Tecnologia & inteligencia artificial, ESG
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Tecnologia, IA e empreendedorismo feminino: quem fica de fora da próxima revolução?

Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME) e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República – CDESS. Presidente do W20, grupo de engajamento do G20. Conselheira da UAM/Grupo Ânima. Reconhecida no ranking Melhores Líderes do Brasil da Merco e por prêmios como: Bloomberg 500 mais influentes da América Latina 2024, Melhores e Maiores 2024, Empreendedor Social 2023, Executivo de Valor 2023 e Forbes Brasil Mulheres Mais Poderosas 2019. Autora do livro “Negócios: um assunto de mulheres - A força transformadora do empreendedorismo feminino".

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Vivemos um momento caótico, rápido e tecnológico. A inteligência artificial e a automação estão redesenhando o mundo e o ecossistema de negócios em velocidade acelerada, transformando diversas áreas da vida. E para toda grande revolução existem consequências. Muito já se discute sobre os impactos para o mercado de trabalho, mas existe aqui também um outro efeito que poucos estão vendo ou falando: quem está sendo deixado para trás?

A distância entre grandes empresas – que estão acelerando a implantação de IA com seus grandes orçamentos, estruturas e treinamentos – e os pequenos negócios tende a aumentar. E quando falamos em empreendedorismo feminino no Brasil – especialmente o periférico, negro, materno, que é a maior parte – a resposta salta aos olhos: são essas mulheres que correm o maior risco de exclusão digital e econômica. Podemos acabar aprofundando desigualdades históricas com a chancela de uma nova era digital que cresce de forma exponencial, mas extremamente desigual.

Dados que não podemos ignorar

Sabemos que a maioria dos postos de trabalho do país são gerados por PMEs e que a maior parte dos pequenos empreendedores brasileiros são mulheres. Além disso, a última edição da pesquisa “Empreendedoras e Seus Negócios 2025”, realizada pelo Instituto RME, mostra que 58,3% das empreendedoras são chefes de família, e ainda que quase 70% sustentam outras pessoas com sua renda mensal, que gira em torno de R$ 2.400.

A maior motivação principal para empreender é a necessidade, refletindo um contexto de vulnerabilidade e ausência de inclusão produtiva. E apenas 2,4% das empreendedoras atuam em tecnologia e informação, evidenciando uma sub-representação em setores estratégicos da nova economia digital. Em um cenário no qual a empreendedora precisa “vender o almoço para pagar a janta”, que faz o “marketing” do seu negócio enquanto carrega caixa e faz café, ela não tem tempo e nem consegue parar de fazer uma dessas tarefas para aprender IA e suas possibilidades sozinha. Mais da metade dessas mulheres não tem qualquer tipo de ajuda em casa ou no negócio. E enquanto lidam com múltiplas jornadas, não têm acesso a nenhum tipo de financiamento ou investimento para seus negócios.

A próxima fronteira da exclusão: o acesso à tecnologia

Menos de 15% das empreendedoras apontam o uso da tecnologia como desafio prioritário em seus negócios. Esse número mostra que a maioria sequer chegou à etapa de transformação digital. Ferramentas de gestão, automação de marketing, inteligência de vendas, análise de dados… tudo isso ainda parece distante da realidade das micro e pequenas empreendedoras brasileiras.

Enquanto isso, empresas e startups aceleram seus processos com IA generativa, atendimento automatizado e análise preditiva de comportamento do consumidor. Se não for promovida uma ação coordenada de inclusão, a IA corre o risco de se tornar mais um divisor de águas entre quem avança e quem estagna.

IA que reforça desigualdades

Um estudo de 2023 da Stanford HAI mostra que a maioria das bases de dados usadas para treinar IA têm baixa representatividade de países do Sul Global e sub-representação de mulheres e pessoas negras. Isso se traduz em tecnologias enviesadas que tomam decisões com base em padrões distorcidos, impactando negativamente a vida de quem está fora desse eixo hegemônico de desenvolvimento.
Isso inclui desde algoritmos de crédito que reprovam pedidos com base em CEPs e padrões de consumo, até filtros de currículo que invisibilizam mulheres com experiências não lineares (como pausas na carreira por maternidade).

O que projeta esse cenário? Podemos estar decretando o fim de muitos pequenos negócios, promovendo mais oligopólios e fazendo crescer a desigualdade e a pobreza, em especial dentro de um recorte da população que vai gerar e criar a próxima geração.

É uma fotografia dura e real da base empreendedora do país. Um contingente de milhões de mulheres que seguram a economia local, mas que estão em risco de exclusão na nova economia digital.

O papel das empresas: compromisso de impacto

Essa realidade não muda sem o envolvimento do setor privado. A inclusão produtiva das mulheres na revolução digital precisa ser parte da agenda ESG com intencionalidade, investimento e estratégia.
Mas é possível transformar essa realidade. Na Rede Mulher Empreendedora temos unido esforços junto às corporações que estão liderando uma possível mudança desse cenário.

Entre as boas práticas para empresas estão: o apoio a projetos de capacitação em tecnologia e IA com foco em pequenas empreendedoras; o financiamento de programas voltados para startups fundadas por mulheres; o fomento ao voluntariado corporativo qualificado, com mentoras e especialistas; e a inclusão de negócios liderados por mulheres como fornecedoras B2B, ampliando diversidade nas cadeias de valor.

A tecnologia só será transformadora se for inclusiva. Não basta falar em futuro se ele não incluir as mulheres, que são mais de 50% da população. Não basta investir em inovação se ela não servir para melhorar a vida das pessoas. E como toda transformação real, ela começa com a decisão de não deixar ninguém para trás.

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Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME) e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República – CDESS. Presidente do W20, grupo de engajamento do G20. Conselheira da UAM/Grupo Ânima. Reconhecida no ranking Melhores Líderes do Brasil da Merco e por prêmios como: Bloomberg 500 mais influentes da América Latina 2024, Melhores e Maiores 2024, Empreendedor Social 2023, Executivo de Valor 2023 e Forbes Brasil Mulheres Mais Poderosas 2019. Autora do livro “Negócios: um assunto de mulheres - A força transformadora do empreendedorismo feminino".

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