Empreendedorismo, Marketing & growth
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As edtechs brasileiras aprenderam a crescer sem investimento. Mas até onde isso pode levá-las?

Dois terços das edtechs brasileiras nunca receberam investimento externo. Ainda assim, muitas já superaram a fase inicial, conquistaram clientes e validaram seus modelos de negócio. O artigo propõe uma reflexão sobre como a escassez de capital ajudou a formar startups mais resilientes e eficientes, ao mesmo tempo em que levanta uma questão estratégica para o próximo ciclo do setor: como transformar capacidade de sobrevivência em escala, internacionalização e crescimento sustentável.
CEO da ABStartups e uma das principais vozes na promoção do empreendedorismo e da inovação no Brasil. À frente da associação, lidera iniciativas voltadas ao fortalecimento do ecossistema de startups, com foco no desenvolvimento de comunidades, ecossistemas regionais e na conexão entre empreendedores, investidores e parceiros estratégicos. Também atua na coordenação de programas de embaixadores, mentorias e relacionamento com associados, além de ser porta-voz do StartupON, evento que impulsiona a inovação em diferentes regiões do país.

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Há uma narrativa bastante conhecida no ecossistema de startups: para crescer rápido, é preciso captar investimento. Rodadas são frequentemente tratadas como uma espécie de certificado de sucesso. Quanto maior o cheque, maior parece ser a validação do negócio. Mas os dados das edtechs brasileiras nos convida a questionar essa lógica: 66,3% das edtechs brasileiras nunca receberam qualquer tipo de investimento. À primeira vista, o número parece revelar uma deficiência do ecossistema, marcada pelo baixo acesso à capital. Mas talvez ele conte uma história diferente: a de empresas que aprenderam a construir negócios antes mesmo de aprender a captar.
 

Isoladamente, esse dado poderia ser interpretado como sinal de um ecossistema com pouco acesso a capital. Mas, quando cruzamos essa informação com outros indicadores, surge uma leitura mais interessante: se dois terços dessas empresas nunca receberam investimento, como elas continuam existindo?
 

Quase metade, 44,6%, está no mercado há mais de cinco anos. Apenas 7,7% estão em ideação, enquanto 29,5% estão em operação, 26,2% em tração e 15,7% em escala. Ou seja, estamos falando, em boa medida, de empresas que ultrapassaram a fase da promessa e estão enfrentando o mercado real.
 

Talvez a escassez de capital tenha produzido uma consequência pouco discutida: essas startups precisam aprender cedo a transformar inovação em negócio. Isso aparece na própria estrutura das empresas. Mais da metade das edtechs, 51,4%, opera com equipes de até cinco pessoas, enquanto 22,8% possuem entre seis e dez colaboradores. Ao mesmo tempo, o SaaS representa 42% dos formatos de comercialização, enquanto o B2B é o principal tipo de cliente para 38,1% das empresas e o B2B2C para outras 32,7%. São características que sugerem um ecossistema acostumado a fazer muito com pouco: estruturas enxutas, modelos recorrentes e busca por clientes capazes de gerar receita.
 

Há ainda outro dado revelador: 59,7% das edtechs já pivotaram seus negócios. Pivotar não significa fracassar. Muitas vezes significa exatamente o contrário: reconhecer que uma hipótese não funciona, escutar o mercado e mudar antes que seja tarde demais. Em um ambiente de recursos escassos, essa capacidade de adaptação deixa de ser apenas uma característica desejável e passa a ser uma questão de sobrevivência.
 

Até aqui, poderíamos concluir que está tudo bem. Mas não está. Existe uma diferença importante entre conseguir sobreviver sem capital e conseguir escalar sem capital. E talvez seja justamente aí que esteja o próximo desafio das edtechs brasileiras.
 

O novo estudo da ABStartups mostra que somente 15,7% estão na fase de escala. Quando olhamos para o mercado internacional, a distância é ainda mais evidente: apenas 11% já internacionalizaram seus negócios, embora 61,3% afirmam pensar em internacionalização. Entre as empresas que receberam investimento, somente 3,3% tiveram recursos provenientes de outro país. Temos, portanto, uma aparente contradição: empresas que sobreviveram, encontraram clientes, ajustaram seus modelos e demonstraram capacidade de execução, mas que ainda encontram dificuldade para transformar essa maturidade em escala.
 

É aqui que precisamos mudar a pergunta. Em vez de questionar por que tantas edtechs brasileiras não receberam investimento, talvez devêssemos perguntar: quantas empresas que já provaram sua capacidade de sobreviver estão deixando de crescer pela ausência dos recursos necessários para dar o próximo salto?
 

Investimento não deve ser tratado como sinônimo de sucesso. Uma startup que levanta milhões e não constrói um negócio sustentável não é necessariamente mais madura do que outra que cresceu com receita própria. Mas o contrário também é verdadeiro: não podemos romantizar o bootstrapping.
 

Capital pode significar contratar talentos, investir em tecnologia, desenvolver produtos, acelerar a aquisição de clientes, entrar em novos mercados e competir internacionalmente. Em determinados estágios, eficiência e capital não são caminhos opostos. São complementares.
 

As edtechs brasileiras já demonstraram que conseguem fazer muito com pouco. Construíram negócios enxutos, aprenderam a pivotar, encontraram mercado e atravessaram anos decisivos sem depender necessariamente de grandes rodadas. Talvez a próxima prova seja outra. Não precisamos mais descobrir se essas empresas conseguem sobreviver sem investimento. Os dados mostram que muitas conseguem. O desafio agora é criar condições para que empresas que já provaram sua capacidade de execução possam transformar eficiência em crescimento, presença internacional e impacto.
 

Afinal, sobreviver com pouco é uma demonstração de resiliência. Conseguir transformar essa resiliência em escala será a verdadeira medida de maturidade do próximo ciclo das edtechs brasileiras.

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