Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
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Quando a inteligência fica barata, o seu modelo de negócio entra em risco

Dentro dos bilhões investidos em IA existe uma única aposta: a de que a inteligência vai deixar de ser escassa. Se ela se confirmar, não vai apenas cortar os seus custos. Vai dissolver os fossos competitivos sobre os quais as partes mais lucrativas da sua empresa foram construídas, muitas vezes sem ninguém perceber.
Conselheiro, consultor de gestão estratégica, professor no MBA e no Pós-Tech da FIAP, mentor na ABStartups e Professional Services Director na Bolder. Coautor de "Governança Estratégica da Inovação: Liderando a Revolução Digital". Graduado em Administração Mercadológica com especialização em Gestão de Marcas (ESPM), MBA em Gestão Estratégica e Econômica de Empresas (FGV) e MBA em Business Innovation (FIAP).

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Existe uma conta simples por trás dos números que dominaram as manchetes nas últimas semanas. A corrida de aberturas de capital da inteligência artificial, com laboratórios buscando avaliações perto de um trilhão de dólares, e o mais de um trilhão de dólares em investimento comprometido pela indústria até 2027, repousa sobre uma aposta só.1 Não é a aposta de que a IA será útil. É a de que a inteligência vai deixar de ser escassa.

E essa aposta já está ganhando.

Segundo o AI Index 2025, da Universidade Stanford, o custo de processar um milhão de tokens com um modelo no nível do GPT-3.5 caiu de US$ 20 em novembro de 2022 para US$ 0,07 em outubro de 2024. Uma queda de mais de 280 vezes em cerca de 18 meses.2 Dependendo da tarefa, os preços caíram entre 9 e 900 vezes por ano.3 Sam Altman, da OpenAI, resumiu para onde isso aponta com uma frase que vale reler: estamos perto de entregar inteligência “barata demais para medir”.4

Pode soar como entusiasmo de quem vende a tecnologia. Mas o ponto não é se ele acerta o destino. O ponto é a direção, e ela é inequívoca: o insumo que por duas décadas foi escasso e caro, a cognição, está virando commodity abundante.

E é aqui que a maioria dos executivos erra a leitura. Trata isso como notícia de custo (“vou economizar”). É muito mais do que isso. Quando o preço de um insumo antes escasso desaba, ele não mexe só na sua planilha. Ele dissolve os fossos competitivos que foram erguidos sobre aquela escassez.

A pergunta que define os próximos anos não é “como eu uso IA”. É outra, e quase ninguém está fazendo: quanto da minha margem, hoje, é um pedágio sobre uma inteligência que está deixando de ser cara?


Quanto da sua margem é escassez disfarçada

Pare para olhar o seu próprio modelo de negócio com honestidade. Boa parte do que as empresas cobram é, no fundo, um pedágio sobre cognição cara. A consultoria fatura a hora do cérebro escasso. A advocacia, idem. Agências, casas de pesquisa, áreas inteiras de análise e de assessoria vendem, em última instância, o tempo de pessoas capazes de pensar bem sobre um problema. Dentro das próprias empresas, camadas de estrutura existem para produzir e interpretar informação. Tudo isso foi precificado num mundo onde pensar com qualidade era caro e raro.

Quando a cognição fica barata, a disposição a pagar por “uma hora de raciocínio” começa a erodir. Não da noite para o dia, e não em tudo. Os ganhos hoje são reais, porém concentrados em tarefas específicas, como suporte e desenvolvimento de software.5 Mas a pressão é direcional e composta: a cada queda de preço, mais um pedaço do que antes era defensável vira commodity.

A indústria comprometeu mais de um trilhão de dólares apostando que a inteligência ficará abundante. Se ela estiver certa, o ativo que muitas empresas mais protegem, o conhecimento caro de poucas pessoas, é exatamente o que vai perder valor.


Commoditização não destrói valor. Ela o desloca.

Aqui está a parte que separa o pânico da estratégia. Quando uma camada de um mercado vira commodity, o valor não evapora. Ele migra para a camada adjacente que ainda é escassa. Clayton Christensen chamou isso de lei da conservação dos lucros atraentes. Foi o que aconteceu com a internet: ela tornou a informação abundante, e o valor migrou para quem controlava a atenção, a distribuição e a confiança.

Com a IA, o roteiro se repete em outra camada. Se a cognição vira abundante, o valor migra para o que continua escasso quando pensar é barato: dados proprietários e contexto que ninguém mais tem, distribuição e relacionamento, confiança e responsabilização (quem responde pela decisão quando ela dá errado), e o julgamento humano sob ambiguidade, o discernimento, o gosto. É por isso que cultura e pessoas deixam de ser “tema de RH” e viram o centro da estratégia: num mundo de cognição barata, o ativo escasso e defensável volta a ser profundamente humano e organizacional. A empresa que tratar isso como custo a cortar está demolindo justamente o que vai sobrar de valioso.

Repare que, até aqui, isso soa como um problema de quem vende serviços, e o encaixe é mesmo mais direto em consultoria, advocacia, agências e pesquisa, onde a cognição não é insumo, é o próprio produto. Mas a dinâmica chega à economia real por outro caminho, e com o sinal invertido. Na indústria, a cognição costuma ser fração pequena do custo, e os fossos nunca foram erguidos sobre ela. Foram erguidos sobre átomos: capital intensivo, escala física, concessões e licenças, acesso a recurso, logística, relação de cadeia. Inteligência barata não constrói uma planta nem move minério. Então, se a cognição vira commodity em toda a economia, o valor migra para o que ela não comoditiza, e boa parte disso é físico. Em serviços, a inteligência barata tende a derreter o seu produto. Na indústria, ela pode revalorizar os seus átomos. A economia real pode ser, contra a intuição do momento, uma ganhadora relativa desse barateamento.

Com uma ressalva que separa os atentos dos confiantes. Onde o fosso industrial era, no fundo, cognição disfarçada de excelência operacional (o ciclo de P&D, a formulação química, a otimização que vivia na cabeça de um operador-mestre), ele derrete igual ao de serviços, e um concorrente menor com descoberta acelerada por IA passa a brigar de igual para igual com o gigante. E a camada de inteligência que se monta sobre o ativo físico, como manutenção preditiva, otimização como serviço ou contrato por resultado, só vira fosso de verdade se o que a sustenta for o dado proprietário da base instalada, e não o algoritmo, que já é commodity. Na indústria, o defensável passou a ser dado mais ativo, não IA.


A janela de arbitragem é curta

Existe um lucro extraordinário disponível agora, e ele tem prazo de validade. Quem se move primeiro captura a diferença entre os preços de ontem (fixados quando a inteligência era cara) e os custos de hoje (em colapso). É arbitragem pura: entregar o mesmo resultado por uma fração do custo, e por um tempo ainda cobrar perto do preço antigo. Quem se move por último encontra a margem já competida, repassada ao cliente por um concorrente mais rápido. A janela não fica aberta esperando o seu comitê deliberar.


O que fazer

Movimento 1: Audite seus fossos com uma pergunta só

Para cada fonte de margem da sua empresa, faça uma pergunta desconfortável: isso é defensável porque é difícil, ou porque é caro? O que é difícil (relações construídas em anos, confiança, execução impecável, dados proprietários, marca) sobrevive ao barateamento da inteligência. O que é apenas caro (produzir um raciocínio que agora qualquer um produz por centavos) tende a evaporar. Esse é o filtro. Aplique-o linha a linha na sua estrutura de receita e você verá, com clareza incômoda, o que está exposto.

Movimento 2: Realoque do que barateia para o que escasseia

Pare de investir energia em produzir cognição mais barata. O mercado fará isso por você, de graça e mais rápido. Redirecione capital e atenção para os complementos que ficam escassos quando a inteligência não é mais o gargalo: acumular dados proprietários, fortalecer distribuição e confiança, e desenvolver a camada humana de julgamento que a máquina não substitui. É uma troca de ativo estratégico, não um corte de custo.

Movimento 3: Reprecifique antes que o mercado reprecifique você

Se o seu modelo cobra pela hora de um cérebro, o relógio virou seu inimigo. Conforme o custo da hora pensante desaba, cobrar por tempo é cobrar por algo que está deflacionando. Migre para preço por resultado ou por valor entregue, ancorado no que o cliente ganha, não nas horas que você gasta. Quem não fizer essa transição vai ver alguém repassar o colapso de custo ao cliente, e levar a conta junto.


A pergunta que fica

A posição mais perigosa não é ser desbancado pela IA. É descobrir, tarde, que o que você cobrava nunca foi o pensamento em si, mas o fato de que pensar bem era escasso. As empresas que vão prosperar nos próximos anos não serão as que têm mais IA. Serão as que descobrirem mais rápido o que continua valendo caro quando a inteligência fica barata.

A pergunta que proponho para a próxima reunião de liderança não é “qual IA vamos adotar?”. É: se a inteligência ficar barata demais para medir, o que, na nossa empresa, continua valendo caro?

Se a resposta levar mais do que alguns segundos para vir, você acabou de identificar a auditoria mais urgente do seu ano.

Fontes Consultadas

  1. Investing.com / análise de mercado, 2026. Capex de hyperscalers comprometido (acima de US$ 1 trilhão até 2027) e a corrida de IPOs da IA. investinginai.substack.com
  2. Stanford HAI, The 2025 AI Index Report. Custo de inferência no nível do GPT-3.5 caiu de US$ 20 para US$ 0,07 por milhão de tokens (mais de 280x). hai.stanford.edu
  3. Stanford HAI, 2025 AI Index, Research and Development. Preços de inferência caíram entre 9 e 900 vezes por ano, conforme a tarefa. hai.stanford.edu
  4. Fortune, jul. 2025. Sam Altman no Federal Reserve: inteligência “barata demais para medir” e custo caindo cerca de 10x ao ano. fortune.com
  5. Goldman Sachs Research, mar. 2026. Ganhos de produtividade da ordem de 30% concentrados em tarefas específicas (suporte e software). usrecessionnews.com

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Conselheiro, consultor de gestão estratégica, professor no MBA e no Pós-Tech da FIAP, mentor na ABStartups e Professional Services Director na Bolder. Coautor de "Governança Estratégica da Inovação: Liderando a Revolução Digital". Graduado em Administração Mercadológica com especialização em Gestão de Marcas (ESPM), MBA em Gestão Estratégica e Econômica de Empresas (FGV) e MBA em Business Innovation (FIAP).

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