Estratégia, Marketing
4 minutos min de leitura

A volta de Miranda Priestly: quando o algoritmo decide o que merece atenção

Este artigo revela por que o diferencial das marcas deixou de ser produção e passou a ser sensibilidade - a capacidade humana de interpretar cultura, criar significado e, sobretudo, ser lembrada.
Fundador da IAMKT, consultoria especializada em IA aplicada ao marketing, e atua como conselheiro e palestrante em inovação e transformação digital. Mestre em Marketing pela UFMG e MBA pela Fundação Dom Cabral, é referência na aplicação prática de inteligência artificial em estratégia e resultados de negócio.

Compartilhar:

Quando “O Diabo Veste Prada” estreou, em 2006, o marketing ainda operava numa lógica relativamente previsível. Tendências nasciam em poucos lugares, revistas definiam comportamento, grandes campanhas moldavam desejo. A autoridade era concentrada. Miranda Priestly simbolizava alguém capaz de determinar o que seria consumido e admirado apenas com um olhar.

Quase vinte anos depois, o cenário é outro. E a continuação do filme chega num momento mais simbólico, quando o verdadeiro protagonista desta nova era não é a moda. É o algoritmo.

O desejo não nasce mais de forma linear. Ele emerge de um fluxo caótico de referências: creators, memes, IA, vídeos improvisados, comentários, trends e recomendações invisíveis feitas por sistemas que entendem comportamento melhor do que muitas marcas entendem seus próprios consumidores.

Antes, as marcas disputavam espaço na mídia. Agora disputam atenção dentro de feeds infinitos.

A inteligência artificial acelerou praticamente todas as etapas do marketing. Ela escreve textos, cria imagens, produz vídeos, segmenta campanhas, automatiza jornadas, analisa comportamento e otimiza resultados em tempo real. E ainda assim nunca foi tão difícil criar relevância. Todo mundo publica, anuncia e aparece. Porém, quase ninguém consegue permanecer na memória das pessoas.

É por isso que o marketing vive uma transição real, em que saí da era da distribuição e entra na era da curadoria emocional.

Não basta mais entregar mensagens para milhões. O desafio é entender quais mensagens realmente merecem existir e quais conseguem interromper o piloto automático da atenção.

A IA ajuda marcas a produzirem mais rápido. Mas cria um efeito colateral perigoso: a homogeneização. Quando todo mundo usa as mesmas ferramentas, os mesmos prompts, as mesmas referências e os mesmos formatos, o mercado começa a soar igual. E marcas iguais se tornam invisíveis.

Talvez por isso as campanhas mais fortes atualmente não sejam as mais perfeitas. Muitas vezes, o que funciona é justamente o que parece humano demais. Um vídeo gravado no improviso, uma reação autêntica, um creator sem estética publicitária, uma marca que entende o timing cultural antes dos concorrentes.

No passado, a autoridade gerava atenção. Hoje, a identificação gera atenção.

Os algoritmos aprenderam a prever nossos interesses antes mesmo de racionalizarmos nossos desejos. Em muitos casos, consumimos porque fomos conduzidos a consumir, não porque escolhemos conscientemente. O marketing deixa de ser apenas persuasão e passa a ser arquitetura de comportamento.

A prova disso está nas campanhas que mais conseguem furar a bolha hoje. A Loewe transformou um simples tomate em objeto de desejo durante a Semana de Moda de Paris. A Duolingo virou fenômeno ao abandonar completamente a estética institucional e assumir um humor quase caótico no TikTok. A Barbie deixou de ser apenas um filme para se tornar um acontecimento cultural porque entendeu que nostalgia, comportamento e internet precisavam conversar ao mesmo tempo.

Nenhum desses casos nasceu de performance, automação ou segmentação inteligente. Nasceram de leitura humana.

Algoritmo identifica padrão. Repertório humano identifica tensão cultural.

Uma IA consegue gerar cem versões de uma campanha em segundos. Mas dificilmente cria, sozinha, uma ideia que conecte moda com ansiedade coletiva, memes com posicionamento de marca ou nostalgia com comportamento de consumo. As campanhas que ficam não são apenas as mais bem segmentadas. São as que conseguem produzir algum tipo de sensação compartilhada  e isso exige sensibilidade, algo que ainda não se automatiza completamente.

Foi justamente isso que aprendi no SXSW 2026: quanto mais a IA acelera a produção, mais raro e valioso se torna aquilo que ainda depende do humano. Presença, repertório, confiança, comunidade, história.

O futuro do marketing não será definido apenas por quem domina ferramentas de IA, mas por quem consegue alimentar essas ferramentas com visão de mundo, contexto cultural e interpretação humana.

Porque no fim, o algoritmo entrega. Mas ainda é o humano que faz alguém sentir e talvez o verdadeiro luxo do futuro nem seja exclusividade, sofisticação ou status. Talvez seja conseguir atenção genuína em um mundo onde todo mundo está gritando ao mesmo tempo.

É possível que o diabo nem vista Prada, ele só entenda melhor o algoritmo que você.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quanto custa perder um cliente?

Uma experiência ruim não gera apenas insatisfação. Ela aumenta custos operacionais, compromete a reputação da marca, reduz receitas futuras e pode encerrar relacionamentos construídos ao longo de anos.

Se o colaborador tóxico sai, o problema vai embora com ele?

Rotular profissionais como tóxicos pode encerrar uma conversa, mas raramente resolve o problema. Ao investigar como comportamentos se formam e se repetem nas organizações, o artigo convida líderes a substituírem julgamentos rápidos por diagnósticos mais profundos e eficazes.

Todo fim de ano, o passado se reelege no seu orçamento

Sua estratégia está no PowerPoint ou no orçamento? No trimestre em que o plano de 2027 ganha aprovação, uma disputa invisível acontece dentro das empresas. De um lado, a estratégia que promete transformação. Do outro, o orçamento que preserva as prioridades de sempre. Quase sempre, é a planilha que decide o vencedor.

Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de agosto de 2026 14H00
Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Marcos Gurgel - Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Vendas
13 de agosto de 2026 08H00
Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança
12 de agosto de 2026 14H00
Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
9 de agosto de 2026 14h00
Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Estela Brunhara - Sócia e Diretora de Consumer Behavior & Estratégia da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução