Inovação & estratégia
0 min de leitura

Por que a governança de dados ainda não mobiliza a alta liderança, mesmo sendo estratégica

Se a Governança de Dados não engaja a alta liderança, não é por falta de relevância - é porque ninguém mobiliza executivo algum com frameworks indecifráveis, Data Owners sem autoridade ou discursos tecnicistas que não resolvem problema real. No fim, o que trava a agenda não são os dados, mas a incapacidade de traduzi-los em poder, decisão e resultado
CEO e fundador da BLR Data, consultoria pioneira em Governança de Dados no Brasil. Referência nacional, com mais de três décadas de experiência na área, é autor de dois livros sobre o tema e atua na DAMA Brasil.

Compartilhar:

A maioria das empresas já reconhece que Governança de Dados é fundamental para reduzir riscos, melhorar decisões e sustentar iniciativas como advanced analytics e Inteligência Artificial. Ainda assim, engajar as lideranças, desde as camadas operacionais até os níveis executivos, têm sido um dos maiores desafios dessa agenda.

No fundo, todo executivo faz a mesma pergunta: quais ganhos concretos minha área e a empresa terão ao participar ativamente desse programa? Quando a resposta se apoia em jargões técnicos ou promessas abstratas de longo prazo, sem benefícios tangíveis, o interesse se perde rapidamente.

Governança de Dados só se sustenta quando está claramente conectada à estratégia corporativa, à melhoria da tomada de decisão, ao aumento da eficiência operacional e à mitigação de riscos relevantes. Fora desse contexto, passa a ser percebida como mais uma camada de controle, uma espécie de pedágio no meio da estrada, e não como um instrumento de alavancagem do negócio.

Outro ponto crítico, muitas vezes negligenciado, é a forma como os times de dados se comunicam com o negócio. O uso excessivo de linguagem técnica, repleta de siglas e conceitos próprios da tecnologia, cria uma barreira desnecessária. Lideranças de negócio são especialistas em suas áreas de atuação, não em tecnologia. Para engajá-las, a Governança de Dados precisa falar de impactos, não de frameworks; de decisões, não de ferramentas; de ganhos concretos; não de automatização sem propósito. Comunicação simples e orientada a valor não é opcional, é uma condição básica para o engajamento executivo.

A definição dos papéis dentro do programa também é determinante. Em uma Governança de Dados madura, os Data Owners, ou seja, os responsáveis pelos dados, exercem um papel executivo, com autoridade real sobre domínios de negócio, capacidade de priorização e poder para representar os interesses das suas áreas. Já os Data Stewards, responsáveis pela qualidade e integridade dos dados, por sua vez, representam a liderança operacional, garantindo que as decisões estratégicas se materializem nos processos e na operação do dia a dia.

Essa relação: executivos atuando como Data Owners e lideranças operacionais como Data Stewards, é essencial para o funcionamento integrado e eficaz da governança. Um erro recorrente ocorre quando profissionais sem posição executiva são nomeados como Data Owners. Mesmo com conhecimento técnico ou proximidade com os dados, esses perfis não detêm autoridade organizacional suficiente para sustentar decisões estratégicas. O resultado é previsível: perda de legitimidade, baixa capacidade de decisão e enfraquecimento do programa. Governança pressupõe decisão. E decisões estratégicas exigem liderança executiva legítima.

Outra armadilha recorrente, especialmente em programas em estágio inicial, é a nomeação prematura de Data Owners e Data Stewards para domínios que ainda não estão contemplados pelo Programa de Governança de Dados. Uma abordagem mais coerente é a evolução incremental da governança: iniciar com um número restrito de domínios prioritários, utilizá-los como pilotos e expandir gradualmente, à medida que o programa amadurece.

Quando responsabilidades formais são atribuídas antes mesmo de o domínio estar efetivamente sobre um Programa de Governança de Dados, o resultado costuma ser o oposto do esperado: frustrações, desalinhamento de expectativas e perda de credibilidade da iniciativa junto às lideranças.

Outro fator decisivo para o engajamento é a capacidade da Governança de Dados priorizar as dores reais do negócio. Enquanto políticas e modelos são construídos, as áreas seguem lidando com dados inconsistentes, dashboards e relatórios conflitantes e baixa confiabilidade da informação. Para o executivo, a mensagem é direta: se a governança não resolve problemas, ela não é prioridade.

Por ser uma agenda transversal, a Governança de Dados exige participação efetiva das lideranças nos processos decisórios. Quando regras, padrões e prioridades são definidos sem essa participação, a resistência surge naturalmente, não por rejeição ao conceito, mas pela exclusão desse processo. Sem voz e corresponsabilidade do negócio, a governança tende a se tornar um exercício “burrocrático”, distante da realidade da empresa.

Executivos não se engajam por apresentações bem estruturadas ou discursos conceituais. Eles se engajam quando percebem impacto direto na tomada de decisão, redução de riscos relevantes, ganho de eficiência e sustentação de iniciativas estratégicas como advanced analytics, ciência de dados e Inteligência Artificial. Falar de dados é importante, mas  demonstrar valor é indispensável.

A dificuldade de engajar lideranças em Programas de Governança de Dados não é um problema de adesão, mas de posicionamento estratégico e estrutura de poder. Enquanto essa agenda for tratada como técnica, periférica ou delegada exclusivamente às equipes de dados, ela continuará disputando espaço na organização.

Para executivos, a questão não é mais se Governança de Dados é importante, isso já está amplamente estabelecido. A pergunta real é: a organização está disposta a assumir a Governança de Dados como uma agenda estratégica, liderada por executivos com autoridade real e orientada à geração de valor? Sem essa decisão, a Governança de Dados seguirá presente nos discursos, mas ausente nas decisões que realmente movem a empresa.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Da cultura ao caixa: O impacto real (e subestimado) de nomear o líder errado

Nada destrói uma empresa tão rápido – e tão silenciosamente – quanto um líder mal escolhido. Uma única nomeação equivocada corrói cultura, paralisa times, distorce decisões e drena resultado. Este artigo expõe por que insistir nesse erro não é só imprudência: é um passivo estratégico que nenhuma organização deveria tolerar.

Bem-estar & saúde, Estratégia
16 de março de 2026 15H00
Dados apresentados por Kasley Killam no SXSW 2026 mostram que a qualidade das nossas conexões não influencia apenas o bem‑estar emocional - ela afeta longevidade, risco de doenças e mortalidade. Ainda assim, poucas organizações tratam conexão como parte da operação, e não como um efeito colateral da cultura.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
16 de março de 2026
A tecnologia acelera tudo - inclusive nossos erros. Só a educação é capaz de frear impulsos, criar critérios e impedir que o futuro seja construído no automático.

Adriana Martinelli - Diretora de Conteúdo da Bett Brasil

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
15 de março de 2026 14H30
Direto da cobertura do SXSW 2026, este artigo percorre as conversas que dominam Austin: quando a tecnologia entra em superciclo e a IA deixa de ser apenas inovação para se tornar força estrutural, a pergunta central deixa de ser técnica - e passa a ser profundamente humana: como preservar significado, pertencimento e propósito em um mundo cada vez mais automatizado?

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

6 minutos min de leitura
Marketing & growth, Inovação & estratégia
15 de março de 2026 11H00
Diretamente da cobertura do SXSW 2026, este artigo parte de uma provocação de Tom Sachs para tensionar uma pergunta incômoda a líderes e criadores: é possível engajar pessoas, construir mundos e sustentar visões quando nem nós mesmos acreditamos, de verdade, no que comunicamos todos os dias?

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Estratégia
15 de março de 2026 08H00
Quando empresas tratam OKR como plano, roadmap como promessa e cronograma como estratégia, não atrasam por falta de prazo - atrasam por falta de decisão. Este artigo mostra por que confundir artefatos com governança é o verdadeiro custo invisível da execução.

Heriton Duarte e William Meller

15 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de março de 2026 14H00
Direto do SXSW 2026, uma reflexão sobre o que está acontecendo com a Gen Z chegando ao mercado de trabalho cheia de responsabilidades de adulto e ferramentas emocionais de adolescente.

Amanda Graciano - Fundadora da Trama

2 minutos min de leitura
Estratégia
14 de março de 2026 08H00
Feiras não servem mais para “aparecer” - quem participa apenas para “marcar presença” perde o principal - a chance de antecipar movimentos, ampliar repertório e tomar decisões mais inteligentes em um mercado cada vez mais complexo.

Fábio Kreutzfeld - CEO da Delta Máquinas Têxteis

2 minutos min de leitura
Liderança
13 de março de 2026 14H00
Diretamente do SXSW 2026, uma reflexão sobre como “autoridade” deixa de ser hierarquia para se tornar autoria - e por que liderar, hoje, exige mais inteireza, intenção e responsabilidade do que cargo, palco ou visibilidade.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
13 de março de 2026
Quando a comunicação é excessivamente controlada, a autenticidade se perde - e a espontaneidade vira privilégio. Este artigo revela por que a ética do cuidado é chave para transformar relações, lideranças e estruturas organizacionais.

Daneila Cais - TEDx Speaker, Design de Relações Profissionais

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
12 de março de 2026
Por trás da sensação de ganho de eficiência, existe um movimento oculto que está sobrecarregando profissionais. O artigo traz uma reflexão sobre como empresas estão confundindo volume de atividade com ganho real de produtividade.

Erich Silva - Sócio e Diretor de Operações na Lecom

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...