Existe um modelo de liderança que muitas organizações dizem querer, mas poucas conseguem colocar em prática. Um modelo onde as decisões não dependem de uma única cabeça, onde diferentes experiências constroem soluções que nenhuma pessoa alcançaria sozinha e onde o papel de quem lidera é menos dar respostas e mais criar as condições para que elas apareçam.
Trago esse exemplo porque o conheço de perto. Faço parte do Grupo Mulheres do Brasil e o que vejo acontecer ali todos os dias me ensinou mais sobre liderança do que qualquer livro.
Em 2013, a empresária Luiza Helena Trajano reuniu um grupo de 40 mulheres, empresárias e líderes de diferentes áreas com um propósito simples e ambicioso: transformar a indignação diante dos desafios do país em ação concreta. O que nasceu desse encontro não seguiu o caminho tradicional das organizações, com hierarquias definidas, decisões centralizadas e uma liderança no topo controlando tudo. Seguiu outro caminho, mais difícil de desenhar em uma governança, mas muito mais eficaz na prática.

Desse encontro nasceu o Grupo Mulheres do Brasil, que reúne mais de 140 mil mulheres em núcleos espalhados pelo Brasil e pelo mundo, atuando em frentes que vão da educação ao empreendedorismo, das políticas públicas ao combate à violência contra mulheres e meninas, da sustentabilidade à saúde e ao desenvolvimento social. Mas o que mais chama a atenção no Grupo não é o tamanho. É o modo como ele funciona.
As decisões não se concentram em uma única liderança. Há uma diversidade de líderes, protagonismo local, construção coletiva, mobilização em torno de causas compartilhadas. Mulheres de regiões, gerações e profissões completamente distintas contribuem com o que sabem, com o que viveram, com o que enxergam a partir do lugar onde estão. E esse encontro de perspectivas produz algo que nenhuma delas produziria sozinha.
Para organizações que buscam decisões mais consistentes e representativas, essa experiência mostra o valor de ampliar a diversidade nos espaços de liderança.
Vivemos um tempo em que os desafios ficaram grandes demais para caber em uma única cabeça. A tecnologia redesenhou o trabalho, as hierarquias perderam a rigidez de antes e os mercados tornaram-se mais imprevisíveis. Nesse contexto, liderar concentrando todas as decisões no topo foi deixando de funcionar. O que começa a fazer sentido no lugar não é uma pirâmide mais eficiente. É algo mais parecido com uma orquestra, onde o resultado depende menos da genialidade do regente e mais da qualidade do conjunto.
O Grupo Mulheres do Brasil é essa orquestra que vem funcionando há mais de uma década.
E o que ela revela, entre outras coisas, é que diversidade não é apenas uma agenda de inclusão. É o elemento fundamental da inteligência coletiva. Grupos com repertórios diversos tendem a decidir melhor, enxergar riscos que passam despercebidos por quem pensa de forma parecida e identificar oportunidades que olhares iguais não captam. Pesquisas da McKinsey & Company já documentaram, em diferentes setores, essa ligação entre diversidade e ganhos em inovação, resolução de problemas e desempenho financeiro.
Mas existe uma diferença fundamental entre ter diversidade e conseguir transformá-la em valor.
Diversidade sem escuta genuína vira decoração. O desafio não está em trazer pessoas diferentes para dentro de uma estrutura. Está em criar as condições para que elas, de fato, influenciem o que acontece, para que suas perspectivas entrem nos processos, nas decisões, nas estratégias. É exatamente isso que o Grupo Mulheres do Brasil pratica todos os dias, não como teoria, mas como forma de operar.
E é por isso que chamamos a atenção para a ausência das mulheres nos espaços de liderança e decisão. Isso se demonstra em um problema estratégico. Quando elas não estão na mesa de decisão, as organizações não perdem apenas em representatividade. Perdem inteligência, perdem acesso a formas de compreender o mundo que seriam valiosas para qualquer estratégia e, no fim, perdem competitividade. Mais mulheres na liderança não é uma concessão. É uma decisão de negócio.
Para colocar essa conversa em movimento, com a profundidade que ela merece, nasce o Summit Mulheres nas Profissões, uma realização do Grupo Mulheres do Brasil.
O Summit reunirá lideranças, especialistas, empreendedoras, profissionais e estudantes para discutir o futuro do trabalho, os desafios da liderança e o papel das mulheres nos espaços de decisão. Mais do que palestras e painéis, será um ambiente onde trajetórias distintas se cruzam, trocam aprendizados e abrem caminhos que nenhuma agenda estruturada conseguiria prever. Porque é assim que as melhores ideias costumam nascer: quando pessoas que pensam diferente se encontram e trocam de verdade.
Liderar, cada vez mais, é estarmos abertos a criar as condições para que as melhores respostas surjam. É construir ambientes onde pessoas diferentes se sintam seguras para contribuir e reconhecer que a inteligência coletiva de um grupo diverso supera, na maioria das situações complexas, a inteligência individual de qualquer pessoa genial.
O Grupo Mulheres do Brasil não fala sobre isso, sai da teoria para a prática. Acredito que essa seja a lição mais valiosa que uma rede construída ao longo de mais de uma década tem a oferecer: o futuro da liderança será feito com mulheres, ou não será o futuro que precisamos. Nos negócios, na política, nas organizações e na vida, equidade não é ponto de chegada. É o caminho.




