Cultura organizacional, ESG
5 minutos min de leitura

Mais da metade das pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes relatam falta de acessibilidade no trabalho, na 2ª edição da Pesquisa Radar da Inclusão

Cumprir cotas não é inclusão: a nova pesquisa "Radar da Inclusão" revela barreiras invisíveis que bloqueiam carreiras e expõe a urgência de transformar diversidade em acessibilidade, protagonismo e segurança psicológica.
CEO e fundadora do Grupo Talento Incluir.

Compartilhar:


Há avanços que parecem boas notícias até decifrarmos melhor os dados. Apesar do Brasil ter apresentado um aumento no número de empresas que cumprem a cota de contratação de pessoas com deficiência em 2025, segundo o MTE/eSocial, a recém-lançada pesquisa “Radar da Inclusão: empregabilidade de Pessoas com Deficiência e/ou Neurodivergentes”, encomendada pela Talento Incluir e Pacto Global da ONU – Rede Brasil ao Instituto Locomotiva, mostra que esse aumento da empregabilidade não é sinônimo de inclusão de fato.

Entre as descobertas da pesquisa, um dos dados mais impactantes e desafiadores é esse: 56% das pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes inseridas no mercado de trabalho enfrentam barreiras de acessibilidade que prejudicaram diretamente seu desempenho e seu bem-estar profissional. Este número não é um dado estatístico. É um sinal sobre trajetórias profissionais sendo interrompidas, potencial sendo desperdiçado, carreiras sendo bloqueadas antes mesmo de começar.

A pesquisa traz detalhes dessas barreiras de acessibilidade, mostrando que 41% destas pessoas desistiram de ir a algum lugar porque não conseguiriam se locomover pela cidade. Outras 34% deixaram de buscar emprego ou formação prevendo barreiras de mobilidade. Ainda, 26% perderam compromissos profissionais por obstáculos no trajeto e 36% se atrasaram por problemas de acessibilidade, atrasos que nada têm a ver com competência, mas com estruturas que falham.

A consequência disso também vem em números alarmantes: 37% se sentiram tristes ou deprimidos após enfrentar esses desafios diários. Como se manter uma pessoa produtiva, engajada, motivada neste cenário, quando a cidade, o trajeto e o ambiente de trabalho dizem “não” antes mesmo que a pessoa chegue. A falta de acessibilidade não é um detalhe arquitetônico. É um obstáculo cotidiano que corrói autonomia, autoestima e oportunidades.

A vivência permanente dessa situação por parte das pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes tem nome: fadiga de acesso. É quando a falta de acessibilidade nos cansa, nos desgasta, nos culpa e ainda nos penaliza. É quando o atraso não é nosso, mas a falha é do sistema. É quando o trabalho deixa de ser digno antes mesmo de começar. Isto precisa ser dito com todas as letras: a falta de acessibilidade é violenta.

O capacitismo segue sendo a barreira mais invisível e a mais brutal. Mesmo quando conseguimos chegar ao trabalho, ainda enfrentamos um ambiente que insiste em nos reduzir, silenciar ou infantilizar. A pesquisa mostra que 86% das pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes já sofreram capacitismo no ambiente profissional. Desses, 74% afirmaram ter ouvido comentários capacitistas; 60% sofreram preconceito ou discriminação de superiores; 57% de pessoas da equipe; 51% foram desqualificadas por terem deficiência; 48% deixaram de ser promovidas e 27% foram discriminadas por clientes ou fornecedores.

Mesmo diante disso tudo, só 23% denunciaram as situações à empresa. Entre quem denunciou, 78% não se sentiram acolhidos. Entre quem não relatou, o principal motivo foi por medo de demissão ou retaliação. Esta é a realidade oculta que os indicadores de diversidade existentes ainda não conseguem medir.

Incluir não acaba na contratação e é justamente neste ponto que as empresas brasileiras mais falham. Ao contratar pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes, a empresa precisa cuidar da inclusão real de cada pessoa contratada.

As respostas sobre esse tema deixam evidentes as falhas no processo de inclusão. Para 66% das pessoas que responderam à pesquisa as oportunidades nas empresas não são equânimes. As pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes ainda sofrem a estagnação de carreira, já que 67% nunca foram promovidos, mesmo com a maioria delas (41%) ter três anos ou mais de empresa. Apenas 19% das pessoas entrevistadas receberam uma promoção.

A maioria (49%) aponta a falta de programas de mentoria específicos para pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes. Para 40% os vieses cognitivos ainda são barreiras de desenvolvimento na empresa. Também para 40% não têm comunicação transparente sobre oportunidades internas que a empresa oferece.

A conclusão é que não é falta de talento. Não é falta de empenho. Falta acesso, reconhecimento, protagonismo e oportunidades equânimes. Essa falta impacta diretamente a saúde mental da pessoa colaboradora: quando não há segurança psicológica, não existe inclusão.

Embora metade dos entrevistados afirme que suas empresas têm programas de saúde mental, 77% não se sentem totalmente à vontade para conversar sobre o tema com RH ou liderança. Onde há existência desses programas, 57% dizem que eles não são totalmente adequados ou acessíveis.

Sem confiança, não há pertencimento. Sem pertencimento, não há desenvolvimento. O que a pesquisa revela sobre o papel e a responsabilidade das empresas é que, definitivamente, a inclusão não se faz com números, mas com intencionalidade.

Se queremos avançar na Agenda 2030 proposta pela ONU e realmente construir ambientes de trabalho dignos, precisamos garantir acessibilidade desde o trajeto até a mesa de trabalho; investir em desenvolvimento, e não apenas em contratação; criar programas reais de aceleraçãop de carreira, mentoria e liderança para talentos com deficiência e/ou neurodivergentes.

Acima de tudo, é urgente esvaziar o capacitismo de forma explícita, com políticas, processos, responsabilização e metas. Além de implementar ações de saúde mental realmente acessíveis e criar canais de denúncia confiáveis, acolhedores e permanentes.

A 2ª edição do Radar da Inclusão 2025 apurou as respostas de 1.765 pessoas com deficiência e/ou neurodivergência, de todas as regiões do país. Mais da metade estavam empregadas. Todas carregam histórias que não deveriam mais estar se repetindo em pleno 2025.

Ainda que celebremos boas notícias em doses homeopáticas, pesquisas como essa se aprofundam no que as empresas não estão captando. Os dados continuarão denunciando, ano após ano, o que o mercado parece querer ignorar.

A mudança é urgente e começa quando entendemos nosso papel na promoção do trabalho digno como direito não privilégio. A inclusão produtiva transforma diversidade em valor estratégico para o negócio. Empresas que ultrapassam as cotas legais e investem em programas robustos de inclusão são mais inovadoras, resilientes e rentáveis.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que significa educar quando as máquinas também aprendem?

Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

As pessoas vão permanecer mais tempo, sua empresa está pronta?

Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

A decisão mais difícil do roadmap de IA não é técnica

Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Liderança
21 de junho de 2026 15H00
A partir de uma experiência em meio a mudanças estruturais no setor financeiro, este artigo mostra que, em cenários de alta complexidade, o papel da liderança vai além da operação, exigindo capacidade de sustentar cultura, alinhar expectativas e manter a confiança em meio à incerteza.

Victor Papi - General Manager da Transfeera

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
21 de junho de 2026 08H00
Pagar mais já não basta, médicos estão escolhendo onde trabalhar pelo “como”, não pelo “quanto”. Este artigo revela como a disputa por médicos qualificados está sendo redefinida por fatores estruturais, organizacionais e de experiência profissional.

Rafael Duarte - CEO e fundador do Grupo RD Medicine

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Tecnologia & inteligencia artificial
20 de junho de 2026 14H00
Se mais gente não significa mais resultado, o que ainda justifica equipes gigantes? Este artigo revela como a inteligência artificial está redefinindo estruturas, papéis e critérios de eficiência nas áreas de marketing e growth.

Brian Bittencourt - VP de Growth & Marketing da Woba

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
20 de junho de 2026 08H00
Mais de 92 mil pessoas foram demitidas em tech só nos primeiros meses de 2026, ao mesmo tempo em que big techs reportavam resultados recordes. O Gartner mostra que esses cortes não estão entregando ROI. O problema não é a tecnologia, é a intenção por trás dela.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

12 minutos min de leitura
Lifelong learning, Inovação & estratégia
19 de junho de 2026 14H00
Por trás de um dos reconhecimentos mais cobiçados da AWS, este artigo mostra que o verdadeiro diferencial não está em acumular certificações, mas em construir conhecimento consistente a partir da prática, da comunidade e da evolução contínua.

Alceu Conerado Neto - COO da Dati

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, User Experience, UX
19 de junho de 2026 08H00
A partir de uma cena cotidiana, este artigo expõe um erro recorrente nas organizações: confundir treinamento com preparo e transferir a curva de aprendizagem para o cliente, com impactos diretos na experiência e nos resultados.

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de junho de 2026 16H00
Entre a inovação e o risco, este artigo discute até onde se deve confiar na IA dentro do contexto clínico. A tecnologia, sem dúvidas, amplia capacidades, mas ainda depende de dados de qualidade, supervisão humana e confiança para cumprir seu potencial.

Adalene Tiso - Diretora da unidade Healthcare da Interplayers

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança, Lifelong learning
18 de junho de 2026 08H00
Por que empresas aprendem mais com fracassos analisados com honestidade do que com cases heroicos?

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de junho de 2026 15H00
O entusiasmo com inteligência artificial segue um ciclo já visto antes. Este artigo mostra por que o próximo desafio das empresas não é implementar a tecnologia - mas transformar uso em resultado, superando velhos erros de gestão que já limitaram outras ondas de inovação.

Marcus Garcia - Diretor Comercial da Konia Tecnologia

3 minutos min de leitura
Lifelong learning
17 de junho de 2026 09H00
Este artigo propõe uma mudança de lógica na aprendizagem: mais do que acumular conteúdo, o diferencial passa a ser a capacidade de conectar conhecimentos, interpretar contextos e transformar informação em decisão e ação.

Daniel Luzzi - CEO Cognita Learning Lab

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão