Tecnologia & inteligencia artificial, ESG
4 minutos min de leitura

Tecnologia, IA e empreendedorismo feminino: quem fica de fora da próxima revolução?

Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME) e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República – CDESS. Presidente do W20, grupo de engajamento do G20. Conselheira da UAM/Grupo Ânima. Reconhecida no ranking Melhores Líderes do Brasil da Merco e por prêmios como: Bloomberg 500 mais influentes da América Latina 2024, Melhores e Maiores 2024, Empreendedor Social 2023, Executivo de Valor 2023 e Forbes Brasil Mulheres Mais Poderosas 2019. Autora do livro “Negócios: um assunto de mulheres - A força transformadora do empreendedorismo feminino".

Compartilhar:

Vivemos um momento caótico, rápido e tecnológico. A inteligência artificial e a automação estão redesenhando o mundo e o ecossistema de negócios em velocidade acelerada, transformando diversas áreas da vida. E para toda grande revolução existem consequências. Muito já se discute sobre os impactos para o mercado de trabalho, mas existe aqui também um outro efeito que poucos estão vendo ou falando: quem está sendo deixado para trás?

A distância entre grandes empresas – que estão acelerando a implantação de IA com seus grandes orçamentos, estruturas e treinamentos – e os pequenos negócios tende a aumentar. E quando falamos em empreendedorismo feminino no Brasil – especialmente o periférico, negro, materno, que é a maior parte – a resposta salta aos olhos: são essas mulheres que correm o maior risco de exclusão digital e econômica. Podemos acabar aprofundando desigualdades históricas com a chancela de uma nova era digital que cresce de forma exponencial, mas extremamente desigual.

Dados que não podemos ignorar

Sabemos que a maioria dos postos de trabalho do país são gerados por PMEs e que a maior parte dos pequenos empreendedores brasileiros são mulheres. Além disso, a última edição da pesquisa “Empreendedoras e Seus Negócios 2025”, realizada pelo Instituto RME, mostra que 58,3% das empreendedoras são chefes de família, e ainda que quase 70% sustentam outras pessoas com sua renda mensal, que gira em torno de R$ 2.400.

A maior motivação principal para empreender é a necessidade, refletindo um contexto de vulnerabilidade e ausência de inclusão produtiva. E apenas 2,4% das empreendedoras atuam em tecnologia e informação, evidenciando uma sub-representação em setores estratégicos da nova economia digital. Em um cenário no qual a empreendedora precisa “vender o almoço para pagar a janta”, que faz o “marketing” do seu negócio enquanto carrega caixa e faz café, ela não tem tempo e nem consegue parar de fazer uma dessas tarefas para aprender IA e suas possibilidades sozinha. Mais da metade dessas mulheres não tem qualquer tipo de ajuda em casa ou no negócio. E enquanto lidam com múltiplas jornadas, não têm acesso a nenhum tipo de financiamento ou investimento para seus negócios.

A próxima fronteira da exclusão: o acesso à tecnologia

Menos de 15% das empreendedoras apontam o uso da tecnologia como desafio prioritário em seus negócios. Esse número mostra que a maioria sequer chegou à etapa de transformação digital. Ferramentas de gestão, automação de marketing, inteligência de vendas, análise de dados… tudo isso ainda parece distante da realidade das micro e pequenas empreendedoras brasileiras.

Enquanto isso, empresas e startups aceleram seus processos com IA generativa, atendimento automatizado e análise preditiva de comportamento do consumidor. Se não for promovida uma ação coordenada de inclusão, a IA corre o risco de se tornar mais um divisor de águas entre quem avança e quem estagna.

IA que reforça desigualdades

Um estudo de 2023 da Stanford HAI mostra que a maioria das bases de dados usadas para treinar IA têm baixa representatividade de países do Sul Global e sub-representação de mulheres e pessoas negras. Isso se traduz em tecnologias enviesadas que tomam decisões com base em padrões distorcidos, impactando negativamente a vida de quem está fora desse eixo hegemônico de desenvolvimento.
Isso inclui desde algoritmos de crédito que reprovam pedidos com base em CEPs e padrões de consumo, até filtros de currículo que invisibilizam mulheres com experiências não lineares (como pausas na carreira por maternidade).

O que projeta esse cenário? Podemos estar decretando o fim de muitos pequenos negócios, promovendo mais oligopólios e fazendo crescer a desigualdade e a pobreza, em especial dentro de um recorte da população que vai gerar e criar a próxima geração.

É uma fotografia dura e real da base empreendedora do país. Um contingente de milhões de mulheres que seguram a economia local, mas que estão em risco de exclusão na nova economia digital.

O papel das empresas: compromisso de impacto

Essa realidade não muda sem o envolvimento do setor privado. A inclusão produtiva das mulheres na revolução digital precisa ser parte da agenda ESG com intencionalidade, investimento e estratégia.
Mas é possível transformar essa realidade. Na Rede Mulher Empreendedora temos unido esforços junto às corporações que estão liderando uma possível mudança desse cenário.

Entre as boas práticas para empresas estão: o apoio a projetos de capacitação em tecnologia e IA com foco em pequenas empreendedoras; o financiamento de programas voltados para startups fundadas por mulheres; o fomento ao voluntariado corporativo qualificado, com mentoras e especialistas; e a inclusão de negócios liderados por mulheres como fornecedoras B2B, ampliando diversidade nas cadeias de valor.

A tecnologia só será transformadora se for inclusiva. Não basta falar em futuro se ele não incluir as mulheres, que são mais de 50% da população. Não basta investir em inovação se ela não servir para melhorar a vida das pessoas. E como toda transformação real, ela começa com a decisão de não deixar ninguém para trás.

Compartilhar:

Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME) e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República – CDESS. Presidente do W20, grupo de engajamento do G20. Conselheira da UAM/Grupo Ânima. Reconhecida no ranking Melhores Líderes do Brasil da Merco e por prêmios como: Bloomberg 500 mais influentes da América Latina 2024, Melhores e Maiores 2024, Empreendedor Social 2023, Executivo de Valor 2023 e Forbes Brasil Mulheres Mais Poderosas 2019. Autora do livro “Negócios: um assunto de mulheres - A força transformadora do empreendedorismo feminino".

Artigos relacionados

Segurança cibernética: o orçamento está protegendo os riscos certos?

O crescimento das ameaças digitais exige mais do que aumentar recursos destinados à segurança cibernética. Exige compreender quais riscos realmente importam para o negócio. O artigo explora por que as organizações precisam abandonar modelos baseados na inércia e adotar uma lógica orientada por risco para direcionar seus investimentos.

O Brasil tem muitos fundos ou muito risco? O que os números realmente mostram

O Brasil lidera os rankings globais em número de fundos de investimento, mas essa estatística nem sempre é interpretada corretamente. O artigo analisa a diferença entre quantidade de veículos e volume de patrimônio administrado, discutindo por que a elevada quantidade de fundos pode refletir características regulatórias e de transparência do mercado brasileiro, e não necessariamente riscos associados à opacidade ou à ocultação patrimonial. Mais do que um debate sobre números, a reflexão propõe uma análise crítica sobre regulação, rastreabilidade e o papel da indústria de fundos no financiamento da economia.

O que o espírito do tempo está tentando nos dizer? Afeto, autonomia e o desafio de construir o futuro

A partir de referências históricas e filosóficas que atravessam de Hegel a Beethoven, o artigo propõe uma reflexão sobre os valores que parecem ganhar força na sociedade contemporânea. Em um cenário marcado por transformações políticas, sociais e culturais, temas como autonomia, propósito, afeto, pertencimento e responsabilidade compartilhada surgem como elementos centrais para compreender os desafios do presente.

Educação
23 de outubro de 2026 15H00
O artigo discute por que a personalização da aprendizagem exige ir além dos indicadores tradicionais e apresenta o conceito de Learner 360, uma proposta para construir uma visão mais integrada, dinâmica e significativa do aprendiz, capaz de apoiar decisões educacionais mais precisas e trajetórias de desenvolvimento verdadeiramente centradas no indivíduo.

Daniel Luzzi - Fundador e CEO da Cognita Learning Lab

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
23 de outubro de 2026 08H00
A IA vai tirar empregos ou reinventar o trabalho? A pergunta mais comum sobre inteligência artificial ainda gira em torno da substituição de empregos. O artigo propõe uma reflexão sobre o futuro das carreiras, questionando a estrutura tradicional das organizações e defendendo um modelo em que pessoas se concentram cada vez mais em criar, conectar, verificar e escalar, enquanto a IA assume grande parte das atividades operacionais.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura
Estratégia, Marketing & growth
22 de outubro de 2026 15H00
O artigo defende que a criatividade deixou de ser um recurso pontual para se tornar uma capacidade organizacional capaz de conectar tecnologia, inovação, cultura e estratégia, sustentando o crescimento contínuo e a relevância das empresas no longo prazo.

Thais Lima - Diretora da MarkUp

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
22 de outubro de 2026 08H00
O artigo explora como a colaboração entre montadoras, startups, centros de pesquisa e programas de fomento está acelerando a criação de soluções centradas na experiência humana, mostrando que o futuro da mobilidade será construído pela capacidade de conectar tecnologia, ecossistemas de inovação e necessidades reais da sociedade.

Ana Claudia Didier -

4 minutos min de leitura
Marketing, Estratégia
21 de outubro de 2026 12H00
Marca de empresa é criada, marca de lugar é descoberta. Os gestores corporativos têm muito o que aprender com o “place branding” sobre gerir algo que não tem dono

Caio Esteves

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de outubro de 2026 08H00
Os padrões abertos já permitem que uma credencial de competência seja lida em qualquer país. O que ela significa depende de quem constrói o trilho por onde ela passa. Europa e Ásia já fizeram essa escolha, e o Brasil tem todas as peças para fazer a sua.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por POK Brasil
8 minutos min de leitura
ESG, Liderança
20 de outubro de 2026 08H00
Ao celebrar 13 anos de atuação, o Grupo Mulheres do Brasil reafirma seu compromisso com a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e diversa. Mas sua trajetória revela um impacto que vai além das causas e dos projetos: a força de uma rede capaz de conectar mulheres, criar oportunidades, fortalecer vínculos e promover desenvolvimento pessoal e coletivo.

Alexandra Segantin - CEO do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de outubro de 2026 14H00
Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

11 minutos min de leitura
Estratégia
19 de outubro de 2026 08H00
Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento. Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
18 de outubro de 2026 15H00
Recursos avançados, aplicativos e conectividade impressionam, mas raramente são o motivo principal de uma decisão de compra. O que as pessoas realmente buscam é uma solução capaz de tornar a vida mais simples e agradável. O artigo explora por que o sucesso de produtos inteligentes depende menos das funcionalidades e mais da capacidade de entregar uma experiência intuitiva e consistente.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor responsável técnico da Hotfloor

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução