Uncategorized

Liderança coevolutiva: uma nova-velha forma de liderar

Quem quer funcionários produtivos no mundo 4.0 deve liderá-los resgatando valores do passado e, ao mesmo tempo, evoluindo com eles e as tecnologias – a fim de que todos olhem para o futuro. É preciso atuar em três dimensões, aqui descritas passo a passo
Derson Lopes-Jr. é doutorando da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (FCA-Unicamp), practice leader da VitalSmarts Brasil e da Gott Desenvolvimento, e coordenador do MBA em liderança do Unasp EAD, ligado ao Centro Universitário Adventista. Paulo Hayashi Jr. é docente e pesquisador do doutorado em administração da Unicamp, doutor em administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestre em administração pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Compartilhar:

Você já customizou um nome de jogador na chuteira da Nike? O nome vem impresso, fazendo parte do produto, por menos de R$ 10. Já de maneira mais radical, a Adidas começou a oferecer em 2019 um tênis com solado 100% adaptado ao formato dos pés dos clientes, por meio de tecnologia de impressora 3D à base de carbono. Muitos estão olhando para a customização em massa viabilizada pela tecnologia e vendo os produtos que podem fazer. Nós estamos olhando para a customização em massa e pensando em que tipo de liderança será necessário para as empresas aproveitarem essas novas oportunidades garantindo a produtividade. 

Nesse novo cenário, acreditamos no conceito que chamamos de “liderança coevolutiva” – a liderança que resgata valores do passado e evolui em conjunto não só com o avanço tecnológico, como a customização em massa, mas, principalmente, com o novo tipo de colaborador das organizações. Para conseguir o feito, tal liderança tem de ser composta por três dimensões: visão, convicção e motivação. 

Na liderança coevolutiva, a visão oferece a direção a ser seguida, a convicção faz os colaboradores se unirem- e se movimentarem em busca do que foi planejado, e a motivação representa dois aspectos – ajuda o colaborador com as dificuldades enfrentadas e não os atrapalha, o que significa determinar a velocidade e o ritmo de execução. 

**VISÃO COMPARTILHADA**

Mais do que nunca, olhar para o futuro se torna uma atividade crítica para a sobrevivência do negócio. O futuro tem de ir sendo construído paulatinamente, à medida que novas tecnologias vão surgindo e novos concorrentes vão desembarcando em seu mercado. Com isso, será necessário organizar de forma “meio que frouxa”, uma tradução livre de Karl Weick, os integrantes da organização. Esse tipo de organização se caracteriza por ser mais flexível e mais adaptável às mudanças do que uma organização rigidamente organizada, tal como a estrutura militar ou a de muitas organizações religiosas, por exemplo. Só que organizações meio que frouxamente apertadas devem buscar a produtividade necessária, por meio de eficiência, sinergia e velocidade.

A visão não pode, na liderança coevolutiva, estar restrita à mente de poucas pessoas na organização; deve ser corretamente compartilha­da ou nunca será realizada. A visão compartilhada demonstra para todos o que queremos criar em nosso trabalho e, assim, libera a energia e a coragem das pessoas, funcionando como uma faísca que acende a chama interior de cada um, para usar as palavras de Peter Senge. 

E quando você pode dizer que uma visão está realmente compartilhada em sua empresa? Quando as pessoas começam a ter a mesma imagem em mente ao pensar no futuro de sua organização e desejam trabalhar duro para que ela se confirme. Assim, a produtividade nos novos tempos só é possível se a liderança proporcionar uma visão compartilhada.

Como o líder pode fazer isso? Citando Jim Collins, tendo as pessoas certas no barco (o que inclui saber contratá-las, dar-lhes autonomia e responsabilidade, desenvolvê-las constantemente). Também deve-se estimular que cada um tenha uma visão e fazer com que esta se conjugue com a visão organizacional compartilhada. Por fim, deve-se demonstrar os benefícios de alcançar a visão compartilhada.

Compartilhar a visão não é apenas um exercício técnico, que fique claro. Significa exercer a liderança em seu patamar mais profundo, que é o de tirar as pessoas de sua zona de conforto e conduzi-las em direção ao crescimento, para que desenvolvam primeiro suas próprias visões e depois conjuguem-nas numa visão agregada. Sem uma preocupação de agregar as diferentes visões, um líder não conseguirá realizar a mudança estratégica significativa que os tempos tecnológicos pedem – e não conseguirá obter produtividade, portanto. 

**CONVICÇÃO**

Convicção não significa rigidez, tampouco teimosia. Por convicção pode-se entender o poder do líder de unir seus colaboradores em torno de uma causa – a visão, nesse caso. É possível uni-los, por exemplo, por meio de uma história que faça com que aquilo tenha sentido e justifique as ações. A partir do momento em que algo faz sentido, o colaborador “compra” a ideia e altera o seu comportamento para ser útil. A convicção é uma espécie de conceito guarda-chuva que o líder opera por meio da comunicação, e também de seu magnetismo pessoal e caráter.

A comunicação representa a forma como o líder vai escutar e tranquilizar seus colaboradores em relação ao assunto, e apresenta um forte elemento relacional – se for horizontalmente construída, fornecerá uma espécie de conversa entre amigos. O magnetismo pessoal ou animal, assunto estudado pelo médico alemão Franz Mesmer no século 18, representa a energia que amplia ou anula a reciprocidade, a simpatia e a afinidade que pode existir entre as pessoas, um componente da liderança que conecta a força vital (do corpo físico-biológico) do líder com o inconsciente das outras pessoas [veja quadro nesta página]. 

O caráter é o terceiro elemento da convicção e se refere aos valores do indivíduo. Pessoas com bom caráter e com quem convivemos no dia a dia nos passam confiança. Os valores não precisam ser ditos, mas vivenciados. O caráter tem a ver com aquilo que nós somos. Está relacionado a integridade, maturidade e mentalidade de abundância. 

A integridade tem a ver com coerência, com ser correto em todas as esferas de sua vida. Conta-se que um casal passou no drive-thru de um restaurante fast-food para comprar um lanche e, ao pegar seu pacote, percebeu que havia dinheiro colocado por engano ali. Os dois devolveram o dinheiro, mas recusaram-se a tirar uma foto como os funcionários propuseram para homenageá-los, pois viviam uma relação extra-conjugal. Eles eram honestos, mas não em tudo; então, faltava integridade. A maturidade é desenvolvida quando a pessoa aprende a lidar consigo mesma, deixando de depender do ambiente e agindo conforme suas escolhas – isso permite que seja corajosa e bondosa, e que possa lidar de maneira compassiva com as questões difíceis da vida, como afirmou Stephen Covey. Já a mentalidade da abundância elimina as premissas de competitividade e escassez e, citando Covey novamente, o indivíduo que a possui procura soluções que atendam igualmente as partes envolvidas. 

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/ef162cd8-afe0-47b3-b408-923c975a0e46.png)

**MOTIVAÇÃO**

Motivar os outros é complexo, mas não é algo impossível, como dizem alguns. Todos nós sabemos que, mesmo com a quarta revolução industrial, o ser humano vai gostar daquele que apoiá-lo e o fizer crescer, inclusive nas adversidades. O líder da coevolução representa esse líder que joga o jogo do win-win.

A motivação pode ser tratada pelo líder com três itens: recompensas, feedback e o desenvolvimento pessoal percebido pelo colaborador. De recompensas, não pensamos apenas em remuneração financeira fixa (salários) e variável (bônus e participação nos lucros e resultados), mas principalmente nas não financeiras. Uma palavra amiga, um apoio quando o colaborador estiver passando por dificuldades familiares, um tempo usado para escutar o desabafo, um presente ou lembrancinha de viagem, uma comemoração no restaurante para a equipe após o término de um projeto etc. Toda pessoa que quer se manter como líder precisa enfiar uma mão no bolso e manter a outra na consciência, dedicando tempo e energia, esforço e consideração para recompensar seus colaboradores. 

Quanto ao feedback, é necessário realizá-lo de modo contínuo e adequado. Feedback não é descontar no trabalhador sua insatisfação enquanto gestor de resultados; o feedback adequado é aquele justo e edificante. 

Por último, e não menos importante, vem o desenvolvimento pessoal percebido. Ele é a chave para que o colaborador continue motivado com algo. Quando se percebe que o tempo, a energia e os esforços despendidos estão trazendo frutos e resultados inclusive para o indivíduo (não só para a empresa), então é factível que se continuem os esforços e a produtividade. Empowerment, mais oportunidades, rotação de tarefas, treinamento e viagens, são alguns dos frutos que os colaboradores percebem como seus. 

Pensando de maneira sistêmica, a motivação acontece por meio da influência que os líderes têm sobre sua equipe. Influência não significa manipulação nesse caso, e sim motivar as pessoas a desejarem por si mesmas alcançar um objetivo. Joseph Grenny, Kerry Patterson e colegas realizaram um importante estudo sobre a arte da influência e concluíram que as pessoas fazem as coisas por duas razões: porque querem ou porque conseguem. E essas duas razões podem ser impulsionadas por três esferas: pessoal, social e estrutural. 

Combinando razões e esferas, chegamos a seis fontes de influência. Um líder influencia um indivíduo quando (1) o objetivo a alcançar está alinhado com a motivação pessoal dele; (2) ele tiver a habilidade requerida para fazer aquilo (ou adquiri-la, por meio de treinamentos); (3) existir pressão dos grupos sociais a que pertence em direção às atividades desejadas; (4) houver pessoas ao seu redor facilitando a execução da tarefa, podendo lhe ensinar a fazer ou dar apoio; (5) o sistema de recompensas e punições estabelecido pelo líder mostra que a atividade desejada é realmente importante; e (6) a estrutura ao redor – sejam ferramentas adequadas, softwares eficazes, lembretes nas paredes etc. – facilita sua ação e o impulsiona.

Estudos apontam que, se utilizadas da maneira correta, essas fontes podem aumentar em até dez vezes a capacidade de influência de um líder. 

**LIBERTE SEUS COLABORADORES**

Não nos iludamos: na sociedade transformada de hoje, o líder e a alta cúpula podem ser entraves à produtividade dos colaboradores e à evolução das empresas. 

O momento atual requer uma liderança não baseada na opressão e na hierarquia, mas que mantenha simultaneamente a visão de futuro e o foco na execução presente. Essa é a liderança coevolutiva: liberta os colaboradores da tarefa ingrata de receber ordens e busca seu progresso para que todos juntos construam o futuro.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quando um legado familiar redefine um pedaço da cidade

Construído sobre a área que durante décadas abrigou a fábrica e a recreativa da Tigre, o Cidade das Águas nasceu de uma pergunta pouco comum ao mercado imobiliário: antes de erguer torres, que tipo de bairro vale a pena construir?

A energia invisível da liderança – revelando a verdadeira natureza do “Ki” irradiado por Masao Ogura, da Yamato Transport

Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Ageivism: o que acontece quando as organizações envelhecem, mas suas ideias não?

Enquanto a longevidade transforma a composição da sociedade e do mercado de trabalho, muitas organizações continuam operando com modelos de gestão construídos para uma realidade demográfica que já não existe. Este artigo discute o conceito que desafia o jovem-centrismo corporativo e convida líderes a repensarem o valor da experiência, da diversidade geracional e da longevidade nas empresas.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de julho de 2026 08H00
Enquanto o sonho do hexa mobilizou milhões de brasileiros, outro fenômeno também ganhou força fora dos gramados. Este artigo discute como o avanço das apostas online está influenciando a relação dos jovens com dinheiro, educação e carreira, e por que empresas e líderes não podem ignorar seus efeitos sobre o futuro do trabalho.

Rodrigo Santos - Psicólogo e tutor educacional na Leapy

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
10 de julho de 2026 14h00
O futuro dos caminhões no Brasil será multienergético, e a engenharia nacional terá papel decisivo nessa transformação. Este artigo mostra por que a transição energética do transporte de cargas dependerá da combinação entre múltiplas fontes de energia, inovação tecnológica e soluções adaptadas à realidade do país.

Eduardo Oliveira - Diretor de Engenharia da IVECO para a América Latina

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Liderança
10 de julho de 2026 08H00
Da Kodak aos desafios da economia digital, a história dos negócios mostra que organizações raramente fracassam por um único erro. Elas perdem relevância quando insistem em estratégias, processos e crenças que deixaram de responder às transformações do mercado.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Inovação & estratégia, Liderança
9 de julho de 2026 15H00
O maior risco da sucessão não é a troca de comando. É deixar para depois. Este artigo mostra por que a continuidade dos negócios depende menos dos herdeiros e mais da preparação, da governança e da capacidade de construir o próximo ciclo de crescimento.

Pedro Fenati Bicalho - Sócio da FC Partners

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional, Tecnologia & inteligencia artificial
9 de julho de 2026 08H00
A inteligência artificial já consegue executar boa parte do trabalho operacional. O que ela ainda não faz é dar sentido, construir confiança e imaginar futuros. Este artigo mostra por que o verdadeiro gargalo das empresas deixou de ser tecnológico e passou a ser a forma como lideram, colaboram e tomam decisões.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
8 de julho de 2026 15H00
A inteligência artificial deixou de ser um projeto da área de tecnologia e passou a fazer parte da rotina de todas as áreas da empresa. O problema é que, em muitos casos, sua adoção avança mais rápido do que os mecanismos de segurança, compliance e governança capazes de sustentá-la.

Rodrigo Hülsenbeck - CEO da Premiersoft

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
8 de julho de 2026 08H00
A maior vulnerabilidade da era da IA pode não estar nos profissionais juniores, mas nos cargos criados para coordenar fluxos e transmitir informações. O que acontece quando a tecnologia passa a fazer isso melhor, mais rápido e mais barato?

Amanda Graciano - Fundadora da Trama

4 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
7 de julho de 2026 14H00
Entre Polônia e Brasil, teatro e negócios, cultura e estratégia, a autora propõe uma reflexão instigante sobre pertencimento, inteligência cultural e a capacidade, cada vez mais rara, de pensar com independência em um mundo saturado de narrativas.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

15 minutos min de leitura
Liderança
7 de julho de 2026 08H00
As mulheres brasileiras nunca estudaram tanto nem estiveram tão qualificadas para ocupar posições de decisão. Este artigo discute por que a desigualdade de representação persiste e como educação, networking e visibilidade continuam sendo fundamentais para transformar preparo em oportunidade.

Luiza Helena Trajano - Presidente do Conselho do Magazine Luiza e Presidente do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
6 de julho de 2026 16H00
Enquanto o networking superficial busca visibilidade, as conexões que realmente transformam carreiras nascem da credibilidade construída em projetos, desafios e relações pautadas pela confiança.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo