Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
8 minutos min de leitura

A IA barata vai derreter os serviços. Na indústria, ela pode fazer o contrário

Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.
Conselheiro, consultor de gestão estratégica, professor no MBA e no Pós-Tech da FIAP, mentor na ABStartups e Professional Services Director na Bolder. Coautor de "Governança Estratégica da Inovação: Liderando a Revolução Digital". Graduado em Administração Mercadológica com especialização em Gestão de Marcas (ESPM), MBA em Gestão Estratégica e Econômica de Empresas (FGV) e MBA em Business Innovation (FIAP).

Compartilhar:

Motor elétrico é o produto mais sem graça da indústria. Ele gira. Sempre girou. Ninguém nunca escreveu um artigo empolgado sobre motor elétrico.

Em Jaraguá do Sul, uma empresa fundada em 1961 decidiu que o motor deveria fazer mais uma coisa além de girar: contar. Hoje ele pode sair da linha com um sensor que aprende o padrão de operação daquele ativo específico, naquela planta específica, e a WEG cobra assinatura por isso.

O detalhe que quase ninguém repara está na origem dos algoritmos. Eles não vieram de um laboratório de IA na Califórnia. Segundo a própria companhia, transformam em código o conhecimento acumulado em mais de seis décadas observando como motores falham em campo, validado nos laboratórios da casa.

Guarde essa distinção, porque ela é o artigo inteiro. O algoritmo qualquer concorrente aluga por centavos. Sessenta anos de motores falhando em campo, não.

O debate errado está consumindo toda a atenção

Acompanho essa discussão há meses e o que me incomoda nela não é a resposta. É a pergunta.

O mundo quer saber se a IA é uma bolha. As estimativas de capex dos grandes provedores de nuvem para 2026 circulam entre US$ 638 e 725 bilhões, dependendo da casa que você consulta (1). O Bank for International Settlements alertou em seu relatório anual de junho que uma decepção nos retornos pode virar retração prolongada, e registrou um fato desconfortável: poucas empresas relatam ganho de produtividade perceptível em projetos de IA que chegaram à produção em escala (2). Tem um número que resume melhor a tensão do que qualquer manchete: o capex de IA saiu de 33% do fluxo de caixa operacional dessas empresas em 2023 para algo perto de 93% em 2026 (3).

Bolha ou não, repare no que a briga revela sem querer. Centenas de bilhões estão sendo queimados para tornar a inteligência abundante e barata. E quando um insumo fica abundante e barato, quem construiu vantagem competitiva em cima da escassez dele tem um problema sério.

Escrevi aqui em junho que fossos competitivos erguidos sobre cognição escassa iam derreter. A leitura que muita gente fez foi a de que esse é um problema de todos. Não é. É um problema de quem vende cognição. Casas de análise já apontam serviços de TI e telecomunicações como os mais expostos a substituição e diluição de lucro (4).

Para quem opera átomos, o mesmo vetor aponta para o outro lado. E isso não é tese. Está em balanço.

A John Deere, fabricante de tratores com quase dois séculos de estrada, declarou meta de tirar 10% da receita de fontes recorrentes até 2030, algo na casa de US$ 5 bilhões, apoiada numa base que mira 1,5 milhão de máquinas conectadas e cerca de 500 milhões de acres na plataforma de operações (5). Os números mais recentes indicam renovação de assinaturas de software acima de 90% no segundo ano (6). Uma fabricante de trator com retenção de empresa de software. E o fosso ali não é um modelo proprietário de IA. É o dado de campo que só ela tem, colado na máquina que está fisicamente dentro da fazenda do cliente.

O sinal apareceu de novo há poucos dias, e mais perto de casa. No resultado do segundo trimestre divulgado em 22 de julho, a WEG viu receita e lucro caírem levemente no consolidado, pressionados por câmbio e pela ausência de projetos de geração solar centralizada. Mas a divisão de equipamentos eletroeletrônicos industriais cresceu 16,5% no mercado interno, puxada justamente por motores, redutores e automação, com ROIC de 33,6% (7). A ação subiu 10% no dia (8). O pedaço mais ‘velha economia’ da companhia foi o que acelerou.

“O mercado precifica quem vende inteligência como se ela fosse eternamente escassa e trata quem gera dado físico proprietário como atrasado. É exatamente o inverso.”


Enquanto isso, o consenso batizou o assunto de Physical AI. Pesquisas apontam que cerca de 80% dos fabricantes planejam adotá-la nos próximos dois anos (9). E o diagnóstico embutido é sempre o mesmo: a indústria está atrasada, precisa correr atrás.

Régua errada. A pergunta que decide o jogo não é quem adota mais rápido uma tecnologia que todo mundo vai poder alugar. É quem possui aquilo que a tecnologia não consegue replicar.

Três dinâmicas que o seu planejamento ainda não capturou

1. O fosso inverteu de lado. Em serviços, a cognição era o produto. Você vendia análise, parecer, atendimento, código. Barateada a cognição, o produto derrete junto com o fosso. Na indústria, cognição nunca foi produto: era custo de acesso, cara demais para aplicar a cada motor e a cada linha. Barateada, ela vira a chave que destrava um ativo que só você tem. Mesmo vetor econômico, sinais opostos.

2. A escassez mudou de endereço. O gargalo do mundo deixou de ser inteligência e passou a ser aquilo que a inteligência consome e não sabe fabricar. Energia, principalmente. Rede elétrica. Capacidade fabril. Dado físico de verdade. Não é coincidência que a corrida dos data centers tenha virado uma corrida por eletricidade e por território. Quem opera ativos físicos saiu da posição de tomador de tecnologia e virou dono do recurso escasso da década. A maioria ainda não reprecificou a própria posição, e continua entrando em negociação com fornecedor de tecnologia na postura de quem está pedindo favor.

3. A janela brasileira tem prazo. O país reúne uma combinação rara agora: matriz elétrica majoritariamente renovável, base industrial instalada com décadas de histórico operacional acumulado e um ciclo de política industrial em curso (10), bem no momento em que as cadeias globais aceitam pagar prêmio por segurança de suprimento. Antes do entusiasmo, a parte fria: a produção física da indústria de transformação ainda opera abaixo do pico do começo dos anos 2010 (11), e executivos alertaram no Fórum de Lisboa deste ano que, sem marco regulatório estável, os data centers vão para Chile, Argentina ou Uruguai (12). A janela é real. Janelas fecham. E o Brasil tem um histórico razoável de assistir a elas fecharem.

“Seu dado de processo não é sobra da operação. É a única reserva mineral que a IA barata valoriza em vez de dissolver.”

Três movimentos para quem senta na cadeira

Inventarie o dado proprietário como ativo, não como sobra de manutenção.

Telemetria, histórico de falhas, curva de processo, comportamento da base instalada dentro do cliente. Isso precisa de dono no organograma, de governança e de uma tese de monetização, com a mesma seriedade com que se trata uma jazida. A pergunta para levar ao conselho cabe em uma linha: o que a nossa operação sabe que nenhum concorrente consegue comprar?

Separe o alugável do defensável, e pare de confundir os dois.

Modelo de IA, nuvem e copiloto são commodity. Alugue, troque de fornecedor sem drama, negocie preço para baixo. Dado de base instalada, sensor no seu ativo e conhecimento de processo são defensáveis. Construa, proteja, capitalize. Gastar capex desenvolvendo internamente aquilo que se aluga por assinatura é cavar o fosso do vizinho com o seu dinheiro.

Coloque uma pergunta inegociável em cima da mesa de negociação: quem fica com o dado que a minha operação gera?

Cada contrato de equipamento, conectividade ou plataforma assinado sem essa resposta é uma doação. Você está entregando a jazida para alguém que amanhã pode aparecer na sua cadeia de valor cobrando pelo que era seu. A lição da agricultura de precisão é exatamente essa: quem controla o dado da operação acaba capturando a margem da operação.

A vergonha precisa trocar de lado

A década passada ensinou o industrial brasileiro a ter vergonha de ser “velha economia”. O futuro pertenceria a quem não tinha fábrica, não tinha estoque, não carregava átomos. Só bits e margem.

A ironia desta década é pesada. A economia de serviços ergueu castelos sobre uma escassez que acabou de acabar, enquanto a indústria passou vinte anos sentada, sem saber, sobre uma escassez que só cresce.

O jogo virou. Falta o industrial perceber que virou a favor dele.

Na sua próxima reunião de conselho, cronometre. Quantos minutos vão para decidir qual IA comprar? E quantos vão para discutir o que só a sua operação sabe, e ninguém consegue copiar?

 

Referências

  1. Estimativas de capex de hyperscalers para 2026, compiladas de J.P. Morgan Asset Management (Investment Outlook, junho de 2026), Goldman Sachs Research e Futurum Group. Faixa entre US$ 638 e 725 bilhões conforme metodologia e escopo de empresas (primária e secundária).
  2. Bank for International Settlements (BIS), Annual Economic Report 2026, junho de 2026. bis.org (primária).
  3. J.P. Morgan Asset Management, participação do capex de IA no fluxo de caixa operacional dos hyperscalers, junho de 2026 (primária).
  4. Allianz Trade, AI capex cycle monitor, 2026: exposição de serviços de TI e telecom a risco de substituição (secundária).
  5. Deere & Company, materiais de Investor Day e apresentações a investidores: meta de 10% de receita recorrente até 2030, máquinas conectadas e acres engajados. deere.com/investors (primária).
  6. Dados de renovação de assinaturas de software e usuários ativos do John Deere Operations Center, reportados por cobertura de mercado em julho de 2026 (secundária).
  7. WEG S.A., Release de Resultados do 2T26, divulgado em 22 de julho de 2026. ri.weg.net (primária).
  8. Reação de mercado à divulgação do 2T26 da WEG, InfoMoney, julho de 2026 (secundária).
  9. Manufacturing Leadership Council, pesquisa sobre adoção de physical AI na manufatura, 2026 (secundária).
  10. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Nova Indústria Brasil. gov.br/mdic (primária).
  11. IBGE, Pesquisa Industrial Mensal, Produção Física (PIM-PF), série histórica da indústria de transformação. sidra.ibge.gov.br (primária).
  12. Painel sobre política industrial e futuro da indústria brasileira, XIV Fórum de Lisboa, junho de 2026 (secundária).

Compartilhar:

Conselheiro, consultor de gestão estratégica, professor no MBA e no Pós-Tech da FIAP, mentor na ABStartups e Professional Services Director na Bolder. Coautor de "Governança Estratégica da Inovação: Liderando a Revolução Digital". Graduado em Administração Mercadológica com especialização em Gestão de Marcas (ESPM), MBA em Gestão Estratégica e Econômica de Empresas (FGV) e MBA em Business Innovation (FIAP).

Artigos relacionados

Executivos estão estudando contabilidade para chegar ao C-level. Eu fiz o caminho inverso.

O artigo reflete sobre a evolução da carreira financeira e sobre o papel da contabilidade como ferramenta de gestão, mostrando que lucro, sozinho, raramente conta a história completa de uma empresa. Mais do que interpretar demonstrações financeiras, entender balanços, fluxo de caixa e capital de giro tornou-se uma competência essencial para líderes que desejam crescer de forma sustentável, tomar decisões mais consistentes e enxergar riscos e oportunidades antes que eles apareçam nos resultados.

Segurança cibernética: o orçamento está protegendo os riscos certos?

O crescimento das ameaças digitais exige mais do que aumentar recursos destinados à segurança cibernética. Exige compreender quais riscos realmente importam para o negócio. O artigo explora por que as organizações precisam abandonar modelos baseados na inércia e adotar uma lógica orientada por risco para direcionar seus investimentos.

O Brasil tem muitos fundos ou muito risco? O que os números realmente mostram

O Brasil lidera os rankings globais em número de fundos de investimento, mas essa estatística nem sempre é interpretada corretamente. O artigo analisa a diferença entre quantidade de veículos e volume de patrimônio administrado, discutindo por que a elevada quantidade de fundos pode refletir características regulatórias e de transparência do mercado brasileiro, e não necessariamente riscos associados à opacidade ou à ocultação patrimonial. Mais do que um debate sobre números, a reflexão propõe uma análise crítica sobre regulação, rastreabilidade e o papel da indústria de fundos no financiamento da economia.

Liderança
4 de outubro de 2026 14H00
Por trás de uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira havia um método rigoroso de trabalho. A partir dessa provocação, o artigo discute por que organizações que desejam crescer de forma consistente precisam desenvolver algo que nenhuma tecnologia entrega pronta: critérios compartilhados, disciplina intelectual e capacidade coletiva de manter a qualidade em escala.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
8 de outubro de 2026 08H00
Empresas raramente entram em declínio de forma repentina. Primeiro perdem capacidade de adaptação, depois relevância e, por fim, espaço para investir na própria transformação. A partir do caso Abril, o artigo analisa como decisões sobre inovação, sucessão, crescimento e alocação de recursos influenciam a capacidade de uma organização sobreviver em ciclos de disrupção cada vez mais rápidos.

Pedro Fenati Bicalho - Sócio-diretor da FC Partners

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional
3 de outubro de 2026 14H00
Uma promoção, uma nova função, um momento difícil ou uma fase de adaptação podem mudar temporariamente a performance de qualquer profissional. A questão é saber se as organizações conseguem enxergar essas oscilações como parte da trajetória humana ou se passam a avaliar pessoas apenas pelo resultado do momento.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
Estratégia, Direito, Regulação & Compliance
3 de outubro de 2026 08H00
Em um momento em que a ONU afirma buscar a reconstrução da confiança internacional, o debate sobre a exclusão de Taiwan recoloca uma questão fundamental para a governança global: como defender representatividade, cooperação e direitos universais quando milhões de pessoas permanecem à margem de importantes fóruns internacionais? O artigo analisa as implicações jurídicas, geopolíticas e econômicas dessa controvérsia e seus impactos sobre a estabilidade global.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de outubro de 2026 14H00
Imagine carregar, em um único ambiente digital, diplomas, cursos, certificações e qualificações profissionais, todos verificáveis em segundos. O artigo explora como a combinação entre credenciais digitais, blockchain e identidade digital pode redefinir a forma como pessoas comprovam suas competências e como o país acompanha a evolução da educação e da empregabilidade.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por: POK
11 minutos min de leitura
Cultura organizacional
2 de outubro de 2026 08H00
Medo e pressão são ótimos para o resultado. Desde que você não precise das mesmas pessoas no trimestre seguinte.

Thais Requito - Palestrante, consultora e pesquisadora em saúde mental e trabalho sustentável

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Comunicação, Estratégia
1º de outubro de 2026 14H00
Palcos, entrevistas e redes sociais ampliam alcance, mas não constroem autoridade por si só. O artigo explora como empresas e executivos podem desenvolver influência genuína em um cenário em que a confiança se tornou mais pessoal, mais seletiva e cada vez mais vinculada à qualidade do pensamento que produzem e compartilham.

Caetano Tona - Fundador da Life Lab, TEDx Organizer e Professor de Comunicação na ESPM

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de outubro de 2026 08H00
A tecnologia está mudando a forma como criamos, trabalhamos e tomamos decisões. Mas existe uma diferença fundamental entre processar informação e acumular vivência. O artigo propõe uma reflexão sobre pensamento crítico, criatividade e o papel das chamadas “power skills” em um cenário onde a inteligência artificial amplia capacidades, mas não substitui experiências humanas.

Carol Martins - CEO da SOAP

Oferecido por SOAP
3 minutos min de leitura
Estratégia e Execução
30 de setembro de 2026 14H00
Poucos elementos são tão perigosos quanto um sistema que parece funcionar bem o suficiente para não ser questionado. No universo das parcerias, resultados de curto prazo podem mascarar desalinhamentos estratégicos, limitações de escala e modelos que já não atendem às necessidades futuras da empresa.

Juliana Tubino - Cofundadora do Ecossistema Octo e coautora do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo.

6 minutos min de leitura
ESG
30 de setembro de 2026 08H00
Dados recentes mostram uma queda significativa na representação de grupos historicamente sub-representados na comunicação das empresas. Mais do que uma questão de imagem, a mudança reacende discussões sobre consistência, coragem institucional e a capacidade das marcas de sustentar seus valores quando eles deixam de ser consenso.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução