.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Estratégia
8 de junho de 2026 09H00
Este artigo provoca uma reflexão central: não é o quanto se trabalha que sustenta uma carreira, mas a capacidade de transformar trabalho em valor e impacto real.

Roberto Vilela - Consultor empresarial, estrategista de negócios, escritor e palestrante

2 minutos min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de junho de 2026 13H00
Se líderes continuam aprendendo, por que continuam não evoluindo? A resposta pode estar na forma como treinamos - e no que deixamos de medir.

Alexandre Santille - Fundador e Sócio da teya

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de junho de 2026 08H00
Este artigo mostra como falhas operacionais e desintegração de sistemas ainda geram perdas bilionárias - e por que a inteligência artificial pode transformar a eficiência em vantagem estratégica no setor elétrico.

Gilson Paulillo - Diretor comercial da Pagar

2 minutos min de leitura
Carreira, Cultura organizacional, Gestão de pessoas
A longevidade deixou de ser apenas um dado demográfico para se tornar questão de governança

Fran Winandy

0 min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo