Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
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A IA barata vai derreter os serviços. Na indústria, ela pode fazer o contrário

Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.
Conselheiro, consultor de gestão estratégica, professor no MBA e no Pós-Tech da FIAP, mentor na ABStartups e Professional Services Director na Bolder. Coautor de "Governança Estratégica da Inovação: Liderando a Revolução Digital". Graduado em Administração Mercadológica com especialização em Gestão de Marcas (ESPM), MBA em Gestão Estratégica e Econômica de Empresas (FGV) e MBA em Business Innovation (FIAP).

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Motor elétrico é o produto mais sem graça da indústria. Ele gira. Sempre girou. Ninguém nunca escreveu um artigo empolgado sobre motor elétrico.

Em Jaraguá do Sul, uma empresa fundada em 1961 decidiu que o motor deveria fazer mais uma coisa além de girar: contar. Hoje ele pode sair da linha com um sensor que aprende o padrão de operação daquele ativo específico, naquela planta específica, e a WEG cobra assinatura por isso.

O detalhe que quase ninguém repara está na origem dos algoritmos. Eles não vieram de um laboratório de IA na Califórnia. Segundo a própria companhia, transformam em código o conhecimento acumulado em mais de seis décadas observando como motores falham em campo, validado nos laboratórios da casa.

Guarde essa distinção, porque ela é o artigo inteiro. O algoritmo qualquer concorrente aluga por centavos. Sessenta anos de motores falhando em campo, não.

O debate errado está consumindo toda a atenção

Acompanho essa discussão há meses e o que me incomoda nela não é a resposta. É a pergunta.

O mundo quer saber se a IA é uma bolha. As estimativas de capex dos grandes provedores de nuvem para 2026 circulam entre US$ 638 e 725 bilhões, dependendo da casa que você consulta (1). O Bank for International Settlements alertou em seu relatório anual de junho que uma decepção nos retornos pode virar retração prolongada, e registrou um fato desconfortável: poucas empresas relatam ganho de produtividade perceptível em projetos de IA que chegaram à produção em escala (2). Tem um número que resume melhor a tensão do que qualquer manchete: o capex de IA saiu de 33% do fluxo de caixa operacional dessas empresas em 2023 para algo perto de 93% em 2026 (3).

Bolha ou não, repare no que a briga revela sem querer. Centenas de bilhões estão sendo queimados para tornar a inteligência abundante e barata. E quando um insumo fica abundante e barato, quem construiu vantagem competitiva em cima da escassez dele tem um problema sério.

Escrevi aqui em junho que fossos competitivos erguidos sobre cognição escassa iam derreter. A leitura que muita gente fez foi a de que esse é um problema de todos. Não é. É um problema de quem vende cognição. Casas de análise já apontam serviços de TI e telecomunicações como os mais expostos a substituição e diluição de lucro (4).

Para quem opera átomos, o mesmo vetor aponta para o outro lado. E isso não é tese. Está em balanço.

A John Deere, fabricante de tratores com quase dois séculos de estrada, declarou meta de tirar 10% da receita de fontes recorrentes até 2030, algo na casa de US$ 5 bilhões, apoiada numa base que mira 1,5 milhão de máquinas conectadas e cerca de 500 milhões de acres na plataforma de operações (5). Os números mais recentes indicam renovação de assinaturas de software acima de 90% no segundo ano (6). Uma fabricante de trator com retenção de empresa de software. E o fosso ali não é um modelo proprietário de IA. É o dado de campo que só ela tem, colado na máquina que está fisicamente dentro da fazenda do cliente.

O sinal apareceu de novo há poucos dias, e mais perto de casa. No resultado do segundo trimestre divulgado em 22 de julho, a WEG viu receita e lucro caírem levemente no consolidado, pressionados por câmbio e pela ausência de projetos de geração solar centralizada. Mas a divisão de equipamentos eletroeletrônicos industriais cresceu 16,5% no mercado interno, puxada justamente por motores, redutores e automação, com ROIC de 33,6% (7). A ação subiu 10% no dia (8). O pedaço mais ‘velha economia’ da companhia foi o que acelerou.

“O mercado precifica quem vende inteligência como se ela fosse eternamente escassa e trata quem gera dado físico proprietário como atrasado. É exatamente o inverso.”


Enquanto isso, o consenso batizou o assunto de Physical AI. Pesquisas apontam que cerca de 80% dos fabricantes planejam adotá-la nos próximos dois anos (9). E o diagnóstico embutido é sempre o mesmo: a indústria está atrasada, precisa correr atrás.

Régua errada. A pergunta que decide o jogo não é quem adota mais rápido uma tecnologia que todo mundo vai poder alugar. É quem possui aquilo que a tecnologia não consegue replicar.

Três dinâmicas que o seu planejamento ainda não capturou

1. O fosso inverteu de lado. Em serviços, a cognição era o produto. Você vendia análise, parecer, atendimento, código. Barateada a cognição, o produto derrete junto com o fosso. Na indústria, cognição nunca foi produto: era custo de acesso, cara demais para aplicar a cada motor e a cada linha. Barateada, ela vira a chave que destrava um ativo que só você tem. Mesmo vetor econômico, sinais opostos.

2. A escassez mudou de endereço. O gargalo do mundo deixou de ser inteligência e passou a ser aquilo que a inteligência consome e não sabe fabricar. Energia, principalmente. Rede elétrica. Capacidade fabril. Dado físico de verdade. Não é coincidência que a corrida dos data centers tenha virado uma corrida por eletricidade e por território. Quem opera ativos físicos saiu da posição de tomador de tecnologia e virou dono do recurso escasso da década. A maioria ainda não reprecificou a própria posição, e continua entrando em negociação com fornecedor de tecnologia na postura de quem está pedindo favor.

3. A janela brasileira tem prazo. O país reúne uma combinação rara agora: matriz elétrica majoritariamente renovável, base industrial instalada com décadas de histórico operacional acumulado e um ciclo de política industrial em curso (10), bem no momento em que as cadeias globais aceitam pagar prêmio por segurança de suprimento. Antes do entusiasmo, a parte fria: a produção física da indústria de transformação ainda opera abaixo do pico do começo dos anos 2010 (11), e executivos alertaram no Fórum de Lisboa deste ano que, sem marco regulatório estável, os data centers vão para Chile, Argentina ou Uruguai (12). A janela é real. Janelas fecham. E o Brasil tem um histórico razoável de assistir a elas fecharem.

“Seu dado de processo não é sobra da operação. É a única reserva mineral que a IA barata valoriza em vez de dissolver.”

Três movimentos para quem senta na cadeira

Inventarie o dado proprietário como ativo, não como sobra de manutenção.

Telemetria, histórico de falhas, curva de processo, comportamento da base instalada dentro do cliente. Isso precisa de dono no organograma, de governança e de uma tese de monetização, com a mesma seriedade com que se trata uma jazida. A pergunta para levar ao conselho cabe em uma linha: o que a nossa operação sabe que nenhum concorrente consegue comprar?

Separe o alugável do defensável, e pare de confundir os dois.

Modelo de IA, nuvem e copiloto são commodity. Alugue, troque de fornecedor sem drama, negocie preço para baixo. Dado de base instalada, sensor no seu ativo e conhecimento de processo são defensáveis. Construa, proteja, capitalize. Gastar capex desenvolvendo internamente aquilo que se aluga por assinatura é cavar o fosso do vizinho com o seu dinheiro.

Coloque uma pergunta inegociável em cima da mesa de negociação: quem fica com o dado que a minha operação gera?

Cada contrato de equipamento, conectividade ou plataforma assinado sem essa resposta é uma doação. Você está entregando a jazida para alguém que amanhã pode aparecer na sua cadeia de valor cobrando pelo que era seu. A lição da agricultura de precisão é exatamente essa: quem controla o dado da operação acaba capturando a margem da operação.

A vergonha precisa trocar de lado

A década passada ensinou o industrial brasileiro a ter vergonha de ser “velha economia”. O futuro pertenceria a quem não tinha fábrica, não tinha estoque, não carregava átomos. Só bits e margem.

A ironia desta década é pesada. A economia de serviços ergueu castelos sobre uma escassez que acabou de acabar, enquanto a indústria passou vinte anos sentada, sem saber, sobre uma escassez que só cresce.

O jogo virou. Falta o industrial perceber que virou a favor dele.

Na sua próxima reunião de conselho, cronometre. Quantos minutos vão para decidir qual IA comprar? E quantos vão para discutir o que só a sua operação sabe, e ninguém consegue copiar?

 

Referências

  1. Estimativas de capex de hyperscalers para 2026, compiladas de J.P. Morgan Asset Management (Investment Outlook, junho de 2026), Goldman Sachs Research e Futurum Group. Faixa entre US$ 638 e 725 bilhões conforme metodologia e escopo de empresas (primária e secundária).
  2. Bank for International Settlements (BIS), Annual Economic Report 2026, junho de 2026. bis.org (primária).
  3. J.P. Morgan Asset Management, participação do capex de IA no fluxo de caixa operacional dos hyperscalers, junho de 2026 (primária).
  4. Allianz Trade, AI capex cycle monitor, 2026: exposição de serviços de TI e telecom a risco de substituição (secundária).
  5. Deere & Company, materiais de Investor Day e apresentações a investidores: meta de 10% de receita recorrente até 2030, máquinas conectadas e acres engajados. deere.com/investors (primária).
  6. Dados de renovação de assinaturas de software e usuários ativos do John Deere Operations Center, reportados por cobertura de mercado em julho de 2026 (secundária).
  7. WEG S.A., Release de Resultados do 2T26, divulgado em 22 de julho de 2026. ri.weg.net (primária).
  8. Reação de mercado à divulgação do 2T26 da WEG, InfoMoney, julho de 2026 (secundária).
  9. Manufacturing Leadership Council, pesquisa sobre adoção de physical AI na manufatura, 2026 (secundária).
  10. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Nova Indústria Brasil. gov.br/mdic (primária).
  11. IBGE, Pesquisa Industrial Mensal, Produção Física (PIM-PF), série histórica da indústria de transformação. sidra.ibge.gov.br (primária).
  12. Painel sobre política industrial e futuro da indústria brasileira, XIV Fórum de Lisboa, junho de 2026 (secundária).

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Conselheiro, consultor de gestão estratégica, professor no MBA e no Pós-Tech da FIAP, mentor na ABStartups e Professional Services Director na Bolder. Coautor de "Governança Estratégica da Inovação: Liderando a Revolução Digital". Graduado em Administração Mercadológica com especialização em Gestão de Marcas (ESPM), MBA em Gestão Estratégica e Econômica de Empresas (FGV) e MBA em Business Innovation (FIAP).

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