Inovação & estratégia
6 minutos min de leitura

Produtividade ou profundidade? O que a IA realmente está entregando ao trabalho

A IA pode economizar horas em atividades operacionais, mas seu maior valor talvez esteja em outro lugar: ampliar perspectivas, conectar ideias e elevar a qualidade das decisões. O desafio é entender quando estamos ganhando velocidade e quando estamos construindo algo melhor.
Empreendedora, consultora e cofundadora da People Strat. Isabela conecta neurociência, comportamento e tecnologia para desenvolver pessoas e culturas mais humanas e inovadoras. Embaixadora de Inovação dos Hubs Learning Village e Porto Maravalley; e Top 3 Mulheres em Tecnologia pela Meta Ventures, acredita que aprender é o maior ato de liberdade e transformação.

Compartilhar:

Recentemente, estava eu fazendo pesquisas para escrever um artigo e me peguei trocando com a IA por um bom tempo enquanto buscava estudos, ampliava conexões entre o que eu já sabia e os achados da pesquisa e descobria perspectivas que não tinha considerado antes. Em algum momento, percebi que estava gastando mais tempo do que levaria se tivesse feito aquele percurso sozinha. Mas eu estava bem com tudo aquilo, porque o que estava saindo era diferente, mais fundamentado, com conexões que eu não teria feito sem a ferramenta.

Essa percepção me levou a questionar algo que ouço com bastante frequência: a ideia de que usar IA, por si só, significa ser mais produtivo. Essa afirmação circula com bastante confiança em eventos, posts e conversas que participo, mas pela minha experiência, ela é incompleta. Produtividade tem uma definição razoavelmente clara, trazida pelo economista francês François Quesnay, em 1766: a relação entre o que se produz e os recursos utilizados para isso. Na prática, ele definiu como a capacidade de fazer algo utilizando menos esforço, tempo ou matéria-prima. É com essa lente que vale olharmos para o que a IA realmente entrega, ou não entrega, para o nosso trabalho, entendendo que há, pelo menos, dois modos muito diferentes de usar IA, com resultados completamente diferentes.

O primeiro é o uso operacional: organizar e-mails, resumir documentos, estruturar uma ata, automatizar um fluxo repetitivo. Nesse modo, os dados confirmam o que a maioria das pessoas intuiu. Pesquisas do Federal Reserve de 2026 com executivos corporativos registraram uma economia média de 5,4% das horas de trabalho, cerca de 2 horas por semana, chegando a mais de 9 horas para usuários frequentes. Um estudo com funcionários de call center, conduzido por pesquisadores de Stanford e MIT, mostrou ganho de 14% em produtividade em tarefas bem definidas. Aqui, a equação clássica de produtividade se aplica: mais resultado, menos esforço, menos tempo.

O segundo modo funciona de outra forma. Quando uso IA para explorar novos pensamentos, novas ideias, para criticar um argumento, para expandir uma análise sobre um tema que estou desenvolvendo, ela não necessariamente economiza meu tempo. Na minha experiência ela me dá mais trabalho. Costumo imaginar assim: é como se eu entrasse na conversa com a IA com 8 peças de um dominó, que são meu repertório, minhas referências, minha perspectiva sobre aquele assunto. Ao trocar com a IA, ela expande as conexões entre essas peças e me devolve 16. Agora tenho mais para processar, depurar, refinar e questionar, novamente. O trabalho de trazer essas 16 peças de volta para algo com qualidade, visão crítica e autoria real é meu, não da ferramenta, e esse trabalho leva tempo. Às vezes mais tempo do que levaria se tivesse feito o percurso sozinha.

Nesse caso, o resultado é mais rico, mas o esforço e o tempo não diminuíram, pelo contrário, aumentaram. Pela definição que estabelecemos antes, isso não é ganho de produtividade no sentido clássico, concorda? Claro, se eu tivesse usado a IA de modo menos crítico, aceitando a primeira coisa que ela me retornasse, talvez, eu tivesse feito algo com menos tempo, mas será que “de forma certa”? Eis a questão. 

Um estudo publicado em março de 2026 na revista Organization Science, conduzido pela Harvard Business School em parceria com a BCG com 758 consultores, colocou nome nessa distinção de como a IA pode ser mais ou menos efetiva. Os pesquisadores chamaram de “fronteira irregular” o fenômeno que observaram: a IA é muito boa em algumas tarefas e limitada em outras, e essa fronteira é invisível para quem usa. Para tarefas bem dentro dessa fronteira, como escrever, estruturar ideias ou produzir análises com dados existentes, os consultores que usaram IA foram mais rápidos, produziram trabalho de melhor qualidade e concluíram mais tarefas. Para tarefas fora da fronteira, aquelas que exigem raciocínio causal complexo e julgamento contextual, quem usou IA foi 19% menos provável de produzir a solução correta do que quem trabalhou sem a ferramenta.

Um dos pesquisadores, Karim Lakhani, explica o que chamou de falha silenciosa da IA. Ela produziu respostas que pareciam corretas e completas, mas continham erros que os consultores não perceberam e não questionaram. Isso acontece porque a ferramenta não avisa quando está fora da sua zona de competência. Responde com a mesma aparente confiança dentro ou fora da fronteira. E quem assume que está sendo mais produtivo porque está usando IA pode estar, na prática, entregando resultados menos precisos.

Essa ilusão de eficiência também aparece nos dados de percepção de uma pesquisa da METR, publicada em maio de 2026 com 349 trabalhadores técnicos, que registrou que as pessoas se avaliam em média como 2 vezes mais eficazes e 3 vezes mais rápidas com IA. Os próprios pesquisadores alertam, porém, que estudos anteriores mostraram que as pessoas superestimam o efeito real da IA em até 40 pontos percentuais quando comparadas com experimentos de campo controlados. O que sentimos não é o que os dados medem.

Diante do cenário atual e destes resultados, penso que o problema não está em usar IA, mas sim em partir da premissa de que qualquer uso de IA vai resultar, necessariamente, em fazer algo melhor com menos esforço e tempo. E aqui o conceito de melhor é muito importante. Para tarefas operacionais, isso acontece. Para tarefas cognitivas e exploratórias, a equação é outra: a IA não reduz o tempo total, pode até aumentá-lo. O que ela faz é elevar o nível do resultado que você consegue produzir. Você não faz a mesma coisa mais rápido, você faz algo qualitativamente diferente, algo que não chegaria do mesmo jeito sem ela, e isso tem custo real de tempo e de esforço.

Seria, então, uma produtividade cognitiva: onde não fazemos algo com menos esforço absoluto, mas fazemos algo melhor com um esforço proporcionalmente muito menor do que seria necessário para chegar ao mesmo resultado sem a ferramenta. Você gasta mais tempo do que gastaria num uso operacional, mas gasta infinitamente menos do que precisaria para construir aquele mesmo resultado sem IA nenhuma. Pode parecer uma diferença sutil, mas quando essa distinção não está clara desde o início da tarefa, o risco é confiar rapidamente numa entrega que parece boa, mas não foi suficientemente questionada, o que é exatamente o que o experimento de Harvard e BCG documentou sobre a fronteira irregular.

Por isso, saber em qual tipo de tarefa você está antes de abrir a ferramenta pode ser, hoje, tão importante quanto saber usá-la. A pergunta que deixo para reflexão é: quando você avalia se a IA está tornando o seu trabalho mais produtivo, de qual produtividade você está falando?

Compartilhar:

Empreendedora, consultora e cofundadora da People Strat. Isabela conecta neurociência, comportamento e tecnologia para desenvolver pessoas e culturas mais humanas e inovadoras. Embaixadora de Inovação dos Hubs Learning Village e Porto Maravalley; e Top 3 Mulheres em Tecnologia pela Meta Ventures, acredita que aprender é o maior ato de liberdade e transformação.

