Diversidade

Teto e chão de vidro: barreiras culturais para lideranças femininas

O reconhecimento integral de mulheres nos ambientes de negócios deve acompanhar uma verdadeira evolução cultural que valoriza a equidade de gênero na sociedade
É uma das lideranças femininas do Grupo Anga&Din4mo, atuando como CEO da Tribo Global, consultoria que acredita no potencial de evoluir a cultura dos negócios para, assim, evoluir a cultura da sociedade. Também atua como embaixadora do Capitalismo Consciente Brasil, professora no MBA de Gestão Exponencial da Xpeed e foi palestrante no TEDx UFOP e TEDx Laçador.

Compartilhar:

Você já parou para pensar como a cultura organizacional influencia no desenvolvimento e ascensão de mais [lideranças femininas](https://www.revistahsm.com.br/post/da-equidade-de-genero-a-lideranca-feminina)? E como numa sociedade que precisa encarar o desafio de buscar uma maior equidade de gênero, a cultura pode apresentar barreiras que dificultam a trajetória profissional de mulheres?

A consciência dessas barreiras é fundamental para reverter os desafios de visibilidade, empoderamento e igual participação que, de acordo com a socióloga Sylvia Walby, são elementos chave no conceito de igualdade de gênero.

Um estudo Female Founders evidencia esse cenário, em especial no contexto empreendedor. Os dados mostram que entre empresas tradicionais, 46,2% são fundadas por mulheres. No entanto, entre startups brasileiras, apenas 4,7% foram fundadas exclusivamente por mulheres, e 5,1% por mulheres e homens.

Evoluir a cultura dos negócios é uma forma de evoluir a cultura da sociedade. Se reconhecermos esses padrões culturais que hoje reproduzem resultados indesejados como a falta de representatividade e a [cultura do silêncio](https://news.triboglobal.com.br/culturadosilencio), poderemos redesenhar a estrutura que sustenta a cultura de modo a torná-la mais diversa e inclusiva. Vamos nessa?

Para começar a reconhecer esses padrões é preciso:

__1.__ Observar com atenção o que acontece em volta;

__2.__ Escutar de modo ativo e empático;

__3.__ Acolher, de forma construtiva, as emoções que vierem.

## Teto de vidro

Ao longo das suas carreiras, ao progredir para papéis de liderança, as mulheres encontram o famoso teto de vidro (glass ceiling, em inglês): barreiras invisíveis que as impedem de alcançar posições de liderança.

Embora sejam difíceis de ver, com um olhar atento é possível reconhecer algumas crenças limitantes e tensões culturais, como a maternidade, a carga mental, a visão de um estilo único de liderança heroica e, com uma energia masculina mais acentuada, a desvalorização de aspectos e valores femininos.

Fora isso, [algumas análises](https://hbrbr.com.br/por-que-a-autoconsciencia-nao-e-mais-benefica-a-carreira-das-mulheres/) apontam que as mulheres não recebem feedbacks de boa qualidade, apesar de pedirem por feedback tanto quanto os homens.

Essas barreiras são aprendidas desde a sua educação e, por isso, muitas mulheres interiorizam boa parte dessas crenças, acreditando que precisam preencher 100% dos requisitos de uma vaga antes de ocupá-la, diferentemente dos homens que se sentem completamente prontos mesmo que preencham apenas uma parte dos mesmos critérios.

Dentro desses estudos, entendemos que algumas barreiras são diferentes do que imaginamos. Por exemplo, é comum enxergarmos uma barreira de baixa autoestima nas mulheres. Porém, não se trata da falta de autoconfiança em si, relata a análise. Existe, na realidade, uma desconfiança sobre como os outros valorizam ou não as [contribuições femininas](https://www.revistahsm.com.br/post/reservado-para-a-cadeira-feminina).

Esses tetos de vidro não são intransponíveis. Ainda bem, pois vemos cada vez mais mulheres quebrando e ressignificando essas crenças. No entanto, junto à força das mulheres para seguirem em frente, apesar de qualquer barreira que encontrem pelo caminho, é preciso endereçar esses desafios de forma estrutural. Apenas assim será possível que as culturas se tornem cada vez mais diversas e inclusivas, potencializando a equidade de gênero.

## Chão de vidro

Ao mesmo tempo, é importante saber que, uma vez que chegam lá, muitas dessas mulheres enfrentam o fenômeno do chão de vidro. Trata-se de uma estrutura muito frágil que não permite uma segurança psicológica, uma vez que estão na liderança. O chão de vidro significa que uma mulher será cobrada mais e mais cedo por demonstrar resultados e que, qualquer deslize que aconteça, pode ser definitivo para a sua carreira.

Um artigo do aplicativo *[She’s the boss ](https://app.shestheboss.com.br/post/mulheres-no-poder-caminhando-sobre-um-chao-de-vidro#:~:text=H%C3%A1%20um%20ch%C3%A3o%20de%20vidro.&text=Os%20pesquisadores%20explicam%20que%20o,fracasso%20aos%20olhos%20dos%20administradores.)* conta diferentes casos desde o contexto empresarial ao esportivo, nos quais o chão de vidro ou “[escada quebrada](https://www.bbc.com/news/av/world-41444900)”, como intitulado pelo BBC News, denotaram uma forma diferente de avaliar homens e mulheres em posições de liderança, rapidamente quebrando o suposto avanço de parte destas lideranças femininas por expectativas muitas vezes não comunicadas e além dos resultados.

A provocação que ambos conceitos trazem é: Será que se fosse um homem, ela teria chegado na posição de liderança mais rápido? Será que, uma vez liderando, teria ganhado uma nova chance ou até mesmo sido avaliada de outra maneira se não correspondesse às expectativas?

Essas expectativas muitas vezes vêm da estrutura social em que vivemos, sendo reproduzida dentro dos ambientes de negócios. É por isso que o papel das empresas consiste em evoluir as suas culturas de modo a dar o devido espaço e valorização à voz das mulheres, às suas contribuições, garantindo visibilidade, oportunidades e participações iguais.

## Interseccionalidade: um desafio ainda maior

Cada uma dessas barreiras é, infelizmente, ampliada a partir da interseccionalidade, ou seja, da sobreposição de diferentes marcadores sociais que representam um lugar de identidade.

Se estivermos falando de mulheres negras ou mulheres negras LGBTQIA+, mulheres 60+ ou mulheres PCD 60+, ou até mesmo quando levamos em conta questões de classe e regionalidade, os tetos de vidro ficam ainda mais baixos e o chão de vidro ainda mais frágil e instável.

Por isso, para reconhecer as mudanças estruturais necessárias é tão importante entender, também, como ela acontece para[pessoas que enfrentam preconceitos e vieses inconscientes sobrepostos](https://www.revistahsm.com.br/post/a-busca-pela-equidade-humana).

Afinal, é essa visão mais sistêmica e completa que a interseccionalidade nos permite ter que é a real. Caso contrário, não seremos capazes de evoluir a cultura de modo a trabalhar uma inclusão verdadeira, estaremos incluindo apenas uma parte mais privilegiada das lideranças femininas.

Sabemos que precisamos incluir todas as mulheres. Todas são importantes e, a partir de suas vivências, todas têm muito a nos ensinar e a contribuir para a evolução cultural, econômica e social que o mundo precisa vivenciar na prática.

Alguma ideia de como redesenhar essas estruturas culturais de teto e chão de vidro, atentando para as interseccionalidades? Conta com a Tribo para seguirmos juntas e juntos promovendo mais equidade de gênero nas empresas e na sociedade, afinal essa evolução é responsabilidade de todas as pessoas.

*Gostou do artigo de Stephanie Velozo Crispino? Aproveite e assine gratuitamente [nossas newsletters](https://www.revistahsm.com.br/newsletter) e ouça [nossos podcasts](https://www.revistahsm.com.br/podcasts) em sua plataforma de streaming favorita.*

Compartilhar:

Artigos relacionados

Inovação virou desculpa para má gestão

Quando a inovação vira justificativa para desorganização, empresas perdem foco, desperdiçam recursos e confundem criatividade com falta de gestão – um risco cada vez mais caro para líderes e negócios.

Cultura organizacional
9 de janeiro de 2026
Alta performance contínua é uma ilusão corporativa que custa caro: transforma excelência em exaustão e engajamento em sobrecarga. Está na hora de parar de romantizar quem nunca para.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de janeiro de 2026
Diversidade não é jogo de aparências nem disputa por cargos. Empresas que transformam discurso em prática - com inclusão real e estruturas consistentes - não apenas crescem mais, crescem melhor

Giovanna Gregori Pinto - Executiva de RH e fundadora da People Leap

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de janeiro de 2026
E se o maior risco estratégico para 2026 não for uma decisão errada - mas uma boa decisão tomada com base em uma visão de mundo desatualizada?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB – Global Connections

8 minutos min de leitura
Estratégia, ESG
6 de janeiro de 2025
Com a reforma tributária e um cenário econômico mais rigoroso, 2026 será um divisor de águas para PMEs: decisões de preço deixam de ser operacionais e passam a definir a sobrevivência do negócio.

Alexandre Costa - Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
5 de janeiro de 2026
Inovar não é sinônimo de começar do zero. A lente da exaptação revela como ideias e recursos existentes podem ser reaproveitados para gerar soluções transformadoras - da biologia às organizações contemporâneas.

Manoel Pimentel - Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional, Tecnologia & inteligencia artificial
2 de janeiro de 2026
Em 2026, não será a IA nem a velocidade que definirão as empresas líderes - será a inteligência coletiva. Marcas que ignorarem o poder das comunidades femininas e colaborativas ficarão para trás em um mundo que exige empatia, propósito e inovação humanizada

Ana Fontes - Fundadora da Rede Mulher Empreendedora e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República - CDESS.

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de janeiro de 2026
O anos de 2026 não será sobre respostas prontas, mas sobre líderes capazes de ler sinais antes do consenso. Sensibilidade estratégica, colaboração intergeracional e habilidades pós-IA serão os verdadeiros diferenciais para quem deseja permanecer relevante.

Glaucia Guarcello - CEO da HSM, Singularity Brazil e Learning Village

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de dezembro de 2025
Segurança da informação não começa na tecnologia, começa no comportamento. Em 2026, treinar pessoas será tão estratégico quanto investir em firewalls - porque um clique errado pode custar a reputação e a sobrevivência do negócio

Bruno Padredi - CEO da B2B Match

2 minutos min de leitura
ESG
30 de dezembro de 2025
No dia 31 de dezembro de 2025 acaba o prazo para adesão voluntária às normas IFRS S1 e S2. Se sua empresa ainda acha que tem tempo, cuidado: 2026 não vai esperar. ESG deixou de ser discurso - é regra do jogo, e quem não se mover agora ficará fora dele

Eliana Camejo - Conselheira de Administração pelo IBGC e Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Aprendizado
30 de dezembro de 2025
Crédito caro, políticas públicas em transição, crise dos caminhões e riscos globais expuseram fragilidades e forçaram a indústria automotiva brasileira a rever expectativas, estratégias e modelos de negócio em 2025

Bruno de Oliveira - Jornalista e editor de negócios do site Automotive Business

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança