Liderança
3 minutos min de leitura

A inteligência agridoce: a competência que o futuro exige das líderes

Embora a presença feminina no mundo do trabalho tenha avançado de forma consistente nas últimas décadas, os desafios permanecem. Neste artigo, a autora propõe uma mudança de perspectiva: menos foco nos obstáculos e mais atenção às alavancas capazes de impulsionar transformações. Entre elas, destaca-se uma competência cada vez mais valiosa em tempos de incerteza: a capacidade de administrar paradoxos e liderar pela lógica do “E”, integrando eficiência e inovação, resultado e cuidado, racionalidade e sensibilidade.
Fundado em 2013 por Luiza Helena Trajano e outras 40 mulheres, o Grupo Mulheres do Brasil é uma das maiores redes de mobilização feminina do país. Com mais de 140 mil participantes no Brasil e no exterior, atua em frentes como educação, empreendedorismo, equidade de gênero, inclusão social, cidadania, sustentabilidade, defesa de políticas públicas e combate à violência contra mulheres e meninas. Por meio da articulação entre sociedade civil, iniciativa privada e poder público, desenvolve projetos e ações que contribuem para a construção de uma sociedade mais justa, diversa e inclusiva. Saiba mais: https://www.instagram.com/grupomulheresdobrasil
PhD, sócia fundadora da BTA, consultoria em desenvolvimento empresarial, membro do Conselho de Administração do Magalu e da MRV e cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil. Além disso, Betania é professora da PUC Minas Gerais e do Insead, da França, autora de 13 livros e coautora de Estratégia e Gestão Empresarial, com Sumantra Ghoshal, entre outros.

Compartilhar:

Foto ou filme?

Há duas formas de analisar a trajetória das mulheres no mundo do trabalho – e vou me ater, neste momento, ao Brasil.

No filme podemos ver que os avanços são inequívocos: cresceram a participação efetiva das mulheres e sobretudo o nível de consciência da necessidade de avançar ainda mais. Se, no entanto, observarmos a foto, a conclusão é que continuamos longe de um equilíbrio razoável, especialmente nas posições de topo e na representação política. Há muito a fazer e, atenção!, fazer, não reclamar.

Podemos pensar em três espaços: o “espaço problema”, o “espaço reclamação” e o “espaço solução”. O primeiro” é necessário para compreender com profundidade suas causas e construir as melhores soluções. Mas tem de ser transitório. Se nos detemos demais nele, passamos diretamente para o terrível “espaço reclamação” – que drena energia, é “chato” e não produz avanços. Temos de ir para o “espaço solução”.

A carreira das mulheres avançou, embora na vida cotidiana elas ainda sejam “atravessadas” por obstáculos e alavancas, visíveis ou não. A escolha é sua: ou pôr foco em obstáculos e reclamar, ou se ater à força das alavancas e fazer acontecer… Uma delas é a a capacidade de administrar o paradoxo agridoce, que foca ao mesmo tempo:

  • A racionalização (agri), presente nos movimentos para eficiência; a produtividade; as conversas necessárias, duras; a racionalização (agri-).
  • A revitalização (doce), que significa processos de desenvolvimento, abertura e criação de novos negócios, acolhimento, a inovação.


Mais: a competência em administrar paradoxos é um diferencial fundamental em tempos de incerteza radical como o que vivemos atualmente.

O conceito de “agridoce” foi cunhado por nós em conjunto com Sumantra Ghoshal, então professor da London Business School. Ser agridoce não significa ser ambígua, indecisa nem, a qualquer preço, conciliadora. Significa reconhecer que a realidade contém elementos aparentemente opostos e que liderar não implica, necessariamente, em eliminar um deles, e sim administrar a tensão existente entre eles.

Durante muito tempo, fomos educados para pensar com base na lógica do “ou”: crescer ou preservar; controlar ou dar autonomia; competir ou colaborar; entregar resultados ou cuidar das pessoas.

O ambiente atual, marcado por rupturas tecnológicas, instabilidade geopolítica e incerteza radical, exige outras capacidades. Exige pessoas que pensam e agem pela lógica do “E”. Agir com base no “E” não significa evitar escolhas. Significa não tratar como incompatíveis dimensões que precisam coexistir.

A competência está em saber quando escolher e quando integrar. E é justamente essa capacidade que precisamos desenvolver e fortalecer nas lideranças femininas do presente e do futuro.

Tenho visto essa reflexão ganhar força em diferentes espaços de diálogo e construção coletiva. Um deles é o Summit Mulheres nas Profissões, iniciativa do Grupo Mulheres do Brasil, que reúne mulheres interessadas em ampliar repertórios, compartilhar dilemas, compreender melhor as alavancas para navegar os paradoxos da vida profissional e pessoal e construir novas possibilidades para si e para as próximas gerações.

O futuro não está pronto. Ele é construído pelas escolhas que fazemos, pelas relações que cultivamos, pelas ações que colocamos em prática e pelos espaços que decidimos ocupar com coragem e responsabilidade.

Afinal, liderança não é apenas sobre chegar mais longe individualmente. É também sobre criar condições para que outras pessoas possam avançar conosco.

E talvez essa seja uma das maiores forças das mulheres que transformam realidades: a capacidade de construir futuros coletivamente.

Porque o futuro também está em suas mãos. Está em nossas mãos.

Compartilhar:

Fundado em 2013 por Luiza Helena Trajano e outras 40 mulheres, o Grupo Mulheres do Brasil é uma das maiores redes de mobilização feminina do país. Com mais de 140 mil participantes no Brasil e no exterior, atua em frentes como educação, empreendedorismo, equidade de gênero, inclusão social, cidadania, sustentabilidade, defesa de políticas públicas e combate à violência contra mulheres e meninas. Por meio da articulação entre sociedade civil, iniciativa privada e poder público, desenvolve projetos e ações que contribuem para a construção de uma sociedade mais justa, diversa e inclusiva. Saiba mais: https://www.instagram.com/grupomulheresdobrasil

Artigos relacionados

Geopolítica da transição: o país precisa transformar potencial em influência

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos – energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva – que pode transformar sua posição internacional.

Três hipóteses para redesenhar o primeiro degrau da carreira

A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

A meta não assusta. O comportamento do líder, às vezes, sim.

Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

User Experience, UX
12 de setembro de 2026 09H00
Uma experiência ruim não gera apenas insatisfação. Ela aumenta custos operacionais, compromete a reputação da marca, reduz receitas futuras e pode encerrar relacionamentos construídos ao longo de anos.

Tâmara Lira - CFO da Paschoalotto

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
11 de setembro de 2026 14H00
Rotular profissionais como tóxicos pode encerrar uma conversa, mas raramente resolve o problema. Ao investigar como comportamentos se formam e se repetem nas organizações, o artigo convida líderes a substituírem julgamentos rápidos por diagnósticos mais profundos e eficazes.

Marta Ferreira

7 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
11 de setembro de 2026 08H00
Mais do que dominar ferramentas, o desafio da liderança passou a ser tomar decisões, engajar pessoas e construir crescimento em um ambiente de incerteza permanente.

Eduardo Raffaini - Sócio-líder de Soluções de Strategy da Deloitte

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
10 de setembro de 2026 18H00
Discordâncias fazem parte de qualquer equipe diversa, mas nem sempre encontram espaço para serem expressas. O verdadeiro risco para as organizações não está no excesso de conflitos, mas na ausência deles.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão

2 minutos min de leitura
Finanças, Estratégia
10 de setembro de 2026 12H00
Sua estratégia está no PowerPoint ou no orçamento? No trimestre em que o plano de 2027 ganha aprovação, uma disputa invisível acontece dentro das empresas. De um lado, a estratégia que promete transformação. Do outro, o orçamento que preserva as prioridades de sempre. Quase sempre, é a planilha que decide o vencedor.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

10 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
10 de setembro de 2026 08H00
As declarações recentes dos líderes da OpenAI e da NVIDIA reacenderam uma das discussões mais importantes da era digital: a Inteligência Artificial Geral já é uma realidade? Ao conectar os avanços mais recentes da IA às previsões feitas por Ray Kurzweil décadas atrás, o artigo explora não apenas a evolução da tecnologia, mas também o desafio humano, organizacional e social de acompanhar uma transformação que pode estar acontecendo mais rápido do que imaginávamos.

Leandro Mattos- Expert em neurociência da Singularity Brazil e CEO da CogniSigns

16 minutos min de leitura
Liderança, ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
9 de setembro de 2026 14H00
Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Djalma Scartezini - CEO da REIS, Sócio da Egalite e Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
9 de setembro de 2026 09H00
Os agentes de IA não pedem aumento, não tiram férias e não podem ser administrados como funcionários tradicionais. Como gerir colaboradores digitais que não seguem as regras tradicionais de contratação, supervisão e desligamento?

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Estratégia
8 de setembro de 2026 18H00
Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
8 de setembro de 2026 14H00
Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução