Lifelong learning
6 minutos min de leitura

Aprender não é fazer um curso: está mais para descascar uma cebola

Enquanto tratarmos aprendizagem como formato, continuaremos acumulando cursos sem mudar comportamentos. Aprender é processo e não se resume em um evento.
Empreendedora, consultora e cofundadora da People Strat. Isabela conecta neurociência, comportamento e tecnologia para desenvolver pessoas e culturas mais humanas e inovadoras. Embaixadora de Inovação dos Hubs Learning Village e Porto Maravalley; e Top 3 Mulheres em Tecnologia pela Meta Ventures, acredita que aprender é o maior ato de liberdade e transformação.

Compartilhar:

O equívoco do aprendizado como evento

Quando falamos em aprendizagem no contexto corporativo, quase sempre começamos pelo lugar errado. A pergunta predominante não é “o que precisa mudar na forma como pensamos?”, mas “qual curso devemos contratar?”. O aprendizado, por todos os envolvidos, é tratado como formato, como entrega, como artefato: um workshop, uma trilha, um MBA, uma palestra.

É possível que alguém questione: mas não é na prática que a “coisa” acontece? Não é no curso, na experiência concreta, que o aprendizado se materializa?

Em parte, sim. Mas não exatamente. E é justamente essa nuance que quero explorar aqui.

Aprender não começa no curso – ou em qualquer outro artefato escolhido. O curso é apenas a camada mais visível de um processo muito mais profundo e, paradoxalmente, pouco trabalhado. Talvez seja por isso que tantos profissionais participem de treinamentos, acumulem certificações, ampliem repertório técnico – e ainda assim sintam que evoluem menos do que poderiam. A execução até muda, mas frequentemente apenas na semana seguinte ao treinamento. 

Atuando há 6 anos diretamente com essa área, vejo que o problema raramente está na qualidade do conteúdo. Está, na minha opinião, na superficialidade da abordagem – em trabalhar apenas a camada visível, aplicável, do aprender.

A lógica das camadas: aplicável, intencional e mental

Recentemente, ao desenhar um treinamento sobre a habilidade de aprender para um grupo de líderes, me ocorreu uma analogia que achei interessante – o aprendizado é como uma cebola, ele se revela por camadas, e a aplicável é só uma delas. Resolvi compartilhar, pois acho que pode ajudar a enxergar a aprendizagem corporativa de uma forma mais completa e eficaz. Eu explico.

A camada mais externa da cebola, no contexto do aprender, é a aplicável. É o curso, o livro, o treinamento, a prática, o erro cotidiano, a conversa estratégica. É onde o aprendizado ganha forma concreta e sem essa camada, não tem muita experiência sobre a qual refletir. Porém, essa camada não se sustenta sozinha.

A segunda camada é a intencional. Ela responde às perguntas que antecedem qualquer aprendizagem significativa: por que aprender isso? Para quê? Que problema real esse conhecimento resolve na minha atuação? A teoria da andragogia, desenvolvida por Malcolm Knowles, sustenta que adultos aprendem melhor quando percebem relevância imediata e têm autonomia no processo. A ausência de sentido reduz o engajamento cognitivo e a informação pode até ser registrada, mas dificilmente será integrada. E integrar é diferente de acumular. Integrar exige contextualização, confronto de ideias, discordância produtiva – seja com outras pessoas, seja consigo mesmo. Exige conectar o novo ao repertório existente, produzindo reorganização interna.

A camada intencional também envolve critério de transferência: como saberei que aprendi? Que mudança concreta deve aparecer na minha execução? Sem esse filtro, o aprendizado vira puro consumo, e a sensação de produtividade mascara o desenvolvimento real de competências.

Mas há ainda uma camada mais profunda, frequentemente negligenciada. A camada mental.

Ela diz respeito à disposição interna para aprender. À crença na própria capacidade de desenvolvimento. À abertura para revisar certezas. Carol Dweck descreve esse fenômeno como mindset de crescimento: a convicção de que habilidades podem ser desenvolvidas por meio de esforço, estratégia e feedback.

Por aqui, acrescentamos dois elementos fundamentais a essa camada: curiosidade e adaptabilidade. Curiosidade para explorar o desconhecido sem defensividade. Adaptabilidade para sustentar o desconforto que toda mudança implica.

É aqui que a neurociência reforça o papel da camada mental. Como já argumentei em artigos passados, aprender implica reorganização neural. Sinapses se fortalecem por meio da repetição e outras conexões se enfraquecem por desuso aprendido ou poda sináptica. Ainda, novos circuitos são formados quando enfrentamos novos desafios que exigem de nós adaptação. 

Contudo, essa reorganização depende de atenção, motivação, engajamento e segurança emocional. Sem abertura mental, o cérebro tende a reforçar circuitos existentes em vez de construir novos. Em outras palavras: sem disposição interna, não há prática – por mais sofisticado que seja o artefato – que sustente a transformação real.

O custo de focar apenas na camada aplicável

Quando as camadas mental e intencional não são exploradas, o aprendizado permanece superficial. Ele acontece durante o workshop, na energia da sala, na lista de “três ações que vou implementar” – e se encerra ali.

Não é sustentável. Não gera mudança consistente de hábito ou comportamento, porque não houve revisão de crenças, questionamento de pressupostos ou reorganização de padrões de pensamento. Todo o processo descrito de mudanças sinápticas não acontece. Diversas abordagens da psicologia comportamental indicam que mudanças duradouras envolvem alinhamento entre identidade, crenças e ação. O comportamento isolado tende a regredir ao padrão anterior quando não há transformação nas camadas mais profundas.

É por isso que a metáfora da cebola faz sentido, e mais, as camadas não são uma escada linear, mas um processo dinâmico. A mentalidade abre espaço para novas práticas, a prática alimenta a intenção, a intenção reorganiza a mentalidade e influencia positivamente a prática seguinte. Quando as camadas internas são negligenciadas, a prática se reduz à aplicação pontual. E a aplicação pontual, por si só, não é aprendizagem. Não altera padrões de decisão. Não sustenta mudança de comportamento.

Implicações para liderança e organizações

Então, se aprender é um processo em camadas e dinâmico, o papel da liderança e das áreas de desenvolvimento não deveria se limitar a oferecer experiências aplicáveis e lineares. Oferecer cursos é importante – mas insuficiente. É preciso criar condições para que intenção e mentalidade também sejam mobilizadas. E, talvez, isso comece mudando as perguntas.

Antes de decidir “qual curso contratar”, a pergunta deveria ser: o que precisa mudar na forma como pensamos? Que decisões estão se repetindo? Que padrões estão nos limitando? Que problema real de negócio queremos transformar? Aí sim a gente começa a trabalhar as várias camadas, porque já sabemos que desenvolvimento, quando desconectado do problema real, vira só mais um compromisso na agenda que faz as pessoas torcerem o nariz. Quando conectado com o negócio, vira estratégia. Talvez esse seja o caminho para um RH realmente mais estratégico – que tanto desejamos todos que trabalham com pessoas e organizações.

Criar ambientes que favoreçam aprendizagem em camadas implica incentivar reflexão antes da ação, conectar teoria à prática com critérios claros de aplicação, abrir espaço para questionamento mental e intencional e, sobretudo, legitimar o não saber como ponto de partida legítimo para evolução.

Quando isso acontece, o artefato em si deixa de ser o centro. O curso pode existir – e deve – mas como ferramenta, não como fim. Pode ser formal ou informal. Pode ser um programa estruturado, uma simulação, uma conversa estratégica, um erro bem trabalhado. O formato deixa de ser a pergunta principal. A pergunta passa a ser outra: em que camada estamos operando com essa iniciativa? Estamos apenas acumulando práticas da camada visível, ou estamos alinhando intenção e mentalidade para que as práticas gerem transformação real?

Potencializar o aprender nas organizações definitivamente não é adicionar algo novo à agenda das pessoas. Acredito mais na teoria de que seja ajudá-las a reorganizar a forma como pensam, decidem e executam. É mexer nas três camadas da cebola e não desperdiçar nenhuma.

Compartilhar:

Empreendedora, consultora e cofundadora da People Strat. Isabela conecta neurociência, comportamento e tecnologia para desenvolver pessoas e culturas mais humanas e inovadoras. Embaixadora de Inovação dos Hubs Learning Village e Porto Maravalley; e Top 3 Mulheres em Tecnologia pela Meta Ventures, acredita que aprender é o maior ato de liberdade e transformação.

Artigos relacionados

O maior prejuízo de um ataque cibernético raramente está onde as empresas costumam procurar

A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Quando a IA assume as tarefas, a liderança ganha espaço para cuidar das pessoas

À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

A comunicação é um teto de vidro que pode afastar as mulheres da liderança

A busca por equidade de gênero não se encerra quando as mulheres conquistam um assento nas mesas de decisão. Ela continua na forma como suas ideias são recebidas, valorizadas e transformadas em influência. Ao discutir comunicação, liderança e protagonismo, o artigo mostra por que fortalecer a voz feminina é também uma estratégia para ampliar diversidade, inovação e resultados nas organizações.

Entre viralizar e ser lembrado: O que acontece quando o algoritmo assume a estratégia?

As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

Acordo Mercosul e União Europeia representa um novo ciclo de crescimento para o franchising brasileiro

A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura um novo cenário para as redes de franquias brasileiras. Com redução gradual de tarifas, acesso mais facilitado a tecnologias e insumos, além da possibilidade de expansão para novos mercados, o franchising passa a enxergar na internacionalização uma oportunidade concreta de crescimento. Ao mesmo tempo, a chegada de concorrentes europeus exigirá das marcas nacionais mais inovação, eficiência e capacidade de adaptação para competir em um ambiente cada vez mais globalizado.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
20 de agosto de 2026 08H00
Embora as máquinas assumam atividades repetitivas e analíticas, competências como liderança, criatividade, pensamento crítico, negociação e julgamento continuam sendo essencialmente humanas. O desafio das empresas será criar ambientes em que essas capacidades atuem de forma integrada para impulsionar inovação e crescimento.

Ricardo Scheffer - CEO da SONDA no Brasil

3 minutos min de leitura
User Experience, UX, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de agosto de 2026 14H00
Consumidores estão mais exigentes, mais conectados e menos tolerantes a experiências frustrantes. Ao mesmo tempo, os avanços em inteligência artificial estão permitindo que startups evoluam da simples automação para modelos capazes de interpretar contexto, tomar decisões e resolver demandas de forma autônoma. O resultado é uma nova lógica de crescimento baseada na qualidade da resolução, e não apenas na velocidade do atendimento.

Alan Schulte - Vice-presidente de Vendas para Startups e PMEs da Zendesk na América Latina.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de agosto de 2026 08H00
Enquanto o Congresso debate mudanças na jornada de trabalho, empresas já precisam lidar com uma pergunta prática: como reorganizar pessoas, escalas e recursos sem comprometer produtividade, atendimento e sustentabilidade financeira? Neste cenário, dados, planejamento e governança tornam-se ferramentas essenciais para transformar incerteza regulatória em vantagem competitiva.

Marcelo Gomes - CEO da Nexti

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de agosto de 2026 14H00
Em mercados cada vez mais competitivos, escolher uma máquina apenas pelo menor preço pode significar abrir mão de produtividade, automação e eficiência operacional. O artigo propõe uma mudança de perspectiva: substituir a lógica do custo inicial pela análise do valor que o investimento é capaz de gerar para a empresa ao longo dos anos.

Fábio Kreutzfeld - CEO da Delta Máquinas Têxteis

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de agosto de 2026 08H00
Os profissionais de finanças foram treinados para dominar processos, consolidar informações e produzir análises complexas. Mas, em um mundo onde a inteligência artificial faz isso em segundos, a vantagem competitiva passa a estar em outro lugar: na capacidade de transformar informação em contexto, formular perguntas estratégicas e tomar decisões que nenhuma máquina consegue assumir sozinha.

Talita Braga - Diretora Executiva de Finanças da Infor na América Latina

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
17 de agosto de 2026 18H00
Profissionais maduros seguem acumulando repertório, capacidade de julgamento e conhecimento organizacional, mas frequentemente enfrentam uma perda silenciosa de reconhecimento e pertencimento. Ao abordar o conceito de envelhescência, o artigo discute como profissionais experientes podem perder espaço simbólico mesmo permanecendo altamente qualificados e por que reconhecer, valorizar e integrar o repertório acumulado se tornou um desafio estratégico para empresas que desejam preservar conhecimento, fortalecer a sucessão e construir culturas verdadeiramente intergeracionais.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Finanças
17 de agosto de 2026 14H00
Hiperpersonalização, agentes inteligentes, analytics em tempo real e IA generativa já deixaram de ser tendências isoladas e começam a formar uma nova arquitetura para o setor financeiro. O desafio das lideranças passa a ser transformar essas tecnologias em capacidades organizacionais escaláveis, seguras e conectadas aos objetivos estratégicos do negócio.

Diego Souza - Principal Technical Manager no CESAR, e Maria Tereza Nagel - Gerente de Projetos no CESAR

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de agosto de 2026 08H00
À medida que algoritmos passam a influenciar decisões cada vez mais relevantes, cresce uma questão que conselhos e lideranças não podem mais ignorar: quanto poder está sendo delegado à inteligência artificial sem supervisão adequada? O artigo propõe uma reflexão sobre a necessidade de incorporar a IA à agenda de governança corporativa.

Eliana Camejo - Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli e conselheira de Administração pelo IBGC

3 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças
16 de agosto de 2026 15H00
O envelhecimento populacional, a incorporação de novas tecnologias e o aumento das demandas assistenciais estão pressionando os custos da saúde em níveis inéditos. Mais do que analisar despesas, entender a formação do orçamento hospitalar tornou-se uma competência estratégica para operadoras que buscam conciliar qualidade assistencial, eficiência operacional e sustentabilidade de longo prazo.

Anderson Farias - CEO da TopSaúde Hub

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
16 de agosto de 2026 10H00

Denise Joaquim Marques - Consultora internacional de negócios, especialista em Vendas e Marketing

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo