Comunicação, Liderança
5 minutos min de leitura

Por que todos os líderes começaram a soar iguais?

A autenticidade virou commodity quando todo mundo aprendeu a soar autêntico do mesmo jeito. Este artigo explora como voz, vivência e consistência podem se tornar os principais diferenciais para líderes que desejam construir influência e confiança de forma genuína.
Economista, palestrante, estrategista de negócios e conselheira. Fundadora da Trama, consultoria estratégica focada no crescimento de negócios, já ajudou mais de 1.000 empresas e produtos a escalarem com inteligência e impacto real. Com passagens por organizações como Cubo Itaú, Stefanini e Liga Ventures, e conselheira de empresas em crescimento. Foi reconhecida pela Exame como uma das 10 profissionais mais influentes em Open Innovation no Brasil e pela Wired como uma das 50 pessoas multiplicadoras de criatividade.

Compartilhar:

Fui convidada a subir ao palco do Gramado Summit 2026 para trocar uma ideia com profissionais do mercado de comunicação e com lideranças que estavam na sala. O tema aparece em quase toda conversa estratégica que tenho tido com executivos brasileiros nos últimos meses, e ele cabe em uma frase incômoda: por que estamos todos soando iguais?

Não é só o executivo. Quando a gente começa a importar para as salas de reunião o jeito de comunicar que aprendeu nas redes sociais, e quando as próprias redes passam a usar a mesma camada de ferramentas para produzir conteúdo, o resultado fica previsível. Tudo começa a parecer com tudo. A head de marketing soa parecida com a CEO, que soa parecida com o consultor independente, que soa parecido com o palestrante, que soa parecido com o conselheiro. Todos vêm tomando referência do mesmo lugar, treinando o pensamento nos mesmos modelos, organizando a escrita na mesma estrutura.

Os números explicam o desconforto. Levantamentos recentes do Edelman Trust Barometer e da MIT Sloan Management Review apontam queda da confiança em comunicação institucional da ordem de 31% nos últimos dois anos, enquanto o volume de conteúdo de liderança publicado por dia em plataformas profissionais cresceu mais de 20 vezes desde 2023. Cresceu a oferta, encolheu a confiança. O mercado aprendeu rapidamente a soar inteligente mas sem precisar pensar, e está pagando o preço de coletivamente parecer igual.

A palavra que tem sido usada para isso é slop, uma gíria que veio do mundo de conteúdo e descreve um material que tem aparência de ideia mas não tem origem. Uma liderança publica um texto sobre cultura colaborativa, e na semana seguinte três outras publicam o mesmo argumento, com a mesma estrutura, o mesmo dado e o mesmo convite à reflexão no fim. A escrita ficou parecida porque a fonte de inspiração ficou parecida. Quando todo mundo treina a comunicação no mesmo modelo, com os mesmos prompts e a mesma curadoria de referências, o resultado fica igual. E quando todo mundo soa igual, ninguém se destaca.

Aqui é onde entra o que chamo de paradoxo da autenticidade. A autenticidade virou commodity. Quanto mais lideranças aprendem a soar autênticas, mais elas soam iguais. O movimento que prometia diferenciação acabou padronizando o discurso. A confiança que era construída por décadas de coerência entre o dito e o feito agora precisa ser construída em parágrafos cada vez mais curtos, em prazos cada vez mais apertados, com ferramentas que produzem texto antes que a pessoa termine de pensar.

O que tenho aprendido diariamente nas conversas com C-levels e grandes lideranças brasileiras, em especial nas que envolvem uso de IA e liderança, é que existem alguns sinais claros que separam o conteúdo que é de fato autoral do conteúdo que apenas parece ser autoral. Eu tenho chamado de framework dos 3Vs da autenticidade.

A primeira é Voz. Não é tom de voz, não é estilo, é o pequeno conjunto de palavras que você usa diferente de todo mundo, o jeito de construir a frase quando você está sob pressão, sem revisar, o sotaque, o ritmo, a cadência que carrega histórico. Um teste simples ajuda a perceber. Se um leitor que acompanha sua escrita reconhece um texto como seu antes mesmo de chegar na assinatura, você tem voz. Se ele só identifica a autoria depois de ler o seu nome no final, você ainda está alugando voz alheia.

A segunda é Vivência. É o que aconteceu com você que não aconteceu com a maioria. Pode ser um cliente difícil que mudou sua opinião sobre precificação, um conselho que recebeu há dez anos e que só fez sentido agora, uma falha pública que custou caro mas ensinou. Vivência não se inventa, não se gera por prompt e não se replica em lote. É a única matéria-prima que continua escassa em um mundo de oferta infinita de palavras.

A terceira é Volume. É a recorrência com que você aparece com voz e com vivência. Aparecer pouco e bem é mais raro do que aparecer muito e mal, mas o mercado da atenção exige a soma. Uma líder que aparece três vezes por ano com posicionamento claro vale muito mais do que uma líder que aparece toda semana com lugar comum, e ambas perdem para a líder que aparece toda semana com voz própria.

E o que as lideranças brasileiras estão fazendo com isso, na prática? Na maioria dos casos, terceirizando a comunicação para agências que terceirizam para ferramentas, e depois se queixando que a entrega parece feita por máquina. Parece feita por máquina porque foi. O problema não é a máquina, é a ausência de matéria-prima humana antes da máquina entrar. A tecnologia é boa em multiplicar o que existe, péssima em criar o que não foi vivido. Se a entrada é genérica, a saída é genérica em volume industrial.

Autenticidade deixou de ser diferencial decorativo e virou exigência operacional, que se desdobra nas conversas estratégicas, nas decisões sobre as marcas que lideramos e na cultura das organizações que tocamos. As empresas que ainda tratam a comunicação como tarefa de marketing vão continuar produzindo executivos parecidos, com confiança em queda e influência reduzida. As que entenderem que voz, vivência e volume são ativos estratégicos, e que precisam ser cultivados como se cultiva capital ou rede de relacionamento, vão sair do slop e voltar a serem ouvidas.

Compartilhar:

Economista, palestrante, estrategista de negócios e conselheira. Fundadora da Trama, consultoria estratégica focada no crescimento de negócios, já ajudou mais de 1.000 empresas e produtos a escalarem com inteligência e impacto real. Com passagens por organizações como Cubo Itaú, Stefanini e Liga Ventures, e conselheira de empresas em crescimento. Foi reconhecida pela Exame como uma das 10 profissionais mais influentes em Open Innovation no Brasil e pela Wired como uma das 50 pessoas multiplicadoras de criatividade.

Artigos relacionados

Por que a IA se tornou membro essencial em equipes de manutenção preditiva?

A evolução da manutenção preditiva está levando a inteligência artificial para além da detecção de falhas. Sistemas multiagentes especializados começam a atuar como apoio para diferentes perfis profissionais, conectando análises técnicas, indicadores operacionais e recomendações de ação em um único fluxo de trabalho. O resultado é uma tomada de decisão mais rápida, contextualizada e alinhada às necessidades da operação.

Estamos dispostos a arriscar o futuro da humanidade pelo resultado no curto prazo?

Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

O papel dos lubrificantes nos 70 anos da indústria automotiva no Brasil

A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Smart Sampa: vazamento de senhas expõe o desafio de proteger uma cidade monitorada por milhares de câmeras

O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

Inovação & estratégia
24 de outubro de 2026 08H00
Mais do que proteger ideias, a discussão convida empresas a construírem uma cultura em que o pioneirismo sirva de estímulo para novas criações, e não de atalho para replicar o trabalho de quem inovou primeiro.

Andrea Kohlrausch,- Presidente da Calçados Bibi

2 minutos min de leitura
Educação
23 de outubro de 2026 15H00
O artigo discute por que a personalização da aprendizagem exige ir além dos indicadores tradicionais e apresenta o conceito de Learner 360, uma proposta para construir uma visão mais integrada, dinâmica e significativa do aprendiz, capaz de apoiar decisões educacionais mais precisas e trajetórias de desenvolvimento verdadeiramente centradas no indivíduo.

Daniel Luzzi - Fundador e CEO da Cognita Learning Lab

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
23 de outubro de 2026 08H00
A IA vai tirar empregos ou reinventar o trabalho? A pergunta mais comum sobre inteligência artificial ainda gira em torno da substituição de empregos. O artigo propõe uma reflexão sobre o futuro das carreiras, questionando a estrutura tradicional das organizações e defendendo um modelo em que pessoas se concentram cada vez mais em criar, conectar, verificar e escalar, enquanto a IA assume grande parte das atividades operacionais.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura
Estratégia, Marketing & growth
22 de outubro de 2026 15H00
O artigo defende que a criatividade deixou de ser um recurso pontual para se tornar uma capacidade organizacional capaz de conectar tecnologia, inovação, cultura e estratégia, sustentando o crescimento contínuo e a relevância das empresas no longo prazo.

Thais Lima - Diretora da MarkUp

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
22 de outubro de 2026 08H00
O artigo explora como a colaboração entre montadoras, startups, centros de pesquisa e programas de fomento está acelerando a criação de soluções centradas na experiência humana, mostrando que o futuro da mobilidade será construído pela capacidade de conectar tecnologia, ecossistemas de inovação e necessidades reais da sociedade.

Ana Claudia Didier -

4 minutos min de leitura
Marketing, Estratégia
21 de outubro de 2026 12H00
Marca de empresa é criada, marca de lugar é descoberta. Os gestores corporativos têm muito o que aprender com o “place branding” sobre gerir algo que não tem dono

Caio Esteves

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de outubro de 2026 08H00
Os padrões abertos já permitem que uma credencial de competência seja lida em qualquer país. O que ela significa depende de quem constrói o trilho por onde ela passa. Europa e Ásia já fizeram essa escolha, e o Brasil tem todas as peças para fazer a sua.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por POK Brasil
8 minutos min de leitura
ESG, Liderança
20 de outubro de 2026 08H00
Ao celebrar 13 anos de atuação, o Grupo Mulheres do Brasil reafirma seu compromisso com a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e diversa. Mas sua trajetória revela um impacto que vai além das causas e dos projetos: a força de uma rede capaz de conectar mulheres, criar oportunidades, fortalecer vínculos e promover desenvolvimento pessoal e coletivo.

Alexandra Segantin - CEO do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de outubro de 2026 14H00
Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

11 minutos min de leitura
Estratégia
19 de outubro de 2026 08H00
Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento. Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

22 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução