Coloque-se no lugar de um profissional que depende do salário para sustentar a sua família. A permanência dele no emprego depende de metas agressivas, que, quase sempre, são impossíveis de alcançar. Na empresa em que ele trabalha, espera-se que os resultados sejam entregues “a qualquer custo”. Ao longo do tempo, o time aprendeu que não há espaço para questionamento: no passado, quem titubeou foi visto como pouco comprometido, desengajado e “mimizento”.
Neste ambiente, os profissionais fazem o melhor que podem para trazer os números exigidos. Mas o que acontece quando o resultado não vem, apesar de todo o esforço, e a demissão parece cada vez mais próxima? Os problemas passam a ser escondidos, os dados manipulados e o longo prazo sacrificado para salvar a meta do mês. As pessoas adoecem, desengajam, se afastam ou saem.
E nenhum desses cenários é bom para o resultado sustentável de uma empresa.
O medo funciona? No curto prazo, pode até ser que sim. Mas as pesquisas confirmam o que intuitivamente já sabíamos: o medo no trabalho está associado a um pior desempenho, a menos colaboração e a mais comportamentos contraproducentes. Para garantir resultados imediatos, muitas empresas acabam, sem perceber, comprometendo a qualidade, a estratégia e a sustentabilidade.
Mas o custo mais alto para as organizações, não está nos números do trimestre, está no que acontece com as pessoas ao longo do tempo.
Imagine alguém trabalhando por cinco anos no ambiente que descrevi. Todos os dias, essa pessoa recebe pequenas lições sobre o que é necessário para permanecer ali: questionar uma meta pode trazer consequências, ser o portador de uma notícia ruim pode te prejudicar e errar podem comprometer a sua carreira.
Aos poucos, ela aprende a dar a resposta que o chefe quer ouvir, executar antes de refletir e escolher a segurança pessoal em vez da experimentação. Em cinco anos, a empresa terá moldado um profissional que obedece, não confronta e não arrisca – mas que também não inova, não tem pensamento crítico, nem protagonismo.
Toda forma de liderança é, também, uma forma de treinamento.
Por isso, precisamos refletir, com honestidade: o que estamos chamando de performance? Mobilização, urgência, conformidade, foco na meta? Esses comportamentos podem até produzir algum resultado, mas será que são suficientes para desenvolver os negócios e os profissionais que estarão preparados para o que vem pela frente?
No esporte, há evidências robustas de que ambientes que promovem autonomia, competência e vínculo favorecem as condições psicológicas necessárias para que a alta performance seja sustentável. Para isso acontecer, um bom treinador não precisa ser sempre “bonzinho”, mas deve criar espaço para o erro e o aprendizado, sem transformar cada falha em ameaça à carreira do atleta.
No ambiente de trabalho, um líder faz exatamente a mesma coisa.
Se queremos desenvolver e manter profissionais capazes de pensar, decidir, aprender e se adaptar, essas capacidades precisam ser exercitadas no próprio trabalho. Na prática, isso significa fazer algumas substituições:
- Controle por clareza: definir o resultado esperado, os critérios e os limites, sem prescrever todas as respostas.
- Obediência por julgamento: estimular a equipe a responder “o que você está vendo que eu não estou?”.
- Punição automática por responsabilização inteligente: distinguir negligência de experimentação e cobrar correção e aprendizado, não conformidade.
- Pressão indiscriminada por desafio sustentável: manter a expectativa alta e o accountability, sem transformar o medo no principal combustível da performance.
Metas específicas e desafiadoras podem contribuir para a melhora do desempenho, mas quando deixam de ser um instrumento de direção e se transformam em uma ferramenta de ameaça crônica, outros critérios, como a qualidade, a ética e a sustentabilidade, desaparecem do campo de visão.
O maior custo de uma cultura de medo, portanto, não são apenas o turnover, o absenteísmo ou o adoecimento, mas as capacidades humanas que ela impede que sejam desenvolvidas, como o pensamento crítico, a criatividade, a autonomia e a inteligência relacional. Exatamente o que torna um profissional valioso e menos facilmente substituível pela tecnologia.
A vantagem competitiva que teremos nos próximos anos dependerá do que escolhermos desenvolver nas pessoas hoje e do ambiente que criaremos para elas.




