Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
4 minutos min de leitura

Por que lavar as mãos ainda é uma das maiores armas da medicina?

Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.
Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

Compartilhar:

As Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) permanecem entre os principais desafios dos sistemas de cuidado. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em média, cerca de 1 em cada 10 pacientes é afetado por uma Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (IRAS) durante a prestação de cuidados de saúde.

Embora existam protocolos bem estabelecidos para reduzir esse risco, a higiene das mãos continua sendo reconhecida pela própria OMS como uma medida simples, acessível e eficaz para interromper a transmissão de microrganismos entre profissionais, pacientes e ambientes hospitalares. 

Um problema que atravessa a história da medicina

Mas nem sempre foi assim. Em meados do século XIX, dois profissionais ajudaram a mudar para sempre a história da saúde. O médico húngaro Ignaz Semmelweis observou que mulheres atendidas por médicos que saíam diretamente das salas de autópsia apresentavam taxas muito maiores de mortalidade por febre puerperal. Ao introduzir a lavagem das mãos com solução desinfetante antes dos atendimentos, conseguiu reduzir drasticamente as mortes. Poucos anos depois, Florence Nightingale demonstrou, durante a Guerra da Crimeia, que medidas básicas de higiene e saneamento eram capazes de salvar vidas e melhorar a recuperação dos pacientes.

Mesmo com a evolução da medicina desde então, a higiene das mãos segue como uma das intervenções mais eficazes para prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (IRAS)

Um desafio que ainda persiste

Apesar dos avanços, a adesão às práticas de higiene das mãos ainda está longe do ideal em muitos serviços de cuidado. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, esse índice varia entre 40% e 60% em hospitais ao redor do mundo, dependendo do ambiente assistencial e das condições de trabalho. Nesse cenário, a evidência científica reforça a dimensão do problema.

A consolidação dessa prática como eixo central da segurança do paciente ganhou força com os estudos conduzidos pelo médico suíço Didier Pittet, referência global no tema. Em um estudo publicado no The Lancet, realizado no Hospital Universitário de Genebra, a implementação de uma estratégia multimodal levou a um aumento da adesão à higiene das mãos de 48% para 66%, acompanhado de redução de infecções relacionadas à assistência à saúde e da transmissão de microrganismos como o MRSA.

Esse conjunto de evidências ajudou a consolidar um novo entendimento, que afirma que a higiene das mãos não depende apenas de conhecimento técnico, mas de mudança de comportamento institucional.

A partir desses resultados, a OMS estruturou a estratégia multimodal de segurança do paciente e consolidou os 5 Momentos para Higienização das Mãos, hoje adotados globalmente, que orientam a prática antes de tocar o paciente, antes de procedimentos limpos ou assépticos, após risco de exposição a fluidos corporais, após tocar o paciente e após contato com superfícies próximas ao paciente.

Mais do que um protocolo, uma cultura de segurança

Quando se fala em higiene das mãos, o desafio vai além da disponibilidade de produtos ou da existência de normas. O verdadeiro diferencial está na construção de uma cultura de segurança.

Isso significa transformar a prática em um hábito incorporado ao cotidiano de todos os profissionais, independentemente da função exercida. Também envolve treinamentos permanentes, monitoramento de indicadores e iniciativas que valorizem e reconheçam boas práticas dentro das instituições.

Hospitais que conseguem consolidar essa cultura apresentam melhores resultados assistenciais, menor incidência de infecções e mais segurança para pacientes e equipes.

O impacto na prática assistencial

Séries médicas como Grey’s Anatomy ajudaram a popularizar a imagem do hospital como um ambiente de alta tecnologia, decisões rápidas e procedimentos complexos. Mas, fora da ficção, uma das etapas mais decisivas para a segurança do paciente acontece em segundos e depende de um gesto simples: a higiene correta das mãos.

Na prática, uma única oportunidade perdida pode iniciar uma cadeia de transmissão. Em uma UTI, por exemplo, um profissional pode entrar em contato com um paciente colonizado por uma bactéria resistente, como o Staphylococcus aureus, e, sem higienizar corretamente as mãos, levar o microrganismo a cateteres, curativos ou equipamentos de outro paciente. A partir daí, ele pode alcançar a corrente sanguínea, feridas cirúrgicas ou o trato respiratório, resultando em infecções que aumentam a complexidade do tratamento e prolongam a internação.

O básico continua indispensável

Reduzir Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (IRAS) não depende apenas de conhecimento técnico, mas da capacidade de transformar uma prática simples em comportamento coletivo. A higiene das mãos precisa estar presente nos momentos certos, de forma consistente, mesmo em rotinas intensas, equipes sobrecarregadas e ambientes de alta pressão.

Esse compromisso exige treinamento contínuo, liderança ativa e valorização das boas práticas dentro das instituições. Quando lavar as mãos deixa de ser apenas uma orientação e passa a fazer parte da cultura de segurança, o impacto aparece na redução de riscos, na proteção das equipes e na recuperação mais segura dos pacientes.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que lavar as mãos ainda é uma das maiores armas da medicina?

Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Vamos falar sobre vendas?

Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Se o estagiário lidera a reunião, quem é o líder?

Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Inovação & estratégia
30 de julho de 2026 07H00
A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

21 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de julho de 2026 14H00
Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.

Átila Persici - COO da Bolder

8 minutos min de leitura
Liderança
29 de julho de 2026 07H00
Embora a presença feminina no mundo do trabalho tenha avançado de forma consistente nas últimas décadas, os desafios permanecem. Neste artigo, a autora propõe uma mudança de perspectiva: menos foco nos obstáculos e mais atenção às alavancas capazes de impulsionar transformações. Entre elas, destaca-se uma competência cada vez mais valiosa em tempos de incerteza: a capacidade de administrar paradoxos e liderar pela lógica do “E”, integrando eficiência e inovação, resultado e cuidado, racionalidade e sensibilidade.

Betania Tanure - PhD, Sócia fundadora da BTA, membro do Conselho de Administração do Magalu e da MRV e cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 14H00
Rampas, tecnologias assistivas e conformidade regulatória são apenas o ponto de partida da inclusão. Entre a conformidade técnica e a adoção real existe um elemento frequentemente negligenciado: a cultura. Este artigo explora como a Inteligência Cultural pode determinar o sucesso ou o fracasso de estratégias globais de inclusão.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor e Clara Choen - Fundadora da Savant Consulting

12 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 08H00
Inspirado pelo legado de Oscar Motomura, o artigo questiona uma das crenças mais difundidas da gestão contemporânea: a ideia de que a transformação acontece apenas por meio das pessoas. A verdadeira mudança, argumenta o autor, depende da capacidade de revisar as estruturas invisíveis que moldam comportamentos, decisões e culturas organizacionais.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
27 de julho de 2026 14H00
Após anos de perda de passageiros e desafios financeiros, o transporte coletivo brasileiro ganha um novo marco regulatório que busca ampliar fontes de financiamento, reduzir desequilíbrios tarifários e criar condições para mais investimentos em qualidade, eficiência e experiência do usuário.

Vinicius Ladeira - Diretor Adjunto Nacional do SEST SENAT

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
27 de julho de 2026 08H00
Enquanto o debate sobre inteligência artificial continua concentrado em modelos, automação e produtividade, uma outra transformação acontece nos bastidores: a tensão gerada entre a democratização e a concentração de poder que pode definir a próxima fase da economia global.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

8 minutos min de leitura
Liderança
26 de julho de 2026 13H00
Após décadas em grandes empresas, o autor trocou a segurança da carreira corporativa pelo desafio de empreender na gastronomia. Nesta reflexão, mostra por que os princípios que sustentam uma multinacional - planejamento, processos, gestão financeira e foco no cliente - são exatamente os mesmos que garantem o sucesso de um restaurante.

Caio Fontenelle - Fundador dos restaurantes Figueira, Oliv e Pepper Jack

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de julho de 2026 07H00
A IA pode economizar horas em atividades operacionais, mas seu maior valor talvez esteja em outro lugar: ampliar perspectivas, conectar ideias e elevar a qualidade das decisões. O desafio é entender quando estamos ganhando velocidade e quando estamos construindo algo melhor.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
25 de julho de 2026 14H00
Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo