Liderança, Cultura organizacional
6 minutos min de leitura
Oferecido por:

NRF 2026: o que as tendências do varejo revelam sobre o modelo de liderança atual

A maior feira de varejo do mundo confirmou: não faltam soluções digitais, falta maturidade humana para integrá‑las.
Especialista em Liderança Humanizada, Inovação e Cultura Organizacional com foco em gestão de pessoas para o desenvolvimento de líderes orientados a restaurar vínculos humanos e desbloquear habilidades socioemocionais. Michele é Palestrante TEDx, Professora de Liderança Multigeracional na Pós Graduação em Tech da FIAP, Mentora de executivos, Consultora HSM e facilitadora de treinamentos.

Compartilhar:

A NRF 2026, maior feira de varejo do mundo, reuniu tecnologia, inteligência artificial e novos modelos de consumo. Mas, para além dos anúncios e inovações, uma pergunta mais profunda emerge: o que essas tendências estão realmente dizendo sobre o modelo de liderança que praticamos hoje?

Existe uma tendência silenciosa – e perigosa – de terceirizar responsabilidades dentro das organizações. Desassociamos o comportamento da liderança daquilo que esperamos da operação para atingir metas e resultados. Esse movimento acontece de forma linear e vertical, atravessando todas as camadas hierárquicas. Ele revela um traço profundo da cultura mecanizada que ainda habita o inconsciente da liderança.

Essa lógica, herdada de modelos industriais baseados em comando, controle e previsibilidade, segue orientando decisões mesmo em um mundo que exige adaptabilidade, consciência relacional e leitura sistêmica. Mudamos processos, adotamos novas tecnologias, mas mantemos o mesmo modelo mental.

A liderança como tradução viva da cultura

Curiosamente, estudamos inovação há décadas, mas refletimos pouco sobre o que os próprios modelos de gestão modernos estão nos ensinando sobre valores, virtudes humanas e comportamento. O que frameworks como agilidade, foco no cliente e estruturas mais orgânicas revelam, afinal, sobre o que se espera das lideranças – e de nós como sociedade?

No último Dossiê da HSM, Daniela Diniz aprofunda o conceito de arquitetura de pessoas ao lembrar que as melhores empresas para as pessoas são aquelas cujos líderes impulsionam o desenvolvimento humano. “Liderança é walk the talk.” E há um ponto crucial aqui: é por meio da liderança que as pessoas interpretam, na prática, os valores organizacionais.

Quando alguém afirma trabalhar em um excelente ambiente, raramente está falando de políticas ou processos. Está falando, direta ou indiretamente, da sua liderança e do valor relacional.

Esse ponto conecta comportamento da liderança e futuro dos negócios de forma muito concreta. Não existe transformação organizacional sustentável sem autodesenvolvimento humano – e sem coerência entre discurso e prática.

O varejo como laboratório das mudanças culturais

A NRF 2026 reforçou algo que já venho observando há anos: o varejo é o primeiro setor onde mudanças culturais se tornam comportamento visível. Antes de virarem estratégia, modelo de negócio ou competência exigida, elas aparecem no comportamento do consumidor – e no impacto direto no caixa.

Foi exatamente isso que vimos na NRF 2026, maior feira de varejo do mundo, em Nova Iorque. Apesar da presença massiva de tecnologia, o discurso dominante não foi sobre inovação digital, mas sobre potência humana.

Já convivemos com agentes que escolhem por consumidores. Dados apresentados no evento indicaram um aumento expressivo – até 14 vezes – nos pedidos realizados via aplicativos com agentes de IA, segundo análises da Shopify (2025–2026). Ainda assim, a experiência humana segue sendo o elo crítico da confiança.

Não adianta termos sistemas sofisticados se, ao chegar ao ponto de contato, as pessoas encontram ambientes frios, transacionais e desumanizados. O corpo, os sentidos, a presença e a emoção continuam sendo decisivos – muitas vezes materializados por gestos simples, como gentileza e acolhimento.

Da era da desconfiança à liderança como ativo relacional

Esse cenário se conecta a algo ainda mais profundo: a chamada “Era da desconfiança”. Dados apresentados pela Edelman Trust Barometer e pela WGSN indicam que apenas cerca de 56% das pessoas confiam em empresas, governos, mídia e ONGs para fazer o que é certo. A pandemia corroeu certezas. A inteligência artificial passou a fabricar realidades, dificultando a identificação da fakenews. A confiança tornou-se um ativo escasso.

Nada disso é exatamente novo. Já em 2024, o Fórum Econômico Mundial alertava para uma meta-crise de confiança – geopolítica, econômica, organizacional e interpessoal. Ainda assim, mesmo durante o boom da IA em 2025, seguimos tratando a confiança como um atributo organizacional, e não como um comportamento e valor humano. No próprio relatório Future of Jobs de 2025, as competências exclusivamente humanas seguem ocupando espaços limitados, concentrando-se em pilares como pensamento crítico, criatividade e influência.

A pergunta que permanece é: por que ainda tratamos essas competências como tendências, e não como aprendizado contínuo sobre quem somos como humanos?

Como mentora e facilitadora de liderança humanizada, percebo que, sem compreender a origem e a prática das sociedades humanas que prosperaram, seguimos olhando para as transformações atuais como se estivéssemos com uma lupa sobre o caos. Precisamos integrar explicações científicas, como a neurociência, à observação social e sensorial de como nos sentimos no trabalho – somando a isso o simbólico, a filosofia e a narrativa que construímos sobre o que fazemos e por que fazemos.

À luz desses pilares, podemos reinterpretar os sistemas organizacionais que criamos. O desenvolvimento individual só faz sentido quando gera impacto coletivo. Talvez por isso sabedorias antigas buscassem compreender comportamentos a partir de polaridades. Se nomearmos o trabalho entre o mecânico e o orgânico, fica evidente: durante décadas, estruturamos organizações a partir de lógicas mecanizadas. Agora, somos desafiados a operar de forma mais orgânica, interconectada e relacional.

A ciência reforça esse movimento. Como afirma o neurocientista António Damásio, somos seres emocionais que pensam, e não o contrário. Compreender emoções, expectativas e impactos intangíveis é o que nos permite criar sistemas que realmente nos diferenciam das máquinas. Liderar, hoje, é equilibrar razão e emoção – saber mensurar dados e, ao mesmo tempo, explicar o significado e o impacto gerado.

Há ainda um aspecto essencial: somos uma espécie sociável, como lembra Yuval Noah Harari. Nenhum líder conseguirá desenvolver habilidades psicossociais – em si e em sua equipe – se não transformar a forma como se relaciona com as pessoas. Ambientes psicologicamente seguros nascem do interesse genuíno pelo desenvolvimento mútuo. Perguntar “está tudo bem?” de forma automática não cria vínculo nem confiança.

Talvez o próximo grande salto não seja tecnológico, mas de consciência. A confiança tende a se tornar um novo “produto” organizacional, assim como métricas emocionais passam a ganhar relevância. É nas trocas interpessoais – com presença, curiosidade genuína e interesse real – que começamos a restaurar a confiança entre pessoas, setores e ecossistemas.

Como provoca José Salibi Neto, liderar é saber fazer boas perguntas. E isso vai muito além de prompts ou ferramentas. Trata-se de uma escolha diária sobre como nos relacionamos – e quem escolhemos ser como líderes.

Se voltarmos à pergunta inicial – o que as tendências de mercado estão revelando sobre o modelo de liderança – a resposta se torna clara: elas não falam apenas de novas tecnologias, mas de um limite humano alcançado pelo “modo automático” herdado da Revolução Industrial.

A partir desse ponto, só será possível desenvolver novas potencialidades humanas se houver consciência. Isso exige ressignificar a forma como lideramos para construir organizações mais preparadas para, por sua vez, desenvolver pessoas melhores. Será pela prática consciente das habilidades psicoemocionais que conectaremos inteligência social, inovação e significado – diferenciais que definirão líderes, culturas e negócios verdadeiramente sustentáveis.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Reduzimos o analfabetismo. Agora precisamos evitar que os jovens abandonem a escola.

Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais ficou abaixo de 5%. O avanço, porém, expõe uma nova urgência: milhares de jovens continuam deixando a escola para trabalhar. O desafio agora é construir caminhos que permitam estudar, gerar renda e desenvolver competências para um mercado de trabalho em rápida transformação.

Entre o burnout, a felicidade e a IA: o que aprendemos no Mind Summit 2026

Em sua primeira experiência em um grande evento de negócios, duas estudantes foram convidadas a refletir sobre temas que impactam diretamente a nova geração de profissionais. O resultado foi uma jornada de descobertas sobre bem-estar, propósito, trabalho e o papel das pessoas em um futuro cada vez mais tecnológico.

O futuro da governança continua sendo humano

Com a participação de nomes como Christopher Garman, Thomas Shannon, Sergio Rial, Jeane Tsutsui e Guilherme Horn, o Congresso IBGC 2026 propõe um debate sobre um dos temas mais relevantes da atualidade: como exercer liderança e governança em um mundo marcado por inteligência artificial, incertezas geopolíticas e mudanças cada vez mais rápidas, sem abrir mão das competências que permanecem essencialmente humanas.

Crédito justo depende de informação, não apenas de regulação

Investigações sobre práticas abusivas colocam em evidência a necessidade de repensar a relação entre instituições financeiras e consumidores. Em um ambiente marcado por inovação digital e alta demanda por crédito, a transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do setor.

O conselho do Mind Summit 2026: mens sana in “corporate” sano

Das reflexões de Amy Edmondson sobre segurança psicológica aos alertas de Michael Long sobre a economia da atenção, passando pelas provocações de Paul Goldsmith e Deepika Chopra, a última edição do Mind Summit revelou um ponto em comum: o futuro do trabalho dependerá menos da capacidade das máquinas e mais da nossa habilidade de preservar aquilo que nos torna humanos em meio à aceleração tecnológica.

Tecnologia & inteligencia artificial
10 de setembro de 2026 08H00
As declarações recentes dos líderes da OpenAI e da NVIDIA reacenderam uma das discussões mais importantes da era digital: a Inteligência Artificial Geral já é uma realidade? Ao conectar os avanços mais recentes da IA às previsões feitas por Ray Kurzweil décadas atrás, o artigo explora não apenas a evolução da tecnologia, mas também o desafio humano, organizacional e social de acompanhar uma transformação que pode estar acontecendo mais rápido do que imaginávamos.

Leandro Mattos- Expert em neurociência da Singularity Brazil e CEO da CogniSigns

Oferecido por:
16 minutos min de leitura
Liderança, ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
9 de setembro de 2026 14H00
Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Djalma Scartezini - CEO da REIS, Sócio da Egalite e Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
9 de setembro de 2026 09H00
Os agentes de IA não pedem aumento, não tiram férias e não podem ser administrados como funcionários tradicionais. Como gerir colaboradores digitais que não seguem as regras tradicionais de contratação, supervisão e desligamento?

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Estratégia
8 de setembro de 2026 18H00
Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

Oferecido por:
10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
8 de setembro de 2026 14H00
Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
8 de setembro de 2026 08H00
Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Daniel Cerveira - sócio do escritório Cerveira, Bloch, Goettems, Hansen & Longo Advogados Associados e Coordenador da Comissão de Expansão e Pontos Comerciais da ABF - Associação Brasileira de Franchising

Oferecido por:
2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 14H00
Muito além da programação e da montagem de robôs, o artigo mostra como a robótica educacional está ajudando estudantes a pensar criticamente, experimentar, colaborar e criar soluções para problemas reais, conectando aprendizagem, propósito e impacto social desde a escola.

André Brandão Sala - CEO da Robomind

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 08H00
O Brasil já demonstrou sua capacidade de formar pesquisadores altamente qualificados. O desafio agora é fortalecer as pontes entre universidades, empresas, investidores e empreendedores para que a produção científica gere mais inovação, competitividade e impacto social.

Luiz Caires, PhD - Cofundador e CEO da Vyro Bio

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
6 de setembro de 2026 15H00
Nem sempre a queda de engajamento está relacionada à falta de motivação individual. Muitas vezes, ela surge em ambientes onde as pessoas deixam de se sentir ouvidas, evitam discordar e aprendem que é mais seguro permanecer em silêncio.

Rodrigo Rovaris - Gerente de Gente & Gestão da Blendus

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Marketing & growth
6 de setembro de 2026 08h00
À medida que a produção de conteúdo se torna cada vez mais presente na vida profissional e pessoal, surge uma questão importante: estamos ampliando oportunidades ou naturalizando a ideia de que toda experiência, habilidade e momento da vida precisam ser convertidos em visibilidade, audiência e monetização?

Ingrid Spyker - sócia da Creator Economy

Oferecido por:
4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução