Tecnologia e inovação

Posso matar o robô? E se ele for imortal?

O avanço das pesquisas torna necessário o debate sobre os limites éticos da relação entre humanos e máquinas
É professor do COPPEAD, consultor e palestrante. Mestre e doutor em administração, conta com certificações da Harvard Business School e criou e coordenou diversos cursos de pós-graduação, além de ministrar disciplinas nas áreas de julgamento e tomada de decisão, estratégia, negociação e internacionalização. No mais, Dib tem experiência em cargos executivos na Shell, Telefônica e TIM, e como consultor de alta gestão pela Booz-Allen.

Compartilhar:

Um primo mais novo do meu melhor amigo de infância tinha um robô de brinquedo. Nos anos 1980, um robô de brinquedo pouco fazia: acendia luzes, emitia sons estridentes, andava para frente e para trás com um controle remoto. E consumia pilhas. Consumia pilhas como se não houvesse amanhã.

Entrando na adolescência, eu e meu amigo não dávamos muita bola para o robô. Mas o seu priminho parecia vidrado naquilo. E sua mãe, tia Suzana, tinha que se desdobrar para comprar pilhas e aturar aquele trambolho sonoro e piscante pela casa.

Um dia o robô parou de funcionar. Nunca soubemos o que aconteceu. Nem por que tia Suzana não tentou consertá-lo. Ao contrário, ela parecia quase feliz com o destino do robô e tratou de consolar seu filho com jogos de tabuleiro e pacotes de figurinhas.

Até hoje não sei se tia Suzana quebrou o robô de propósito ou se apenas omitiu “socorro”. Qualquer que tenha sido seu ato, sem dúvida causou um tanto de sofrimento para seu filho, mas certamente não para o robô de brinquedo. Será que no futuro poderemos falar a mesma coisa?

Os avanços tecnológicos, especialmente no campo da inteligência artificial, estão chegando perto, segundo alguns cientistas, da criação de máquinas que poderão ser consideradas “vivas”. Sendo esse o caso, tia Suzana poderia simplesmente “matar” uma delas caso a estivesse incomodando?

Não se apresse em responder.

## Ética na relação humano e IA

O [professor da Northern Illinois University, David Gunkel](https://gunkelweb.com/), é um dos pioneiros no tema da [ética aplicada às nossas relações com computadores, inteligências artificiais e robôs](https://www.eurekalert.org/news-releases/657621). Doutor em filosofia, Gunkel se dedica a pensar como nos relacionaremos com máquinas que sejam conscientes.
Ele diz que, na ficção científica, o humano está sempre preocupado em se proteger das máquinas, mas nossa percepção em relação a elas foi se alterando com o passar do tempo. E isso é uma coisa boa, pois nos força a ter uma perspectiva diferente.

Para Gunkel, temos que começar a pensar sob a ótica dos robôs, considerando seus direitos e a questão de sua mortalidade ou mesmo sofrimento. Parece inevitável que a existência de tais tipos de máquinas em nosso mundo deixará de ser apenas ficção, então precisamos nos preparar respondendo a tais questionamentos o quanto antes.

## Conexões emocionais

Bem, é fato que muitas pessoas já se relacionam com objetos inanimados com conexões bastante fortes. Tenho conhecidos que parecem sentir algo próximo ao amor por camisas queridas, cafeteiras ou seus telefones celulares. No Japão, [monges budistas conduzem cerimônias fúnebres para cachorros robôs Aibo “mortos”](https://www.youtube.com/watch?v=85737zfBWXw), pois mesmo seres inanimados podem ser possuidores de almas.

E se nos voltarmos para os [robôs projetados para fazerem a remoção de bombas](https://www.bbc.com/future/article/20160714-what-does-a-bomb-disposal-robot-actually-do), que, com seu eventual sacrifício, salvam as vidas de humanos? Já foram relatados diversos casos de [soldados norte-americanos de unidades de eliminação de bombas que criaram forte ligação com seus robôs](https://www.fastcompany.com/3017673/military-bomb-squads-may-be-getting-dangerously-attached-to-their-robots).

Os equipamentos recebem nomes humanos e até “dormem” próximos aos soldados dentro dos utilitários Humvees. Quando um desses robôs apresenta defeito, o soldado escreve para o responsável pela manutenção solicitando que o mesmo robô seja devolvido após o conserto. São considerados parte do “time” e, portanto, não seriam passíveis de substituição como um equipamento qualquer. E isto tudo sem que qualquer um desses robôs tenha aspecto humano, como os que povoam as histórias de ficção científica.

Mesmo máquinas com as inteligências artificiais de hoje, como a Siri, possuem características completamente diferentes dos seres humanos. Embora gerem sentimentos contraditórios quando soam como humanos.

## Seria a “humanidade” das máquinas bem recebida por nós?

Para [Anouk van Maris](https://www.linkedin.com/in/anouk-van-maris-29663552/), pesquisadora em robótica no Bristol Robotics Laboratory, “a [vantagem de robôs ](https://www.theguardian.com/technology/2018/jun/27/being-human-realistic-robots-google-assistant-androids)que se pareçam com seres humanos é que as pessoas se sentem mais confortáveis com sua proximidade. A maior desvantagem é que passamos a esperar que eles sejam capazes de fazer coisas humanas e, em geral, eles não podem.”

Aliás, faz sentido projetar robôs com aparência humana? Para muitos especialistas, isso não seria funcional. A menos, segundo eles, [que sejam robôs destinados a fantasias eróticas](https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2020.00355/full).

Voltando ao nosso tema principal, quando hoje se fala da “morte” de um robô, trata-se apenas de uma metáfora, assim como quando o motor de seu carro para de funcionar. Mas talvez deixe de ser no futuro, uma vez que começa a ser considerada factível a criação de uma máquina que tenha sentimentos, empatia e capacidade de tomar decisões baseadas em valores morais.

Entretanto, a visão é que tal máquina estará “viva” em um estado mais disperso que o nosso, não restrita a um único dispositivo. Provavelmente estará “na nuvem” ou algum lugar similar onde sua memória poderá ser passada para outros dispositivos. Talvez um robô desses simplesmente não possa morrer. E possa estar em vários lugares ao mesmo tempo.

## Robôs com cérebro humano

Será que nós sentiríamos algo diferente se esse robô realmente possuísse um cérebro humano? Vários projetos lidam com essa hipótese como, por exemplo, o [Human Brain Project](https://www.humanbrainproject.eu/en/robots/) ou os [organoides na University of California](https://futurism.com/scientists-grew-human-brains-robots).

Em 2019, neurocientistas mapearam todas as conexões entre todos os neurônios do cérebro de um animal, pela primeira vez. Era o cérebro de um verme, pouco sofisticado se comparado ao cérebro humano. A [versão digital desse cérebro foi colocada em um robô e fez com que ele se movesse como o verme faria](https://www.youtube.com/watch?v=eYS7UIUM_SQ). O principal objetivo desse estudo é melhor compreender o funcionamento do cérebro humano. Fazer o mesmo para animais mais complexos, até chegar ao cérebro humano parece questão de tempo, só não se sabe quanto.

Seria possível, então, realmente replicar, em toda sua complexidade, o cérebro humano em um computador? E transferir sua consciência para algo de silício, criando uma entidade viva? Pesquisadores do tema, [como o filósofo Daniel Dennett, são ainda um tanto céticos](https://ase.tufts.edu/cogstud/dennett/). Para ele, ter um mapa do cérebro humano seria o equivalente a ter um mapa completo do sistema telefônico de uma cidade, considerando que ele seria o suficiente para você entender todos os eventos ocorrendo em Londres ou Nova York.

Bem, se você chegou até aqui, talvez esteja agora decidindo se acredita que os robôs serão um dia feitos à nossa imagem e semelhança. E, talvez, queira se adiantar e já começar a correr para longe. Eu vou entender, mas prefiro ficar observando, curioso de saber onde isso tudo vai dar. Otimista, mas…
— “Siri, ligar para tia Suzana”.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A procuração algorítmica que desafia os conselhos

À medida que algoritmos passam a influenciar decisões cada vez mais relevantes, cresce uma questão que conselhos e lideranças não podem mais ignorar: quanto poder está sendo delegado à inteligência artificial sem supervisão adequada? O artigo propõe uma reflexão sobre a necessidade de incorporar a IA à agenda de governança corporativa.

Por que entender o orçamento hospitalar se tornou estratégico para as operadoras

O envelhecimento populacional, a incorporação de novas tecnologias e o aumento das demandas assistenciais estão pressionando os custos da saúde em níveis inéditos. Mais do que analisar despesas, entender a formação do orçamento hospitalar tornou-se uma competência estratégica para operadoras que buscam conciliar qualidade assistencial, eficiência operacional e sustentabilidade de longo prazo.

Onde a inteligência artificial realmente gera dinheiro no varejo alimentar

Sistemas desconectados, estoques imprecisos e perdas recorrentes tornam o hortifrúti uma das operações mais complexas do varejo alimentar. Ao contrário das promessas de transformação total, a inteligência artificial vem demonstrando valor justamente onde consegue reconstruir informações, prever demanda e apoiar decisões com impacto direto sobre vendas e desperdício.

Ou você constrói um ecossistema de parceiros ou será engolido por um

Embora a maioria das empresas reconheça o potencial dos ecossistemas de parceiros para gerar receita e ampliar mercados, poucas conseguem transformar essa ambição em resultados consistentes. O artigo explora por que a construção de um ecossistema eficaz vai muito além da criação de um canal comercial, exigindo arquitetura, governança, ativação e uma estratégia capaz de conectar parceiros aos objetivos de crescimento do negócio.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
3 de agosto de 2026 08H00
Por que relações saudáveis deixaram de ser apenas uma questão de clima organizacional para se tornarem um fator estratégico de competitividade? O artigo mostra como a confiança entre pessoas e áreas influencia diretamente a velocidade de execução dos negócios.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
2 de agosto de 2026 13H00
Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Sthefano Scalon Cruvinel - Doutrinador do Direito, Auditor Judicial com atuação no STJ e CEO da EvidJuri

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de agosto de 2026 08H00
Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Fernando Wosniak Steler - Co-Fundador e CEO da Delend

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
1º de agosto de 2026 14H00
Impulsionadas pelas exigências de investidores, certificações ambientais e adaptação climática, as edificações sustentáveis consolidam-se como ativos estratégicos para empresas que buscam eficiência, resiliência e geração de valor de longo prazo.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor e responsável técnico da HotFloor

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de agosto de 2026 08H00
Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Roberto Vilela - Consultor empresarial, estrategista de negócios, escritor e palestrante 

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de julho de 2026 14H00
Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

Tássia Galvão - Fundadora e CEO da Konne

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de julho de 2026 08H00
Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

6 minutos min de leitura
Cultura organizacional
30 de julho de 2026 14H00
Tecnologias, processos e estratégias podem mudar rapidamente. O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de preservar os princípios que orientam decisões e comportamentos, transformando a cultura em um elemento de coerência em meio à mudança contínua.

Diego Alegre - CEO do Arquipélago "Culturas que transformam"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de julho de 2026 07H00
A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

21 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de julho de 2026 14H00
Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.

Átila Persici - COO da Bolder

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo