Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
8 minutos min de leitura

Quando a inteligência fica barata, o seu modelo de negócio entra em risco

Dentro dos bilhões investidos em IA existe uma única aposta: a de que a inteligência vai deixar de ser escassa. Se ela se confirmar, não vai apenas cortar os seus custos. Vai dissolver os fossos competitivos sobre os quais as partes mais lucrativas da sua empresa foram construídas, muitas vezes sem ninguém perceber.
Executivo, empreendedor, palestrante e líder inovador com mais de 20 anos de experiência transformando negócios no Brasil e no exterior. Atua como COO da Bolder, onde lidera operações estratégicas e entrega soluções disruptivas em inovação corporativa, cultura organizacional e transformação digital. Professor no MBA e Pós-Tech da FIAP, mentor na ABStartups, e Conselheiro de Inovação Certificado pela GoNew, é referência em unir estratégia e prática para impulsionar empresas e profissionais a alcançarem resultados extraordinários. Graduado em Administração Mercadológica com Especialização em Gestão de Marcas pela ESPM/SP, especialização em Gestão Estratégica e Econômica de Empresas pela FGV/SP e MBA em Business Innovation pela FIAP/SP, combina formação acadêmica de excelência com uma sólida trajetória profissional. Foi LinkedIn Community Top Voice em Cultura

Compartilhar:

Existe uma conta simples por trás dos números que dominaram as manchetes nas últimas semanas. A corrida de aberturas de capital da inteligência artificial, com laboratórios buscando avaliações perto de um trilhão de dólares, e o mais de um trilhão de dólares em investimento comprometido pela indústria até 2027, repousa sobre uma aposta só.1 Não é a aposta de que a IA será útil. É a de que a inteligência vai deixar de ser escassa.

E essa aposta já está ganhando.

Segundo o AI Index 2025, da Universidade Stanford, o custo de processar um milhão de tokens com um modelo no nível do GPT-3.5 caiu de US$ 20 em novembro de 2022 para US$ 0,07 em outubro de 2024. Uma queda de mais de 280 vezes em cerca de 18 meses.2 Dependendo da tarefa, os preços caíram entre 9 e 900 vezes por ano.3 Sam Altman, da OpenAI, resumiu para onde isso aponta com uma frase que vale reler: estamos perto de entregar inteligência “barata demais para medir”.4

Pode soar como entusiasmo de quem vende a tecnologia. Mas o ponto não é se ele acerta o destino. O ponto é a direção, e ela é inequívoca: o insumo que por duas décadas foi escasso e caro, a cognição, está virando commodity abundante.

E é aqui que a maioria dos executivos erra a leitura. Trata isso como notícia de custo (“vou economizar”). É muito mais do que isso. Quando o preço de um insumo antes escasso desaba, ele não mexe só na sua planilha. Ele dissolve os fossos competitivos que foram erguidos sobre aquela escassez.

A pergunta que define os próximos anos não é “como eu uso IA”. É outra, e quase ninguém está fazendo: quanto da minha margem, hoje, é um pedágio sobre uma inteligência que está deixando de ser cara?


Quanto da sua margem é escassez disfarçada

Pare para olhar o seu próprio modelo de negócio com honestidade. Boa parte do que as empresas cobram é, no fundo, um pedágio sobre cognição cara. A consultoria fatura a hora do cérebro escasso. A advocacia, idem. Agências, casas de pesquisa, áreas inteiras de análise e de assessoria vendem, em última instância, o tempo de pessoas capazes de pensar bem sobre um problema. Dentro das próprias empresas, camadas de estrutura existem para produzir e interpretar informação. Tudo isso foi precificado num mundo onde pensar com qualidade era caro e raro.

Quando a cognição fica barata, a disposição a pagar por “uma hora de raciocínio” começa a erodir. Não da noite para o dia, e não em tudo. Os ganhos hoje são reais, porém concentrados em tarefas específicas, como suporte e desenvolvimento de software.5 Mas a pressão é direcional e composta: a cada queda de preço, mais um pedaço do que antes era defensável vira commodity.

A indústria comprometeu mais de um trilhão de dólares apostando que a inteligência ficará abundante. Se ela estiver certa, o ativo que muitas empresas mais protegem, o conhecimento caro de poucas pessoas, é exatamente o que vai perder valor.


Commoditização não destrói valor. Ela o desloca.

Aqui está a parte que separa o pânico da estratégia. Quando uma camada de um mercado vira commodity, o valor não evapora. Ele migra para a camada adjacente que ainda é escassa. Clayton Christensen chamou isso de lei da conservação dos lucros atraentes. Foi o que aconteceu com a internet: ela tornou a informação abundante, e o valor migrou para quem controlava a atenção, a distribuição e a confiança.

Com a IA, o roteiro se repete em outra camada. Se a cognição vira abundante, o valor migra para o que continua escasso quando pensar é barato: dados proprietários e contexto que ninguém mais tem, distribuição e relacionamento, confiança e responsabilização (quem responde pela decisão quando ela dá errado), e o julgamento humano sob ambiguidade, o discernimento, o gosto. É por isso que cultura e pessoas deixam de ser “tema de RH” e viram o centro da estratégia: num mundo de cognição barata, o ativo escasso e defensável volta a ser profundamente humano e organizacional. A empresa que tratar isso como custo a cortar está demolindo justamente o que vai sobrar de valioso.

Repare que, até aqui, isso soa como um problema de quem vende serviços, e o encaixe é mesmo mais direto em consultoria, advocacia, agências e pesquisa, onde a cognição não é insumo, é o próprio produto. Mas a dinâmica chega à economia real por outro caminho, e com o sinal invertido. Na indústria, a cognição costuma ser fração pequena do custo, e os fossos nunca foram erguidos sobre ela. Foram erguidos sobre átomos: capital intensivo, escala física, concessões e licenças, acesso a recurso, logística, relação de cadeia. Inteligência barata não constrói uma planta nem move minério. Então, se a cognição vira commodity em toda a economia, o valor migra para o que ela não comoditiza, e boa parte disso é físico. Em serviços, a inteligência barata tende a derreter o seu produto. Na indústria, ela pode revalorizar os seus átomos. A economia real pode ser, contra a intuição do momento, uma ganhadora relativa desse barateamento.

Com uma ressalva que separa os atentos dos confiantes. Onde o fosso industrial era, no fundo, cognição disfarçada de excelência operacional (o ciclo de P&D, a formulação química, a otimização que vivia na cabeça de um operador-mestre), ele derrete igual ao de serviços, e um concorrente menor com descoberta acelerada por IA passa a brigar de igual para igual com o gigante. E a camada de inteligência que se monta sobre o ativo físico, como manutenção preditiva, otimização como serviço ou contrato por resultado, só vira fosso de verdade se o que a sustenta for o dado proprietário da base instalada, e não o algoritmo, que já é commodity. Na indústria, o defensável passou a ser dado mais ativo, não IA.


A janela de arbitragem é curta

Existe um lucro extraordinário disponível agora, e ele tem prazo de validade. Quem se move primeiro captura a diferença entre os preços de ontem (fixados quando a inteligência era cara) e os custos de hoje (em colapso). É arbitragem pura: entregar o mesmo resultado por uma fração do custo, e por um tempo ainda cobrar perto do preço antigo. Quem se move por último encontra a margem já competida, repassada ao cliente por um concorrente mais rápido. A janela não fica aberta esperando o seu comitê deliberar.


O que fazer

Movimento 1: Audite seus fossos com uma pergunta só

Para cada fonte de margem da sua empresa, faça uma pergunta desconfortável: isso é defensável porque é difícil, ou porque é caro? O que é difícil (relações construídas em anos, confiança, execução impecável, dados proprietários, marca) sobrevive ao barateamento da inteligência. O que é apenas caro (produzir um raciocínio que agora qualquer um produz por centavos) tende a evaporar. Esse é o filtro. Aplique-o linha a linha na sua estrutura de receita e você verá, com clareza incômoda, o que está exposto.

Movimento 2: Realoque do que barateia para o que escasseia

Pare de investir energia em produzir cognição mais barata. O mercado fará isso por você, de graça e mais rápido. Redirecione capital e atenção para os complementos que ficam escassos quando a inteligência não é mais o gargalo: acumular dados proprietários, fortalecer distribuição e confiança, e desenvolver a camada humana de julgamento que a máquina não substitui. É uma troca de ativo estratégico, não um corte de custo.

Movimento 3: Reprecifique antes que o mercado reprecifique você

Se o seu modelo cobra pela hora de um cérebro, o relógio virou seu inimigo. Conforme o custo da hora pensante desaba, cobrar por tempo é cobrar por algo que está deflacionando. Migre para preço por resultado ou por valor entregue, ancorado no que o cliente ganha, não nas horas que você gasta. Quem não fizer essa transição vai ver alguém repassar o colapso de custo ao cliente, e levar a conta junto.


A pergunta que fica

A posição mais perigosa não é ser desbancado pela IA. É descobrir, tarde, que o que você cobrava nunca foi o pensamento em si, mas o fato de que pensar bem era escasso. As empresas que vão prosperar nos próximos anos não serão as que têm mais IA. Serão as que descobrirem mais rápido o que continua valendo caro quando a inteligência fica barata.

A pergunta que proponho para a próxima reunião de liderança não é “qual IA vamos adotar?”. É: se a inteligência ficar barata demais para medir, o que, na nossa empresa, continua valendo caro?

Se a resposta levar mais do que alguns segundos para vir, você acabou de identificar a auditoria mais urgente do seu ano.

Fontes Consultadas

  1. Investing.com / análise de mercado, 2026. Capex de hyperscalers comprometido (acima de US$ 1 trilhão até 2027) e a corrida de IPOs da IA. investinginai.substack.com
  2. Stanford HAI, The 2025 AI Index Report. Custo de inferência no nível do GPT-3.5 caiu de US$ 20 para US$ 0,07 por milhão de tokens (mais de 280x). hai.stanford.edu
  3. Stanford HAI, 2025 AI Index, Research and Development. Preços de inferência caíram entre 9 e 900 vezes por ano, conforme a tarefa. hai.stanford.edu
  4. Fortune, jul. 2025. Sam Altman no Federal Reserve: inteligência “barata demais para medir” e custo caindo cerca de 10x ao ano. fortune.com
  5. Goldman Sachs Research, mar. 2026. Ganhos de produtividade da ordem de 30% concentrados em tarefas específicas (suporte e software). usrecessionnews.com

Compartilhar:

Executivo, empreendedor, palestrante e líder inovador com mais de 20 anos de experiência transformando negócios no Brasil e no exterior. Atua como COO da Bolder, onde lidera operações estratégicas e entrega soluções disruptivas em inovação corporativa, cultura organizacional e transformação digital. Professor no MBA e Pós-Tech da FIAP, mentor na ABStartups, e Conselheiro de Inovação Certificado pela GoNew, é referência em unir estratégia e prática para impulsionar empresas e profissionais a alcançarem resultados extraordinários. Graduado em Administração Mercadológica com Especialização em Gestão de Marcas pela ESPM/SP, especialização em Gestão Estratégica e Econômica de Empresas pela FGV/SP e MBA em Business Innovation pela FIAP/SP, combina formação acadêmica de excelência com uma sólida trajetória profissional. Foi LinkedIn Community Top Voice em Cultura

Artigos relacionados

O engajamento não nasce das pessoas. Nasce do ambiente.

Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Aprendi que até no Japão as mulheres conseguem quebrar regras

Convidada pelo governo japonês para participar da primeira Convenção de Mulheres realizada no Japão, Chieko Aoki conta como uma experiência inesperada revelou a força da colaboração feminina e o impacto das redes de apoio na construção de lideranças.

Da produção à curadoria: a nova lógica da relevância digital

O avanço dos vídeos curtos, dos criadores digitais e da inteligência artificial transformou a forma como consumimos informação e entretenimento. O desafio das empresas agora não é apenas alcançar audiências, mas construir confiança, interpretar comportamentos e criar experiências capazes de permanecer na memória das pessoas.

Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de julho de 2026 08H00
Robôs humanoides deixaram de ser protótipo e entraram em produção comercial em série. Enquanto conselhos ainda debatem a IA generativa, a automação física avança sem esperar. O atraso não aparece no balanço, mas se acumula como dívida de reação.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Empreendedorismo
15 de julho de 2026 15H00
Construído sobre a área que durante décadas abrigou a fábrica e a recreativa da Tigre, o Cidade das Águas nasceu de uma pergunta pouco comum ao mercado imobiliário: antes de erguer torres, que tipo de bairro vale a pena construir?

Sandra Regina da Silva - Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios

12 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth, User Experience, UX
15 de julho de 2026 08H00
Enquanto a IA assume processos, diagnósticos e tarefas repetitivas, cresce a importância de competências exclusivamente humanas. O desafio das lideranças não é automatizar mais, mas decidir onde a presença humana gera valor que nenhuma tecnologia consegue reproduzir plenamente.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
14 de julho de 2026 18H00
Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

16 minutos min de leitura
Lifelong learning, Estratégia, Marketing & growth
14 de julho de 2026 14H00
Este artigo mostra como os eventos corporativos se tornaram ambientes estratégicos de inteligência coletiva, capazes de ampliar repertório, antecipar tendências e reduzir incertezas para líderes e organizações.

Sidnei Metzner - Gestor nacional de vendas da WK

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
14 de julho de 2026 08H00
Enquanto a longevidade transforma a composição da sociedade e do mercado de trabalho, muitas organizações continuam operando com modelos de gestão construídos para uma realidade demográfica que já não existe. Este artigo discute o conceito que desafia o jovem-centrismo corporativo e convida líderes a repensarem o valor da experiência, da diversidade geracional e da longevidade nas empresas.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora nas áreas de Diversidade Geracional, Etarismo e Longevidade

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de julho de 2026 14H00
Dados mostram o avanço da solidão no ambiente de trabalho, especialmente entre profissionais remotos. O texto propõe uma reflexão sobre como relações de confiança, segurança psicológica e capacidade de convivência se tornaram ativos estratégicos para a saúde organizacional.

Daniela Cais - Designer de Relações Profissionais, TEDx Speaker, Mentora de Comunicação para Carreiras e Negócios

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
13 de julho de 2026 08H00
Durante décadas, empresas competiram por telas, cliques e atenção. Agora, à medida que agentes inteligentes passam a interpretar intenções e executar tarefas, o valor começa a migrar para outro lugar: dados, contexto e capacidade de decisão.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

7 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, User Experience, UX
12 de julho de 2026 13H00
Durante décadas, o mercado tratou a satisfação do cliente como prioridade absoluta. Este artigo questiona os limites dessa lógica e mostra como a normalização de abusos, agressões e desgastes emocionais está afetando a saúde mental dos trabalhadores e comprometendo a própria cultura das organizações.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
12 de julho de 2026 08H00
Em um mundo onde quase tudo pode ser comprado, o verdadeiro luxo deixou de ser exclusividade e passou a ser simplicidade. Este artigo mostra por que as empresas mais valiosas da próxima década serão aquelas capazes de eliminar complexidade, reduzir decisões e transformar experiência em significado.

Bruno Mazanek - CEO da Zanek

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo