Foto ou filme?
Há duas formas de analisar a trajetória das mulheres no mundo do trabalho – e vou me ater, neste momento, ao Brasil.
No filme podemos ver que os avanços são inequívocos: cresceram a participação efetiva das mulheres e sobretudo o nível de consciência da necessidade de avançar ainda mais. Se, no entanto, observarmos a foto, a conclusão é que continuamos longe de um equilíbrio razoável, especialmente nas posições de topo e na representação política. Há muito a fazer e, atenção!, fazer, não reclamar.
Podemos pensar em três espaços: o “espaço problema”, o “espaço reclamação” e o “espaço solução”. O primeiro” é necessário para compreender com profundidade suas causas e construir as melhores soluções. Mas tem de ser transitório. Se nos detemos demais nele, passamos diretamente para o terrível “espaço reclamação” – que drena energia, é “chato” e não produz avanços. Temos de ir para o “espaço solução”.
A carreira das mulheres avançou, embora na vida cotidiana elas ainda sejam “atravessadas” por obstáculos e alavancas, visíveis ou não. A escolha é sua: ou pôr foco em obstáculos e reclamar, ou se ater à força das alavancas e fazer acontecer… Uma delas é a a capacidade de administrar o paradoxo agridoce, que foca ao mesmo tempo:
- A racionalização (agri), presente nos movimentos para eficiência; a produtividade; as conversas necessárias, duras; a racionalização (agri-).
- A revitalização (doce), que significa processos de desenvolvimento, abertura e criação de novos negócios, acolhimento, a inovação.
Mais: a competência em administrar paradoxos é um diferencial fundamental em tempos de incerteza radical como o que vivemos atualmente.
O conceito de “agridoce” foi cunhado por nós em conjunto com Sumantra Ghoshal, então professor da London Business School. Ser agridoce não significa ser ambígua, indecisa nem, a qualquer preço, conciliadora. Significa reconhecer que a realidade contém elementos aparentemente opostos e que liderar não implica, necessariamente, em eliminar um deles, e sim administrar a tensão existente entre eles.
Durante muito tempo, fomos educados para pensar com base na lógica do “ou”: crescer ou preservar; controlar ou dar autonomia; competir ou colaborar; entregar resultados ou cuidar das pessoas.
O ambiente atual, marcado por rupturas tecnológicas, instabilidade geopolítica e incerteza radical, exige outras capacidades. Exige pessoas que pensam e agem pela lógica do “E”. Agir com base no “E” não significa evitar escolhas. Significa não tratar como incompatíveis dimensões que precisam coexistir.
A competência está em saber quando escolher e quando integrar. E é justamente essa capacidade que precisamos desenvolver e fortalecer nas lideranças femininas do presente e do futuro.
Tenho visto essa reflexão ganhar força em diferentes espaços de diálogo e construção coletiva. Um deles é o Summit Mulheres nas Profissões, iniciativa do Grupo Mulheres do Brasil, que reúne mulheres interessadas em ampliar repertórios, compartilhar dilemas, compreender melhor as alavancas para navegar os paradoxos da vida profissional e pessoal e construir novas possibilidades para si e para as próximas gerações.
O futuro não está pronto. Ele é construído pelas escolhas que fazemos, pelas relações que cultivamos, pelas ações que colocamos em prática e pelos espaços que decidimos ocupar com coragem e responsabilidade.
Afinal, liderança não é apenas sobre chegar mais longe individualmente. É também sobre criar condições para que outras pessoas possam avançar conosco.
E talvez essa seja uma das maiores forças das mulheres que transformam realidades: a capacidade de construir futuros coletivamente.
Porque o futuro também está em suas mãos. Está em nossas mãos.




