Estratégia, Liderança, Marketing & growth
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Crescer receita é importante, mas não define o valor de uma empresa

Em meio à obsessão por crescimento, este artigo propõe uma mudança de perspectiva: não é o quanto a empresa cresce que define seu sucesso, mas sua capacidade de transformar expansão em valor real e sustentável ao longo do tempo.
Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado em uma multinacional do segmento de controle de acessos, com experiência consolidada em grandes empresas globais. É MBA em Marketing, certificado PMP e Certified Pricing Professional (CPP), além de fundador do grupo Attitude Pricing (Comunidade Brasileira de Profissionais de Pricing). Autor de artigos na Professional Pricing Society (PPS), já participou de debates internacionais como o podcast Impact Pricing, de Mark Stiving, e o Pricing Conectado 2024, promovido pela InfoPrice.

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O crescimento que precisa ser qualificado

Crescer sempre foi um objetivo central nas empresas. Aumentar receita, ganhar escala e expandir participação de mercado continuam sendo sinais relevantes de desempenho. Mas, isoladamente, olhar apenas para o crescimento não é suficiente.

O ponto central não é quanto a empresa cresce, mas sim como ela cresce. Isso porque é possível expandir faturamento de forma consistente e, ao mesmo tempo, enfraquecer a estrutura econômica do negócio. Quando isso acontece, o crescimento deixa de ser um indicador de força e passa a esconder um problema mais profundo: a incapacidade de transformar vendas em valor real.

Disciplina na proteção do valor

Se o crescimento, por si só, não garante valor, o primeiro passo é evitar que o valor gerado seja perdido na operação. Isso exige disciplina. Políticas claras, governança e consistência na execução fazem a diferença, tanto na qualidade da receita quanto no controle das despesas. Decisões de preços, descontos e despesas operacionais precisam estar alinhadas a critérios claros de retorno. Quando isso não acontece, a pressão do mercado é transferida para o resultado, na forma de compressão de margem e aumento de custos e despesas sem controle ou contrapartidas claras.

O efeito é gradual. A empresa continua vendendo, mas a rentabilidade se deteriora. Descontos deixam de ser exceção e viram rotina, enquanto despesas crescem sem critério. Pequenas decisões, somadas, reduzem a capacidade de gerar resultado de forma consistente. Sem essa base, o crescimento passa a ser financiado pela própria margem e pela ineficiência de custos.

Criar valor é ir além do crescimento

Se proteger valor é o primeiro passo da agenda de gestão de uma empresa, o segundo e mais importante passo é entender o que realmente significa criar valor por meio da empresa. Crescer receita e gerar lucro são importantes, mas não são suficientes para responder à pergunta central:

“O negócio está gerando valor acima do capital investido e do custo de oportunidade dos investidores?”

Toda empresa opera com recursos que têm custo e expectativa de retorno. Criar valor significa superar esse custo e remunerar adequadamente o capital investido. Isso muda a lógica da gestão: o foco deixa de ser o tamanho do resultado e passa a ser a qualidade desse resultado.

Essa mudança de lógica traz implicações diretas para a forma como as decisões são tomadas. Crescimento é uma alavanca estratégica, mas não o objetivo principal, e passa a ser avaliado pela sua capacidade de gerar retorno consistente. Investimentos, projetos e iniciativas comerciais devem ser analisados não apenas pelo impacto em receita, mas pelo valor que agregam ao negócio.

O papel da liderança

Essa mudança não ocorre por falta de informação. A maioria dos líderes conhece os conceitos. O desafio está em executar, e, principalmente, sustentar decisões ao longo do tempo. Criar valor depende de como os recursos são alocados. Decisões de investimento, nível de alavancagem e gestão do balanço são determinantes para a eficiência do negócio e sua capacidade de gerar caixa.

Não se trata apenas do nível de resultado operacional (EBIT), mas da qualidade desse resultado. Projetos precisam gerar valor presente positivo (VPL). O capital investido deve ser remunerado acima do seu custo (ROIC). E, sobretudo, o negócio precisa se traduzir em geração consistente de caixa livre (FCF – Free Cash Flow).

A agenda de criação de valor

Com isso, a discussão deixa de ser operacional e passa a ser estrutural. Criar valor exige coerência entre diferentes dimensões do negócio: posicionamento, proposta ao cliente, modelo comercial, alocação de recursos e execução. Não é uma ação isolada, mas um conjunto de decisões que precisam caminhar na mesma direção.

Valor não é consequência automática do crescimento, e sim resultado de escolhas consistentes ao longo do tempo. Empresas que conseguem alinhar crescimento com captura de valor constroem vantagem competitiva real. As que não conseguem entram em ciclos de ajuste, tentando corrigir no resultado aquilo que não foi sustentado em seu planejamento estratégico.

A agenda que define o futuro

Conforme apresentado neste artigo, crescer é importante, mas não suficiente. Empresas relevantes e sustentáveis são aquelas que conseguem transformar crescimento em valor consistente ao longo do tempo e gerar retorno acima das expectativas do mercado.

Isso exige escolhas claras: onde competir, como crescer e, principalmente, como alocar capital de forma estratégica. Proteger valor continua sendo necessário, mas não é o diferencial. O diferencial está na criação de valor.

Fica, portanto, um convite à liderança executiva das empresas: reorganizem suas agendas. Não dediquem tempo apenas reagindo à pressão do curto prazo para evitar perdas. Dediquem mais tempo a decisões que ampliem o retorno sobre o capital, com disciplina e consistência.

Empresas que prosperam colocam a criação de valor no centro de suas decisões estratégicas.

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