Todos os trimestres, os Chief Financial Officers (CFOs) apresentam o ROA, o ROE e o ROI como os principais indicadores do desempenho empresarial e financeiro. Os números não mentem, mas também não contam toda a história.
Há uma crise silenciosa atravessando as salas dos conselhos de administração das empresas mais sofisticadas do mundo e praticamente ninguém fala sobre ela. A cada trimestre, os CFOs apresentam o ROA, o ROE e o ROI como os grandes indicadores do desempenho financeiro. Investidores analisam esses números, conselhos aprovam estratégias com base neles e analistas atribuem classificações (ratings) ancoradas nesses mesmos indicadores.
O problema é que o mundo para o qual essas métricas foram criadas já não existe. Os indicadores financeiros tradicionais nasceram na era industrial, quando o valor das empresas estava concentrado em fábricas, máquinas e estoques físicos. Eles faziam sentido quando o ativo mais valioso de uma organização aparecia no balanço patrimonial e se depreciava de maneira previsível ao longo do tempo.
Hoje, porém, as empresas mais valiosas do planeta, da Google à Salesforce, passando por fintechs que crescem rapidamente em mercados como o brasileiro, geram a maior parte do seu valor a partir de ativos que sequer aparecem no balanço: infraestrutura de dados, capital intelectual, conhecimento especializado, reputação da marca e práticas de sustentabilidade. O problema, portanto, deixou de ser teórico. Tornou-se estratégico e urgente.
Quando medimos os indicadores errados, tomamos decisões erradas. Tratamos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) como despesa e os reduzimos; subestimamos os riscos ESG por estarem fora do modelo financeiro tradicional; e ignoramos que o ativo mais valioso de muitas empresas, a inteligência das equipes e seus dados, simplesmente não aparece em nenhum indicador financeiro. É isso que chamo de lacuna da mensuração: a distância crescente entre a forma como o valor é efetivamente criado nas empresas modernas e a forma como ele é medido.
Os números não mentem, mas também não contam toda a história
Em 1975, os ativos intangíveis representavam cerca de 17% do valor de mercado das empresas que compõem o S&P 500. Em 2020, esse percentual já ultrapassava 90%. Ainda assim, os indicadores financeiros utilizados para avaliar essas organizações permanecem praticamente os mesmos desde meados do século 20.
O Return on Assets (ROA), por exemplo, mede a eficiência com que uma empresa utiliza seus ativos físicos. Mas qual indicador mede a eficiência com que ela utiliza seu conhecimento? Que métrica captura a produtividade dos dados? Que indicador revela o risco oculto de ignorar questões relacionadas ao clima, à governança ou à equidade social?
Os relatórios ESG surgiram como uma tentativa de responder a essas perguntas, e merecem reconhecimento por colocarem os temas certos em pauta. O problema é que, na maioria das organizações, as informações ESG continuam restritas a um relatório de sustentabilidade separado, desconectado do modelo financeiro que orienta as decisões estratégicas. Trata-se de uma conversa paralela, não integrada, e isso já não é suficiente.
Existe uma forma melhor de avaliar o desempenho das empresas?
Essa é justamente a questão central da minha pesquisa de doutorado na Henley Business School, da University of Reading, uma das escolas de negócios mais prestigiadas do mundo, detentora da tríplice acreditação internacional (AACSB, AMBA e EQUIS).
Na pesquisa, proponho duas novas métricas para reduzir essa lacuna de mensuração:
- Integrated Efficiency Ratio (IER): um indicador composto que combina eficiência financeira, risco ajustado aos critérios ESG e utilização de ativos intangíveis, oferecendo aos gestores uma visão integrada de como a empresa transforma recursos físicos, humanos e informacionais em valor.
- Return on Intelligence (RoI²): uma métrica desenvolvida para mensurar a produtividade dos ativos cognitivos e informacionais, como infraestrutura de dados, capital humano, conhecimento proprietário e sistemas organizacionais capazes de transformar informação em vantagem competitiva.
Essas métricas não são construções acadêmicas abstratas. Ao longo de 36 meses de pesquisa, serão testadas com dados internacionais em painel (2010–2024), validadas por meio de entrevistas com CFOs, gestores de investimentos e especialistas em ESG, além de serem aplicadas em empresas reais, com o objetivo de desenvolver ferramentas práticas e utilizáveis – e não apenas publicáveis.
Por que isso importa para fundadores, investidores e para o ecossistema brasileiro de inovação?
O Brasil abriga um dos ecossistemas de startups mais vibrantes da América Latina. O capital que financia essas empresas, no entanto, continua utilizando instrumentos de avaliação concebidos para medir ativos físicos, aqueles que podem ser vistos, tocados e depreciados.
Os investidores continuam avaliando negócios da economia do conhecimento com métricas da era industrial. Observam o ROA, quando o principal ativo da empresa é o algoritmo, a base de dados ou o conhecimento acumulado pela equipe. Nada disso aparece nesse indicador.
O conselho de administração provavelmente acompanha o EBITDA, mas o EBITDA é incapaz de revelar qualquer informação sobre a qualidade, a sustentabilidade ou a escalabilidade de uma vantagem competitiva baseada em inteligência.
E, em um cenário de captação de investimentos, especialmente em rodadas Série A, competir apenas por crescimento já não basta. É preciso saber comunicar a própria criação de valor. O fundador que domina a linguagem da performance integrada, demonstrando retorno não apenas em receita, mas também em produtividade da inteligência organizacional, passa a se diferenciar.
O futuro das métricas empresariais já começou
A questão não é mais se o sistema de mensuração financeira precisa mudar. Ele precisa.
O International Integrated Reporting Council (IIRC), a Global Reporting Initiative (GRI) e as normas de sustentabilidade da Fundação IFRS apontam na mesma direção: o futuro dos relatórios corporativos será integrado, multidimensional e orientado por conhecimento e inteligência.
Além disso, a pressão regulatória internacional reforça esse movimento. A Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) já exige que grandes empresas da União Europeia reportem informações de sustentabilidade com o mesmo nível de rigor aplicado às demonstrações financeiras tradicionais. O próximo passo natural é incorporar esses dados aos próprios modelos de avaliação e tomada de decisão, e não apenas aos relatórios anuais.
Acadêmicos podem propor novos modelos. Reguladores podem exigir novas divulgações. Mas a verdadeira transformação acontecerá quando empresários, fundadores e investidores passarem a exigir ferramentas melhores (e a utilizá-las no dia a dia).
Porque as empresas que liderarão a próxima década não serão necessariamente aquelas com os melhores balanços patrimoniais, mas sim aquelas que dispõem dos melhores dados, das equipes mais preparadas e dos sistemas mais robustos para transformar informação em decisões. Em outras palavras, aquelas capazes de adotar modelos de mensuração que reflitam, de forma clara e abrangente, como o valor é realmente criado no mundo contemporâneo, convertendo inteligência em rentabilidade e solidez financeira.