Artigos relacionados

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

A meta não assusta. O comportamento do líder, às vezes, sim.

Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Onda de recuperações judiciais acende alerta

Quando uma grande empresa entra em recuperação judicial, os impactos não ficam restritos ao seu balanço. Fornecedores deixam de receber, investimentos são adiados, empregos ficam ameaçados e a atividade econômica perde força, criando um efeito dominó que alcança empresas e consumidores em todo o país.

Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
6 de setembro de 2026 15H00
Nem sempre a queda de engajamento está relacionada à falta de motivação individual. Muitas vezes, ela surge em ambientes onde as pessoas deixam de se sentir ouvidas, evitam discordar e aprendem que é mais seguro permanecer em silêncio.

Rodrigo Rovaris - Gerente de Gente & Gestão da Blendus

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Marketing & growth
6 de setembro de 2026 08h00
À medida que a produção de conteúdo se torna cada vez mais presente na vida profissional e pessoal, surge uma questão importante: estamos ampliando oportunidades ou naturalizando a ideia de que toda experiência, habilidade e momento da vida precisam ser convertidos em visibilidade, audiência e monetização?

Ingrid Spyker - sócia da Creator Economy

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
5 de setembro de 2026 14H00
A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Felipe Berneira - CEO da Pronnus Tecnologia

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
5 de setembro de 2026 08H00
À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
4 de setembro de 2026 14H00
A busca por equidade de gênero não se encerra quando as mulheres conquistam um assento nas mesas de decisão. Ela continua na forma como suas ideias são recebidas, valorizadas e transformadas em influência. Ao discutir comunicação, liderança e protagonismo, o artigo mostra por que fortalecer a voz feminina é também uma estratégia para ampliar diversidade, inovação e resultados nas organizações.

Juliana Algodoal - PhD em Análise do Discurso e especialista em comunicação corporativa

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
4 de setembro de 2026 08H00
As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

Juliana Bezerra - Líder de conteúdo na DEA Design

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Direito, Regulação & Compliance
3 de setembro de 2026 18H00
A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura um novo cenário para as redes de franquias brasileiras. Com redução gradual de tarifas, acesso mais facilitado a tecnologias e insumos, além da possibilidade de expansão para novos mercados, o franchising passa a enxergar na internacionalização uma oportunidade concreta de crescimento. Ao mesmo tempo, a chegada de concorrentes europeus exigirá das marcas nacionais mais inovação, eficiência e capacidade de adaptação para competir em um ambiente cada vez mais globalizado.

Camila Nicolau - Advogada especialista em Direito Empresarial e Contratual

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Marketing & growth
3 de setembro de 2026 14H00
Dois terços das edtechs brasileiras nunca receberam investimento externo. Ainda assim, muitas já superaram a fase inicial, conquistaram clientes e validaram seus modelos de negócio. O artigo propõe uma reflexão sobre como a escassez de capital ajudou a formar startups mais resilientes e eficientes, ao mesmo tempo em que levanta uma questão estratégica para o próximo ciclo do setor: como transformar capacidade de sobrevivência em escala, internacionalização e crescimento sustentável.

Claudia Schulz - CEO da ABStartups

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
3 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a pergunta mais importante já não é qual solução de IA adotar, mas quem está definindo os limites, os objetivos e as regras de uso dessa tecnologia dentro da organização.

Erick Rezende - Diretor de Delivery na Cognitivo AI

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
2 de setembro de 2026 14H00
À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de repensar o papel da experiência nas organizações e na sociedade. Tomando o comportamento do eleitor 70+ como ponto de partida, o artigo questiona o que faz alguém continuar contribuindo quando já não é obrigado a fazê-lo e por que essa pode ser uma das perguntas mais importantes para empresas que desejam se preparar para a era da longevidade.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução