Marketing & growth, Estratégia, Vendas
6 minutos min de leitura

Vamos falar sobre vendas?

Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.
CEO da Conectas, empresa de Educação Corporativa especializada em times de vendas. Autora dos best sellers #BORA BATER META, Coragem e mais alguns Cês da Vida e o do recém lançado Vendas Movem o Mundo.

Compartilhar:

Essa é minha estreia como colunista da HSM Management e confesso: estou muito animada para ocupar este espaço falando sobre um assunto que talvez nem sempre seja o mais hype da agenda executiva, não necessariamente vira tendência a cada seis meses e certamente não nasceu ontem, mas continua acontecendo todos os dias, em praticamente todas as empresas do mundo, e determinando boa parte do que acontece depois.

Vendas.

Sim, minha coluna será, em essência, sobre vendas, mas não apenas sobre vendedores, técnicas de negociação, prospecção ou fechamento. Quero falar sobre vendas como uma disciplina de negócios, daquelas que atravessam estratégia, liderança, cultura, tecnologia, comportamento, experiência do cliente e, no final das contas, resultado.

Porque enquanto discutimos, e sim devemos discutir, inteligência artificial, novos modelos de trabalho, transformação digital, cultura, inovação e tantas outras pautas absolutamente relevantes, alguém continua precisando vender.

Todo santo dia.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das contradições mais interessantes do mundo dos negócios: vendas é uma das atividades mais antigas, recorrentes e determinantes para a sobrevivência de qualquer empresa e, ainda assim, muitas vezes recebe menos sofisticação na discussão do que temas que chegaram muito depois dela.

Na boa, basta observar a forma como ainda falamos sobre a profissão.

Existe uma crença bastante arraigada nas empresas, embora pouca gente tenha coragem de verbalizá-la: vendas não é exatamente uma carreira que alguém escolhe, é mais uma coisa que acontece na vida da pessoa.

“Foi o que apareceu.”

O problema é que essa crença não afeta apenas quem vende, ela influencia a maneira como as próprias empresas enxergam vendas e talvez isso ajude a explicar por que, diante de um resultado comercial abaixo do esperado, ainda seja tão comum ouvir que “esse time precisa de motivação”, como se vender mais dependesse fundamentalmente da disposição do vendedor e não de uma combinação muito mais complexa entre estratégia, liderança, processos, dados, tecnologia, competências, incentivos, cultura e, claro, gente boa fazendo um bom trabalho.

E é justamente essa contradição que me intriga há mais de 20 anos trabalhando com desenvolvimento de equipes comerciais: poucas áreas são tão cobradas pelo resultado e, ao mesmo tempo, tão simplificadas na discussão sobre o que produz esse resultado.

Arthur H. “Red” Motley, um dos grandes nomes da história das vendas nos Estados Unidos, ficou conhecido pela seguinte frase: “Nothing happens in business until somebody sells something.”

Nada acontece nos negócios até que alguém venda alguma coisa.

Uma empresa pode ter um produto incrível, uma marca desejada, tecnologia de ponta, gente competente e uma estratégia lindamente desenhada, mas em algum momento alguém precisa colocar dinheiro do outro lado da mesa.

Até lá, temos potencial. Depois disso, temos negócio.

Talvez por isso eu goste de uma provocação que costumo fazer: uma empresa tem apenas dois tipos de área, a que vende e a que ajuda a vender.

Calma. Não estou dizendo que Financeiro, RH, Operações ou Tecnologia precisam sair prospectando clientes amanhã, estou dizendo algo mais importante: receita não pode ser responsabilidade exclusiva da área comercial.

Tudo o que uma empresa faz pode facilitar ou dificultar uma venda, da política de preços à experiência do cliente, da logística aos incentivos, da qualidade da liderança à tecnologia que colocamos na mão de quem está na ponta.

E essa talvez seja uma das mudanças mais relevantes que tenho observado nas conversas com CEOs e diretores comerciais nos últimos anos: vendas está deixando de ser uma discussão restrita à área comercial e ocupando cada vez mais espaço na agenda estratégica, até porque as perguntas ficaram maiores.

Como crescer sem destruir margem? Como aumentar produtividade sem simplesmente colocar mais vendedores na rua? Como deixar de disputar cliente por preço? Como diminuir a dependência daquele vendedor que carrega metade do resultado nas costas? Como usar inteligência artificial para vender melhor sem transformá-la em mais uma ferramenta que a empresa compra antes de descobrir qual problema queria resolver?

A tecnologia, aliás, escancara bem essa discussão. Pesquisas recentes do Gartner mostram uma relação relevante entre a adoção estruturada de IA em vendas e crescimento comercial, mas também revelam que muitas empresas já conseguem economizar horas de trabalho dos vendedores com IA sem saber transformar esse tempo em atividades de maior valor.

Olha a ironia: a tecnologia avança e a pergunta volta para a gestão.

Porque não adianta colocar IA na mão de um vendedor que não sabe fazer uma boa pergunta, ensinar venda de valor quando a empresa remunera volume, cobrar planejamento quando a agenda não deixa espaço para planejar, falar em cliente no centro enquanto cada área protege o próprio indicador ou contratar alguém para “dar uma energizada no time” quando o sistema inteiro trabalha contra aquilo que estamos cobrando das pessoas.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “por que meus vendedores não estão vendendo?”, mas “o que, dentro da minha empresa, está tornando mais difícil vender?”

A primeira coloca uma lupa sobre o vendedor; já a segunda coloca um espelho na organização e é esse espelho que eu quero trazer para esta coluna.

Quero falar sobre empresas que dizem querer venda consultiva, mas continuam gerenciando tiradores de pedido; sobre organizações obcecadas por vender valor que não conseguem explicar qual valor entregam; sobre milhões investidos em CRM por empresas que continuam sem conhecer seus clientes; sobre vendedores treinados que voltam para gestores que não mudaram; sobre metas tratadas como estratégia; sobre pressão confundida com gestão de performance; e sobre a inteligência artificial, que talvez não diminua a importância do vendedor, mas aumente brutalmente a régua do que esperamos de um bom profissional de vendas.

Quero falar sobre as dores reais de quem tem uma meta na mesa e sabe que não vai alcançá-la apenas colocando mais pressão sobre quem está na ponta, afinal resultado comercial raramente tem uma causa única e quase nunca se resolve com a solução mais óbvia.

Então é sobre isso que vamos conversar quinzenalmente por aqui.

Sobre vendas para quem vende, para quem lidera quem vende, para quem precisa criar as condições para que alguém venda e, principalmente, para quem ainda acredita que não tem nada a ver com vendas.

E já que comecei esta coluna com uma pergunta, quero terminar com outra: “qual é a pergunta sobre vendas que você gostaria de fazer se tivesse certeza de que receberia uma resposta sem enrolação?”

Me manda.

Pode ser justamente sobre ela que a gente vai conversar daqui a quinze dias.

Aquele abraço,

Compartilhar:

CEO da Conectas, empresa de Educação Corporativa especializada em times de vendas. Autora dos best sellers #BORA BATER META, Coragem e mais alguns Cês da Vida e o do recém lançado Vendas Movem o Mundo.

Artigos relacionados

Vamos falar sobre vendas?

Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Se o estagiário lidera a reunião, quem é o líder?

Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

As empresas não estão tendo resultados com IA. E a culpa é toda delas! 

Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
8 de agosto de 2026 14H00
Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Flávio Pinheiro Neto - Sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de agosto de 2026 08H00
A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de agosto de 2026 14H00
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de agosto de 2026 09H00
Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Roberta Barros - Gerente de Strategy, Innovation & Ventures na Deloitte.

7 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
6 de agosto de 2026 17H00
Tarifas, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias de suprimentos e mudanças regulatórias expõem uma fragilidade comum em muitas organizações: a dependência de um único cenário de futuro. Ao analisar os efeitos recentes do tarifaço sobre produtos brasileiros, o artigo argumenta que a verdadeira vantagem competitiva não está em prever corretamente o próximo choque, mas em construir operações capazes de se adaptar rapidamente a diferentes realidades sem comprometer resultados.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

12 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
6 de agosto de 2026 08H00
Trinta e cinco anos após a criação da Lei de Cotas, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho continua sendo medida principalmente pelo número de contratações. O desafio agora é outro: garantir experiências de trabalho dignas, acessíveis e capazes de promover desenvolvimento, pertencimento e crescimento profissional.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 de agosto de 2026 14H00
Promover talentos internos, contratar no mercado ou recorrer a executivos por projeto são decisões cada vez mais frequentes em empresas que crescem e se transformam. Mas a escolha mais importante acontece antes disso: compreender qual problema realmente precisa ser resolvido. O artigo discute por que muitas organizações se concentram em preencher posições rapidamente, quando deveriam dedicar mais tempo a entender a natureza, a duração e a complexidade dos desafios que enfrentam.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
5 de agosto de 2026 08H00
A mobilização que o maior evento esportivo do mundo desperta revelou algo poderoso sobre os brasileiros: nossa capacidade de nos unir em torno de um objetivo comum. Mas por que essa mesma energia raramente se traduz em avanços estruturais para o país?

Laura Jane Pereira de Souza - Administradora de empresas, consultora e mentora

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 de agosto de 2026 14H00
O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
4 de agosto de 2026 de 2026
Durante um dos maiores congressos de RH do mundo, uma provocação ganhou destaque: o futuro da área não será definido por sua capacidade de justificar sua relevância, mas por demonstrar, com dados e resultados, o impacto que gera para o negócio. Em um cenário marcado por inteligência artificial, novas formas de trabalho e pressão crescente por resultados, o RH é chamado a assumir um papel cada vez mais estratégico.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo