Em junho, caminhei pelos 4,58 hectares do Château Lafleur, em Pomerol. Meu objetivo era compreender uma decisão que vai além do mundo do vinho. Queria entender por que uma propriedade familiar de reconhecimento global decidiu deixar a denominação de origem (AOC). Essa denominação, durante décadas, ajudou a proteger sua origem e reputação. Foi uma renúncia voluntária à denominação Pomerol, em uma região que reúne algumas das terras agrícolas e garrafas mais valorizadas do mundo.
A resposta da família Guinaudeau, construída em uma conversa sobre solo, genética, clima e sucessão, pode ser resumida em uma aparente contradição: mudar para continuar o mesmo.
Não se tratava de rejeitar a tradição, nem de negar o valor da regulação. As denominações de origem foram fundamentais para combater fraudes, proteger a procedência e construir a confiança dos consumidores. O dilema surgiu quando a família concluiu que a mudança do regime climático exigia novas formas de manejar a água e o solo, não acomodadas pelas regras vigentes. Permanecer fiel à qualidade passava, paradoxalmente, por deixar a estrutura que, durante décadas, ajudara a reconhecê-la.
Essa tensão não pertence apenas ao vinho. Ela está presente em empresas familiares e corporações que começam a se tornar prisioneiras das fórmulas responsáveis por seu próprio sucesso. Afinal, o que deve permanecer em uma organização: seus princípios ou seus procedimentos?
Lafleur nasceu de uma escolha incomum. Em 1872, Henri Grelou decidiu não incorporar aquela pequena parcela a uma propriedade maior. Em uma época de expansão agrícola, preferiu manter uma escala reduzida para produzir um vinho pequeno em quantidade e grande em qualidade. Qualidade antes da quantidade tornou-se uma espécie de constituição não escrita da família orientando escolhas economicamente difíceis ao longo de gerações.
Essa história ajuda a distinguir tradição de repetição. Tradição envolve enfrentar as perguntas de cada época com compromisso semelhante com a excelência e o longo prazo. Empresas familiares frequentemente afirmam preservar o legado quando, na realidade, protegem hábitos, cargos, produtos ou processos decisórios que perderam sua finalidade. Confundem continuidade com imobilidade. Perpetuar uma organização não é congelá-la.
A trajetória de Lafleur também provoca uma reflexão sobre os efeitos do progresso. No pós-guerra, a agricultura europeia precisava recuperar sua capacidade produtiva. A mecanização e a seleção clonal trouxeram volume e previsibilidade, mas também reduziram parte da diversidade genética dos vinhedos. A propriedade preservou plantas antigas e conhecimentos desenvolvidos ao longo de gerações, não porque seus responsáveis tivessem previsto o futuro, mas porque foram prudentes o suficiente para não substituir rapidamente aquilo que ainda não compreendiam por completo.
A lição não é rejeitar a tecnologia, mas reconhecer que toda inovação produz ganhos visíveis mas que pode eliminar capacidades cujo valor ainda não sabemos medir. Nas empresas, a automação acelera processos, mas pode apagar conhecimentos tácitos. A terceirização reduz custos, mas pode levar embora competências estratégicas. O benchmarking oferece referências, mas também pode pasteurizar estratégias.
Outra lição surgiu da relação entre a videira e a água. Historicamente, os solos secos de Bordeaux submetiam a planta a uma restrição benéfica. A videira interrompia seu crescimento e concentrava energia no amadurecimento das uvas. Com a mudança do regime climático, a mesma restrição começou a se transformar em estresse. A distinção é valiosa para as organizações. Limitações de capital estimulam escolhas. Metas desafiadoras produzem foco. Conselheiros independentes criam tensão produtiva. Mas existe uma fronteira: quando metas ignoram a realidade, cortes eliminam capacidade operacional e equipes vivem em permanente estado de emergência, a pressão deixa de produzir qualidade e passa a gerar exaustão e destruição de valor. O papel da governança não é eliminar todo desconforto, mas reconhecer quando o desconforto produtivo se transforma em estresse destrutivo.
A virada climática revelou ainda outro paradoxo: a baixa retenção de água, que contribuiu para a excepcionalidade daqueles terrenos, tornou-se uma vulnerabilidade diante do aumento das temperaturas. O mesmo ocorre nos negócios. Uma ampla rede física pode deixar de ser vantagem e transformar-se em custo. Uma cultura de controle pode garantir consistência em determinado momento e, posteriormente, impedir inovação. Uma integração vertical pode oferecer segurança em uma fase e rigidez na seguinte.
Por isso, conselhos não deveriam perguntar apenas quais são as vantagens competitivas da empresa hoje. Deveriam questionar: em quais cenários essas vantagens podem se converter em passivos? Quanto maior o sucesso produzido por uma competência, maior o risco de a liderança transformá-la em dogma.
Ao relatar a aquisição da propriedade, o responsável por Lafleur usou uma expressão memorável: era necessário preservar o desconforto. Isso significava permanecer próximo da operação, questionar intermediários e impedir que a reputação gerasse complacência. Empresas bem-sucedidas também precisam dessa fricção. Conselheiros independentes, contato direto com clientes, visitas à operação e disposição para ouvir más notícias evitam que a alta liderança se afaste da realidade. Independência não é distância.
Deixar uma denominação reconhecida internacionalmente implica renunciar a uma referência valiosa e assumir riscos reputacionais. No caso de Lafleur, porém, a decisão foi precedida por anos de observação, dados, testes e aprendizado. Coragem não é impulsividade. Convicção não dispensa evidências.
Organizações longevas precisam de equilíbrio para administrar tensões, estrutura para proteger o que tem valor e estratégia para distinguir o que deve permanecer daquilo que precisa ser abandonado. Mudar para continuar o mesmo não é uma contradição. É reconhecer que o verdadeiro legado não está nas respostas do passado, mas na capacidade de formular novas respostas sem abandonar os princípios que deram sentido à organização.




