Tecnologia & inteligencia artificial
7 minutos min de leitura

Abundância de inteligências, escassez de julgamento

O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.
Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B, +20 anos de experiência nos mercados de tecnologia da informação, computação em nuvem, cibersegurança, inteligência artificial e transformação digital. Ao longo de sua trajetória, liderou iniciativas de crescimento, go-to-market, desenvolvimento de negócios, vendas complexas. É Engenheiro Eletricista pela UNESP, pós-graduado em Administração de Empresas pela FGV EAESP e possui especialização em Inteligência Artificial e Estratégia de Negócios pelo MIT Sloan School of Management. Atua como membro de comitês estratégicos e conselhos consultivos, além de mentor, palestrante e professor de MBA, contribuindo para o desenvolvimento de lideranças e para a formação de organizações mais inovadoras, competitivas e preparadas para os desafios da nova economia.

Compartilhar:

Empresas medem quanto produzem com IA. Quase nenhuma mede quantas vezes ainda conseguem discordar dela. Em 2025, 88% das organizações declararam usar inteligência artificial em pelo menos uma função. No mesmo levantamento, o State of AI da McKinsey, apenas 39% conseguiram atribuir algum impacto ao EBIT, e a maior parte desse grupo relatou efeito inferior a 5%.

Cerca de 6% das empresas concentram os resultados que importam. Os números descrevem o momento melhor do que qualquer previsão: a inteligência ficou abundante, o resultado não. A explicação usual é maturidade. Falta tempo, falta dado, falta integração. É parcialmente verdadeira e completamente insuficiente, porque o que separa o grupo de alto desempenho, segundo a mesma pesquisa, não é acesso a modelos melhores. É o redesenho profundo dos fluxos de trabalho. E redesenhar fluxo significa decidir onde a máquina entra, o que ela resolve sozinha e o que permanece julgamento humano. O gargalo não está na produção de inteligência. Está no que fazemos com ela.

A escassez mudou de lugar

A cadeia dados, informação, conhecimento e sabedoria não é nova. Foi popularizada por Russell Ackoff no fim dos anos 1980 e virou vocabulário de gestão. O que mudou não é a forma da pirâmide, é a proporção: a tecnologia comprimiu as etapas de baixo, onde análises que exigiam semanas de consultoria hoje custam uma pergunta, e deixou as de cima praticamente intocadas. Julgamento, contexto, consequência e responsabilidade seguem no mesmo lugar.

O efeito prático é desconfortável. Uma organização pode multiplicar por dez sua capacidade de produzir análises sem melhorar em nada sua taxa de acerto em decisões. O excedente não desaparece: vira ruído, retrabalho e comitê. Durante muito tempo, o desafio foi encontrar informação suficiente para decidir bem. Hoje é o inverso. Equipe, especialistas externos, benchmarks, dois modelos distintos e, em breve, agentes autônomos vão produzir argumentos igualmente plausíveis sobre o mesmo problema. A pergunta deixa de ser “qual é a resposta?” e passa a ser “em qual inteligência devo confiar, neste contexto, para esta decisão?”. Gerar possibilidades é uma competência. Escolher entre elas é outra, e não há garantia alguma de que quem domina a primeira domine a segunda.

Minha experiência em decisões comerciais complexas me ensinou a desconfiar de uma confusão recorrente: aquilo que conseguimos medir nem sempre é aquilo que mais importa para decidir. Dados ampliam nossa capacidade de enxergar, mas não nos livram da responsabilidade de interpretar o que eles ainda não conseguem ver.

Quando o entusiasmo substitui a contestação

Aqui está a parte que raramente entra na pauta dos comitês de IA: mais respostas não deixam a decisão apenas mais difícil, podem deixá-la pior. O International AI Safety Report de 2026 documenta a persistência do viés de automação, a tendência de confiar excessivamente em saídas automatizadas e descartar informações que as contradizem. O mecanismo é explícito no relatório: o viés desestimula a verificação ativa e o raciocínio independente, corroendo justamente a competência que a organização precisaria preservar.

Um experimento citado no documento, com 2.784 participantes em uma tarefa assistida por IA, chegou a um resultado que deveria estar em toda pauta de conselho. As pessoas corrigiram menos as sugestões erradas em duas condições: quando corrigir exigia esforço adicional e quando tinham atitudes mais favoráveis à IA. Vale reler a segunda condição. Quanto mais uma organização cultiva entusiasmo por IA sem cultivar contestação, menor tende a ser sua capacidade de corrigir o próprio erro. É a inversão do senso comum corporativo. O programa de adoção cultural que não vem acompanhado de atrito desenhado não amplia o discernimento, reduz – com aprovação interna e ótimas métricas de engajamento.

Existe, portanto, uma métrica que quase ninguém acompanha e que diz mais sobre maturidade em IA do que qualquer painel de produtividade: a taxa de correção. Com que frequência alguém, nesta empresa, olha para uma recomendação bem formatada e diz que ela está errada – e é ouvido?

Curadoria é arquitetura de decisão, não escolha de ferramenta

O termo corre o risco de virar mais um rótulo elegante, então vale precisá-lo. Curar inteligências é decidir quais perspectivas são convocadas, quais são obrigadas a divergir, qual erro a organização está disposta a cometer e quem responde por ele. Em uma decisão estratégica relevante, o CFO enxerga risco e retorno, o comercial enxerga comportamento do cliente, a tecnologia enxerga viabilidade, as pessoas enxergam impacto cultural e a IA enxerga padrões que talvez ninguém tenha visto isoladamente.

Nenhuma dessas inteligências precisa estar errada. E nenhuma deveria ser suficiente sozinha. É nesse espaço entre elas que o julgamento humano se torna mais valioso e menos delegável: a liderança deixa de ser o ponto de concentração das respostas e passa a ser o ponto de orquestração, sabendo quais inteligências convocar, quais confrontar e quando não seguir nenhuma. Há uma objeção honesta a fazer, e ignorá-la enfraqueceria o argumento: e se a própria curadoria for automatizada? Boa parte será. Comparar respostas, detectar contradição e ponderar confiabilidade são tarefas técnicas, e tarefas técnicas migram. O que não migra é decidir qual erro é aceitável, não por limitação de capacidade, mas por atribuição de responsabilidade. Um modelo não é chamado ao conselho, não responde ao regulador e não convive com o time depois da decisão.

O mercado parece intuir isso. No estudo da McKinsey sobre confiança em IA publicado em 2026, cerca de dois terços dos respondentes apontaram segurança e risco como a principal barreira para escalar IA agêntica, à frente de incerteza regulatória e de limitações técnicas. A restrição declarada não é “a máquina não consegue” , e sim “não confiamos o suficiente para deixá-la decidir sozinha” .

No Brasil, essa conversa deixará de ser voluntária em breve. O PL 2338, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e em tramitação na Câmara, adota um modelo baseado em risco e prevê direitos de transparência, explicação e contestação para quem é afetado por decisões automatizadas. Explicar por que uma decisão foi tomada exige ter registrado como ela foi tomada. Poucas empresas registram.

Quatro regras que cabem na próxima reunião

Classifique a decisão antes de convocar a inteligência. Decisão reversível pede velocidade; decisão irreversível pede divergência obrigatória. Tratar as duas do mesmo jeito é desperdício em um caso e imprudência no outro. Exija divergência antes de convergência. Convoque ao menos uma inteligência com incentivo contrário à hipótese preferida. Se todas concordam rápido, o mais provável não é que estejam certas, e sim que compartilham a mesma premissa ou os mesmos dados.

Registre o que foi descartado, e por quê. O ativo da curadoria não é a resposta escolhida, é o histórico das rejeitadas. É o único registro que permite auditar julgamento, e não apenas resultado, meses depois – e é o que a regulação vai pedir. Meça a taxa de correção. Produtividade analítica é fácil de medir e quase irrelevante. Quantas recomendações foram contestadas, quantas foram revertidas e quanto tempo levou até a correção dizem se a organização está de fato ficando mais sábia.

A próxima escassez

O futuro provavelmente não será uma disputa entre inteligência humana e artificial. Essa moldura já ficou pequena. Teremos pessoas, modelos, agentes e especialistas operando juntos, como um ecossistema disponível sob demanda, e a vantagem não estará com quem acessa a maior quantidade deles, mas com quem souber combiná-los e tiver coragem de ignorar a resposta mais elegante.

Quando a inteligência vira infraestrutura, o valor se desloca para o que construímos sobre ela. E o que se constrói sobre ela não é mais análise: é a capacidade de discordar dela com método. Das decisões relevantes tomadas na sua organização nos últimos 90 dias, quantas você conseguiria reconstruir hoje – não a resposta escolhida, mas o motivo pelo qual as outras foram descartadas?

Compartilhar:

Artigos relacionados

Criatividade deixou de ser campanha. Tornou-se estratégia.

O artigo defende que a criatividade deixou de ser um recurso pontual para se tornar uma capacidade organizacional capaz de conectar tecnologia, inovação, cultura e estratégia, sustentando o crescimento contínuo e a relevância das empresas no longo prazo.

O que os lugares ensinam sobre controle

Marca de empresa é criada, marca de lugar é descoberta. Os gestores corporativos têm muito o que aprender com o “place branding” sobre gerir algo que não tem dono

Circulando pelo mundo, com sotaque brasileiro

Os padrões abertos já permitem que uma credencial de competência seja lida em qualquer país. O que ela significa depende de quem constrói o trilho por onde ela passa. Europa e Ásia já fizeram essa escolha, e o Brasil tem todas as peças para fazer a sua.

Organizações vivas: o que o levain ensina a quem lidera?

Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Bem-estar & saúde, Estratégia
17 de outubro de 2026 09H00
O artigo propõe uma reflexão sobre como energia, bem-estar, desenvolvimento de lideranças e autonomia deixaram de ser temas periféricos para se tornarem elementos centrais da infraestrutura necessária para escalar negócios sem esgotar os recursos humanos que tornam esse crescimento possível.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

6 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
16 de outubro de 2026 15H00
Algoritmos, preferências pessoais e vieses cognitivos influenciam diariamente a forma como enxergamos o mundo, muitas vezes sem que percebamos. Em tempos de polarização, excesso de informação e mudanças rápidas, cultivar curiosidade, escuta ativa e abertura para pontos de vista diferentes pode ser um diferencial importante para quem deseja construir decisões mais inteligentes e sustentáveis.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de outubro de 2026 09H00
Entre previsões apocalípticas e promessas de produtividade ilimitada, os dados mais recentes sobre inteligência artificial publicados pela Gartner, MIT e Frontiers contam uma história mais complexa.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
15 de outubro de 2026 14H00
Inspirado pela trajetória de Rafael Nadal retratada no documentário Rafa, o artigo propõe uma reflexão sobre a forma como empresas constroem seus planejamentos estratégicos.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

5 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
15 de outubro de 2026 08H00
Processos, políticas e estratégias não surgem sozinhos. Eles são resultado das escolhas feitas diariamente por quem exerce liderança e influencia decisões. Embora tenham sido concebidos há mais de dois mil anos, os Niyamas oferecem reflexões surpreendentemente atuais para organizações que desejam construir culturas mais conscientes, coerentes e alinhadas aos desafios do presente.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
14 de outubro de 2026 14H00
A tecnologia tem papel decisivo na aceleração da agenda climática, mas a mudança acontece quando informações se transformam em escolhas. Entre indicadores, investimentos e decisões estratégicas, são as pessoas que continuam definindo o ritmo e a profundidade da transformação sustentável.

Fernando Beltrame - CEO da Eccaplan

Oferecido por Eccaplan
3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
14 de outubro de 2026 08H00
Quando a Nintendo rompeu uma parceria estratégica com a Sony diante do mundo inteiro, o que parecia uma derrota humilhante tornou-se o ponto de partida para uma das maiores inovações da história dos negócios. Um caso exemplar de como líderes podem transformar atrito, oposição e conflito em crescimento.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

9 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
13 de outubro de 2026 14H00
Um teste aparentemente simples, aplicado em uma fábrica japonesa, revela por que algumas organizações encontram talentos onde outras enxergam apenas falta de experiência. O artigo oferece uma perspectiva provocativa sobre a escassez de talentos e sobre como empresas podem identificar capacidades que currículos nem sempre conseguem revelar.

Marta Ferreira

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
13 de outubro de 2026 08H00
Nem sempre as pessoas que mais contribuem para os resultados são aquelas que aparecem melhor nos indicadores individuais. Em muitas organizações, existe um trabalho invisível que conecta equipes, transfere conhecimento, reduz conflitos e faz o restante do sistema funcionar. O artigo propõe uma reflexão sobre os limites dos modelos tradicionais de avaliação de desempenho e alerta para um risco pouco percebido: demitir quem sustenta as relações e a colaboração de um time pode custar muito mais do que qualquer planilha é capaz de mostrar.

Átila Persici Filho - Consultor de gestão estratégica, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e conselheiro de inovação

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
12 de outubro de 2026 18H00
Por trás de cada iniciativa de inteligência artificial existe uma negociação raramente explicitada. Compartilhar conhecimento, revisar respostas, adaptar processos e sustentar a transição exige tempo, esforço e exposição. Antes de atribuir a resistência à mudança a uma questão cultural, talvez seja preciso entender quais incentivos estão sendo oferecidos para que as pessoas escolham cooperar.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

9 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução