Estratégia e Execução

Todos os caminhos levam a Roma

Merecem atenção dos gestores as estruturas de governança alternativas, em especial o conselho consultivo, que está em alta

Compartilhar:

Uma posição no conselho de administração de uma grande empresa é, sem dúvida, a carreira dos sonhos de muitos executivos, mas o glamour associado a esse assento tem diminuído. A cada fraude revelada, as leis – e a mídia – responsabilizam e punem os membros do conselho, comprometendo até seus patrimônios pessoais, em que pesem as apólices de seguros que as empresas contratam para os conselheiros. 

Por isso, instâncias de governança voltadas ao assessoramento e não a decisões, com participação de profissionais externos, têm chamado a atenção de mais e mais gestores. 

“Em conversas com vários gestores, percebo um interesse crescente por participar de conselhos consultivos”, diz Marcelo Veras, presidente da Inova Business School, que oferece vários programas executivos, inclusive para formação de conselheiros.

O presidente do conselho da Embraer, Alexandre Silva, conta que os comitês de assessoramento dos conselhos também são formados por especialistas externos quando necessário, além de membros do conselho de administração e da equipe gerencial. “Eles não tomam decisões; recomendam e o conselho pode ou não acatar.” Encaixam-se nesse caso desde o conselho fiscal até um comitê permanente voltado à gestão de pessoas. 

> **Diferenças entre os dois conselhos**
>
> As vantagens de constituir um conselho, seja ele deliberativo, seja orientador, vão além de promover uma melhor imagem da empresa no mercado. “Os conselhos ajudam no aumento da qualidade das decisões, desenvolvimento estratégico, compliance, mitigação de riscos e, como consequência, melhoram o resultado do negócio”, enumera o professor Luis Augusto Lobão Mendes. Lobão detalha as diferenças entre os dois tipos principais de conselhos:
>
> **Conselho de administração** – Órgão com caráter deliberativo. Sua função fundamental é definir normas e direções que a organização deve seguir e as práticas, as condutas e as estratégias a adotar, além de fazer a fiscalização e a aprovação dos relatórios e dos resultados. 
>
> Esses conselheiros têm responsabilidade nas áreas civil e penal, societária, tributária, trabalhista, ambiental, falimentar e concorrencial, de maneira subjetiva – pode prevalecer a teoria da culpa (imprudência, negligência ou imperícia) ou dolo (com intenção). De modo objetivo, eles são passíveis de julgamento pela teoria do risco (basta haver o dano e o nexo de causalidade entre o agente e o dano). São pessoalmente responsáveis pelos créditos tributários resultantes de obrigações tributárias. E, assim como acontece com os sócios da empresa e seus gestores, os conselheiros podem ser responsabilizados civil e criminalmente pela Justiça. 
>
>
>
> **Conselho consultivo** – Órgão com caráter de assessoramento. Geralmente, o papel do conselheiro é de emitir parecer e recomendação. É uma opção cada vez mais comum para empresas em estágio inicial de governança e familiares. As responsabilidades dos conselheiros são bem menores que as descritas para o conselho de administração, justamente por sua característica de orientar a equipe gerencial e não tomar decisões para a empresas.

**Conselho consultivo**

O que tem ganhado os holofotes mesmo no meio executivo é o conselho consultivo, e três fatores explicam o fenômeno.

O primeiro fator é o temor que as pessoas têm de arriscar seu patrimônio pessoal caso a empresa aja de maneira antiética – algo que é uma obrigação legal e que nem sempre é fácil de os conselheiros identificarem. Como conselhos consultivos não estatutários não são administradores de uma empresa, seus membros não estão, em regra, sujeitos aos mesmos deveres e às mesmas responsabilidades exigidos de quem integra um conselho de administração, explica Richard Blanchet, professor do IBGC e sócio da Loeser, Blanchet e Hadad Advogados. 

Isso cria, inclusive, um movimento curioso no mercado. Segundo Blanchet, há empresas adotando conselhos consultivos como alternativa para trazer os profissionais que, acreditam, vão agregar mais valor a seus negócios e que não querem ser membros de conselhos de administração.

O segundo impulsionador da tendência em prol de conselhos consultivos é o fato de servirem de ponto de partida a quem quer fazer uma carreira como conselheiro. É comum no mercado que um profissional, depois de fazer um curso de formação de conselheiro, ingresse em um conselho consultivo – às vezes, até sem remuneração, só para adquirir experiência e currículo. “O conselho consultivo é um degrau importante para chegar ao conselho de administração, porque o profissional tem a oportunidade de absorver ali competências e qualificações fundamentais para o exercício da função”, como ensina Celso Lemme, professor do Instituto Coppead de Administração e membro ele mesmo de alguns conselhos consultivos. 

O terceiro fator do fenômeno é a aparentemente maior oferta de vagas em conselhos consultivos. De um lado, as empresas que começam a implantar um sistema de governança corporativa costumam iniciar por esse tipo de conselho. “É uma forma inteligente de fazer com que os acionistas comecem a lidar com opiniões diferentes”, avalia Luiz Carlos Cabrera, sócio-fundador da Panelli Motta Cabrera e professor do IBGC. A Mecalor, fornecedora de soluções de engenharia térmica B2B que fatura 

R$ 100 milhões ao ano, é um desses casos. Ela acaba de se tornar uma sociedade anônima de capital fechado e está criando um conselho consultivo. A estrutura vai reforçar o sistema de governança que começou a se organizar com o conselho diretor formado pelo CEO e quatro diretores estatuários com mandato de três anos. “Estamos definindo os perfis e escolhendo possíveis nomes para convidar para o conselho consultivo. A ideia é formar um grupo de pessoas externas, que atuem em diferentes áreas e com experiências distintas e tragam ideias criativas e provocações úteis, além de nos questionarem de modo construtivo”, diz Janos Szégö, o CEO. 

De outro lado, as ofertas são maiores porque o conselho consultivo oferece pouca ou nenhuma restrição quanto a participantes – por exemplo, Lemme consegue participar deles apesar de ser funcionário concursado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na qual o Coppead se integra – a UFRJ não permite que seus concursados ocupem cargos em conselhos de administração. 

Há ainda a questão da preferência. Muitas pessoas se entusiasmam mais com as rotinas e as práticas de um conselho consultivo do que com as de um conselho de administração. 

“É o local de divergências por excelência; de lá saem as novas ideias, já organizadas, para o board principal”, diz Lemme.

O conselho consultivo é um órgão voltado apenas ao aconselhamento da equipe de gestão, como explica Blanchet, ainda que simule as atribuições de decisão e supervisão de um conselho de administração. [Veja no quadro ao lado as diferenças entre os dois conselhos.] “Na prática, no entanto, a diversidade de conselhos consultivos é imensa – uns têm mais poderes e outros, menos”, comenta Blanchet.

**Outros comitês**

Existem ainda outros caminhos. Para o melhor desempenho de suas funções, por exemplo, é comum o conselho de administração criar comitês de assessoramento, tais como os de auditoria, pessoas, finanças e inovação, entre outros. E há neles especialistas externos. 

Vale a pena também uma posição nessas instâncias. Por exemplo, José Paschoal Rossetti, membro de vários boards, tem os comitês permanentes em alta conta: “um conselho sem comitês é como uma mesa sem pés”.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A pressão que não aparece no organograma: a carreira das mulheres exige mais remédios do que reconhecimento

Quando mulheres consomem a maior parte dos antidepressivos, analgésicos, sedativos e ansiolíticos dentro das empresas, não estamos falando de fragilidade – estamos falando de um modelo de liderança que normaliza exaustão como competência. Este artigo confronta a farsa da “supermulher” e questiona o preço real que elas pagam para sustentar ambientes que ainda insistem em chamá‑las de resilientes.

Morte: a próxima fronteira do bem-estar

Do SXSW 2026 à realidade brasileira: O luto deixa o silêncio e começa a ocupar o centro do cuidado humano. A morte entrou na agenda do bem-estar e desafia indivíduos, empresas e sociedades a reaprenderem a cuidar.

Inovação & estratégia
27 de março de 2026 13H00
Investir em centros de P&D deixou de ser opcional: tornou‑se uma decisão estratégica para competir em mercados cada vez mais tecnológicos.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Estratégia
27 de março de 2026 07H00
Medir saúde organizacional deveria estar no mesmo painel que receita, margem e eficiência. Quando empresas tratam bem-estar como benefício e não como gestão, elas não só ignoram dados alarmantes - elas comprometem produtividade, engajamento e resultado.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura
ESG
26 de março de 2026 15H00
A capitulação da SEC diante das regras climáticas criou dois mundos corporativos: um onde ESG é obrigatório e outro onde é opcional. Para CEOs de multinacionais, isso não é apenas questão regulatória, é o maior dilema estratégico da década. Como liderar empresas globais quando as regras do jogo mudam conforme a geografia?

Marceli Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de março de 2026 09H00
À medida que desafios logísticos se tornam complexos demais para a computação tradicional, este artigo mostra por que a computação quântica pode inaugurar uma nova era de eficiência para o setor de mobilidade e entregas - e como empresas que começarem a aprender agora sairão anos à frente quando essa revolução enfim ganhar escala.

Pâmela Bezerra - Pesquisadora do CESAR e professora de pós-graduação da CESAR School e Everton Dias - Gerente de Projetos

7 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
25 de março de 2026 15H00
IA executa, analisa e recomenda. Cabe ao líder humano decidir, inspirar e construir cultura.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
ESG
25 de março de 2026 09H00
Quando propósito vira vantagem competitiva, manter impacto e lucro separados é mais que atraso - é miopia estratégica.

Ana Fontes - Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora e Instituto RME, VP do Conselho do Pacto Global da ONU

5 minutos min de leitura
Finanças, Estratégia
24 de março de 2026 14H00
Quando a geopolítica esquenta, o impacto não começa nos noticiários - começa na planilha: energia mais cara, logística pressionada, insumos instáveis e margens comprimidas. Este artigo revela por que guerras longínquas se tornam, em poucos dias, um problema urgente de precificação, estratégia e sobrevivência financeira para as empresas.

Alexandre Costa - Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
24 de março de 2026 07H00
À medida que a China eleva a inteligência artificial incorporada e as interfaces cérebro‑máquina ao status de indústrias estratégicas, uma nova disputa tecnológica global se desenha - e o epicentro da inovação pode estar prestes a mudar de coordenadas.

Leandro Mattos - Expert em neurociência da Singularity Brazil e CEO da CogniSigns

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de março de 2026 14H00
Entre inovação, sustentabilidade e segurança regulatória, o modelo de concessões evolui para responder aos novos desafios da mobilidade urbana no Brasil.

Edson Cedraz - Sócio-líder para a indústria de Government & Public Services e Fernanda Tauffenbach - Sócia de Infrastructure and Capital Projects

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
23 de março de 2026 08H00
Num setor que insiste em se declarar neutro, este artigo expõe a pergunta incômoda que a tecnologia evita - e revela por que ampliar quem ocupa a mesa de decisões é urgente para que o futuro não repita o passado.

Roberta Fernandes - Diretora de Cultura e ESG do CESAR

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...