Inovação & estratégia
4 minutos min de leitura

Como a inteligência artificial pode destravar R$ 2,5 trilhões em crédito

Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.
Co-Fundador e CEO da Delend, plataforma de infraestrutura de inteligência de crédito e cobrança impulsionada por Modelos e Agentes de IA.

Compartilhar:

Há um paradoxo no crédito para pequenas e médias empresas brasileiras. O sistema financeiro tem recursos para emprestar, mas ainda encontra dificuldade para distinguir, com precisão, quais empresas representam risco e quais apenas não conseguem demonstrar seu potencial. O resultado é conhecido: cerca de R$ 2,5 trilhões em demanda por crédito permanecem sem atendimento.

O Banco Central chama esse fenômeno de assimetria de informação. Eu prefiro defini-lo como um problema de leitura. E a principal lição que a inteligência artificial generativa trouxe para o mercado de crédito é justamente essa: talvez estivéssemos tentando ler os sinais errados.

Quando uma empresa vende a prazo, ela emite uma duplicata mercantil. Com a chegada da duplicata escritural, prevista pela Lei 13.775/2018, esses títulos passam a ser registrados eletronicamente, ampliando a disponibilidade e a qualidade das informações sobre as operações comerciais. Cada registro reúne valor, prazo, comprador, vendedor e, principalmente, seu desfecho: pagamento em dia, atraso ou inadimplência.

As duplicatas tem sua própria linguagem

O ponto mais interessante é que uma duplicata isolada diz pouco. Mas, observadas em sequência, elas revelam padrões de comportamento. Assim como palavras formam frases, transações constroem uma linguagem financeira, marcada por recorrência, sazonalidade e hábitos de pagamento. Foi essa analogia que mudou a forma como passamos a enxergar a análise de crédito.

Os modelos de linguagem que popularizaram a IA generativa funcionam prevendo qual será a próxima palavra de uma sequência. Se uma sucessão de duplicatas também pode ser entendida como uma sequência estruturada, por que não aplicar a mesma lógica para antecipar o comportamento da próxima operação?

Essa abordagem permite substituir parte da lógica tradicional, baseada em pontuações estáticas e informações agregadas, por inferências construídas a partir do histórico transacional da própria empresa. Em vez de perguntar quem aquela empresa é segundo bases externas, passa-se a observar como ela realmente se comporta ao longo do tempo. Entram os modelos hyper personalizados.

Treino é treino, jogo é jogo

A hipótese foi testada em um modelo fundacional de inteligência artificial treinado exatamente como o ChatGPT e Claude são treinados, e ao longo desse processo, três aprendizados chamaram a minha atenção e dos nossos cientistas de dados.

O primeiro é que, em crédito, errar para o lado da cautela pode ser uma virtude. O modelo apresentou uma tendência natural de superestimar atrasos. Em problemas estatísticos isso poderia ser interpretado como um viés. Em operações financeiras, porém, o custo de aprovar um inadimplente costuma ser muito maior do que o de recusar uma operação saudável. A métrica de engenharia nem sempre coincide com a métrica do negócio. Vale ressaltar: no crédito, o ganho limita-se à margem do spread; contudo, em caso de inadimplência, o prejuízo é total, abrangendo 100% do valor principal somado aos custos da operação.

O segundo é que modelos maiores nem sempre entregam resultados melhores. Ao ampliar significativamente o número de parâmetros, os ganhos esperados praticamente desapareceram. Em aplicações especializadas, a inteligência de ponta depende menos do tamanho do modelo e mais da qualidade dos dados utilizados em seu treinamento.

O terceiro é que mesmo empresas sem histórico suficiente já apresentam sinais úteis para análise. Embora esses casos ainda exijam cautela e outras camadas de avaliação, os resultados mostram que dados transacionais básicos conseguem oferecer uma capacidade preditiva relevante. À medida que novas operações acontecem, o próprio histórico fortalece a precisão das previsões.

A Inteligência Artificial transforma o mercado

Existe uma transformação mais ampla acontecendo. As fintechs mais inovadoras deixaram de tratar inteligência artificial como um recurso adicional e passaram a reconstruir sua arquitetura em torno dela. A aquisição da Hyperplane pelo Nubank é um dos sinais desse movimento. Crédito deixa de ser apenas um produto financeiro e passa a ser, antes de tudo, um problema de inteligência.

Naturalmente, esses resultados ainda precisam ser acompanhados ao longo de diferentes ciclos econômicos e comparados continuamente com outras metodologias. Transparência sobre essas limitações é parte indispensável da construção de confiança em qualquer sistema de decisão baseado em IA.

Durante décadas, o mercado tratou a falta de informação como um problema inevitável. Talvez nunca tenha sido. As duplicatas sempre carregaram sinais sobre o comportamento financeiro das empresas; o que faltava era tecnologia capaz de interpretá-los, em tempo real.

Se a duplicata escritural inaugura uma nova infraestrutura para o crédito no Brasil, a inteligência artificial pode oferecer a camada de interpretação que faltava. A combinação dessas duas transformações tem potencial para reduzir a assimetria de informação, ampliar a previsibilidade das operações e ajudar a destravar parte dos mais de R$ 2 trilhões em crédito que hoje continuam fora do alcance das pequenas e médias empresas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Geopolítica da transição: o país precisa transformar potencial em influência

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos – energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva – que pode transformar sua posição internacional.

Três hipóteses para redesenhar o primeiro degrau da carreira

A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

A meta não assusta. O comportamento do líder, às vezes, sim.

Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

7 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
28 de agosto de 2026 07H00
O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Ana Carolina Viana - Vice-Presidente de Operações Industriais da Braskem no Brasil

3 minutos min de leitura
Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
27 de agosto de 2026 15H00
Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
27 de agosto de 2026 08H00
O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

Jefferson Nesello - Cofundador & Managing Partner na Zaxo M&A Partners e Conselheiro de Empresas

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução