Cultura organizacional

Por que precisamos falar sobre assédio no trabalho?

A violência nas organizações se apresenta de maneira velada e crescente. As empresas devem abrir espaços de discussão para desconstruir o desejo de poder, a manipulação e a afirmação hostil da hierarquia, além de ter um ambiente de acolhimento à vítima

Compartilhar:

A pergunta é meramente retórica, afinal, sabemos que há estatísticas contundentes apontando para o crescimento de casos em que comportamentos abusivos – leia-se: discriminatórios, humilhantes, ofensivos, intimidatórios, invasivos e violentos – são praticados reiteradamente por pessoas contra colegas (subordinados ou não), no ambiente de trabalho, provocando danos emocionais, morais, físicos e patrimoniais (quando resultam em demissão).

Curioso é que a naturalidade das ocorrências pode fazer com que a vítima demore a perceber-se assediada. Consequentemente, seus mecanismos de defesa ou acenos por ajuda não são acionados em prazo razoável para impedir o avanço da agressão.

Daí a necessidade de se falar, esmiuçar, discutir e reconhecer os possíveis engendramentos do assédio em circuitos profissionais, para que tenhamos clareza sobre o que queremos combater e como podemos fazer isso.

Como evidência hoje se entende um padrão introdutório do assédio no trabalho que se revela muito perverso e de difícil identificação, ou seja, inicialmente a relação entre assediador e vítima parece amistosa e até vinculante, mas não passa de manipulação.

Na sequência, a violência se apresenta de maneira velada e crescente, começando pela não-comunicação, para desestabilizar a vítima conforme se instala em estágios mais ou menos ordenados. Por exemplo:

– __Desprezo e invisibilidade:__ não cumprimentos, falta de cordialidade ou ausência de reação à presença da vítima.
– __Sarcasmo descontraído:__ críticas sutis, piadas, silenciamentos, boicotes e insinuações, que atraem risadinhas, como se fossem apenas brincadeiras.
– __Ridicularização:__ apelidos, intrigas, comentários vexatórios que causam vergonha.
– __Isolamento:__ pode ser físico, quando o local de trabalho é afastado dos demais, ou psicológico, quando as informações são negadas ou distorcidas propositalmente para induzir ao erro.

Neste estágio, a vítima vê a situação agravar-se e, por já estar saturada, quase sempre se defende com fúria, mas suas atitudes parecem desproporcionais para os outros. A sua energia está minada e o assediador se sente fortalecido para fazer ameaças e impor restrições.

O caráter insidioso do assédio é uma forma de perturbar a vítima e de confundir quem está próximo, criando um enredo que faz da vítima desacreditada, frágil e encurralada. Sem autoestima e esgotada.

Desse modo, podemos concluir que o assediador se compraz com o sofrimento da vítima à medida que vê seus objetivos sendo alcançados. Quais sejam:

– Desestabilização emocional.
– Submissão.
– Ataque à reputação profissional e pessoal.
– Destruição das conexões e inviabilização das redes de apoio.
– Abalo da autoconfiança, competência profissional e senso de empregabilidade.
– Obstrução à carreira com difamação e impeditivos dentro e fora da empresa.
– Entre outras possíveis “vantagens” que podem ser almejadas a partir da vulnerabilidade da vítima.

Estudos mostram que o assédio tem traços de perseguição, ódio e obsessão que precisam ser investigados e combatidos. Portanto, falar sobre assédio no trabalho não se restringe ao acolhimento às vítimas, é preciso também ter espaços de discussão para desconstruir o desejo de poder, a manipulação e a afirmação hostil da hierarquia. Muitos casos precisam de encaminhamento médico terapêutico.

Formar bons líderes, estruturar equipes diversas, inclusivas e funcionais e, principalmente, preconizar o respeito nos relacionamentos é importantíssimo para fomentar a cultura das relações saudáveis como antídoto ao assédio de qualquer natureza.

Recentemente, foi promulgada a lei 14.457/22 que versa sobre a obrigatoriedade de ações que combatam o assédio e a violência no ambiente profissional, que obriga empresas a incluir o tema em seus programas de prevenção.

É pela conscientização que devemos começar, pois sabemos que a falta dela vem adoecendo pessoas e instituições, causando males físicos e psíquicos, afastamentos, medicalização e o desfalque de profissionais capacitados.
Calar sobre este assunto não é mais uma opção.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Entre viralizar e ser lembrado: O que acontece quando o algoritmo assume a estratégia?

As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

Acordo Mercosul e União Europeia representa um novo ciclo de crescimento para o franchising brasileiro

A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura um novo cenário para as redes de franquias brasileiras. Com redução gradual de tarifas, acesso mais facilitado a tecnologias e insumos, além da possibilidade de expansão para novos mercados, o franchising passa a enxergar na internacionalização uma oportunidade concreta de crescimento. Ao mesmo tempo, a chegada de concorrentes europeus exigirá das marcas nacionais mais inovação, eficiência e capacidade de adaptação para competir em um ambiente cada vez mais globalizado.

As edtechs brasileiras aprenderam a crescer sem investimento. Mas até onde isso pode levá-las?

Dois terços das edtechs brasileiras nunca receberam investimento externo. Ainda assim, muitas já superaram a fase inicial, conquistaram clientes e validaram seus modelos de negócio. O artigo propõe uma reflexão sobre como a escassez de capital ajudou a formar startups mais resilientes e eficientes, ao mesmo tempo em que levanta uma questão estratégica para o próximo ciclo do setor: como transformar capacidade de sobrevivência em escala, internacionalização e crescimento sustentável.

Eleitor 70+: o valor do repertório em uma sociedade que envelhece

À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de repensar o papel da experiência nas organizações e na sociedade. Tomando o comportamento do eleitor 70+ como ponto de partida, o artigo questiona o que faz alguém continuar contribuindo quando já não é obrigado a fazê-lo e por que essa pode ser uma das perguntas mais importantes para empresas que desejam se preparar para a era da longevidade.

A publicidade não disputa mais audiência. Disputa atenção.

O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

7 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
28 de agosto de 2026 07H00
O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Ana Carolina Viana - Vice-Presidente de Operações Industriais da Braskem no Brasil

3 minutos min de leitura
Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo