Lifelong learning
6 minutos min de leitura

Autenticidade, confiança, Michael Porter e o medo de fazer escolhas

Quando tecnologia se torna abundante e narrativas perdem credibilidade, a autenticidade emerge como o novo diferencial competitivo - e este artigo explica por quê.
Empreendedora, consultora e cofundadora da People Strat. Isabela conecta neurociência, comportamento e tecnologia para desenvolver pessoas e culturas mais humanas e inovadoras. Embaixadora de Inovação dos Hubs Learning Village e Porto Maravalley; e Top 3 Mulheres em Tecnologia pela Meta Ventures, acredita que aprender é o maior ato de liberdade e transformação.

Compartilhar:

Tenho visto, cada vez mais, discussões sobre a importância da autenticidade para o sucesso de marcas e empresas. Outro dia, inclusive, ouvi, em mais um bom evento de “download” do SXSW, que, em 2026, autenticidade passou a ser vantagem competitiva. Isso me chamou atenção porque a primeira vez que escutei esse termo foi lá na época da faculdade, há uns 15 anos, quando estudava as cinco forças de Porter.

Segundo Michael Porter, vantagem competitiva é qualquer atributo ou conjunto de características que permite a uma empresa superar seus concorrentes, entregando maior valor ao cliente de forma sustentável. Os principais atributos até então baseavam-se em custo, diferenciação ou nicho. Já as formas de construí-los passavam por acesso a recursos únicos, foco em qualidade, eficiência operacional e, claro, inovação e tecnologia. Será que, então, podemos pensar que hoje, ao considerarmos a autenticidade um atributo de vantagem e, considerando autenticidade como algo real, genuíno e verdadeiro, é porque, de algum modo, entendemos que isso hoje está raro, escasso?

Bom, estamos na Era da inovação acelerada, com a inteligência artificial trazendo para a vida real o que vimos em filmes e desenhos de décadas atrás. Era de se esperar que estivéssemos falando ainda mais de tecnologia como principal fator de diferenciação, não? Bom, nada hoje é tão linear assim, e como a lei da oferta e demanda ainda prevalece no mercado, quanto menos uma coisa está disponível, mais valor ela tem, certo? E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo.

Como alguns especialistas já apontam, vivemos uma crise de confiança nas marcas e nas instituições. Rachel Botsman, uma das maiores especialistas em confiança na Era digital, cunhou o conceito de “Mudança de Confiança” (The Trust Shift), que como ela argumenta, significa que nós não paramos de confiar, apenas mudamos o alvo: a confiança saiu das instituições e passou para os indivíduos. Estamos confiando menos no que vemos e ouvimos por aí. Por um lado, isso pode ser positivo, porque nos torna mais críticos. Por outro, levanta uma questão importante sobre o que está por trás dessa mudança.

Para tentar entender melhor, usei uma técnica que gosto bastante, os cinco porquês, justamente para ir além do óbvio e explorar a causa raiz do problema. Comecei com a pergunta sobre por que estamos falando tanto sobre autenticidade. A primeira resposta parece relativamente direta: marcas que parecem genuínas geram mais conexão emocional com as pessoas. O que nos leva a uma segunda pergunta: por que essa conexão emocional se tornou tão relevante? E a resposta que cheguei foi: porque as pessoas já não escolhem apenas pelo produto, mas por identificação, valores e sensação de pertencimento.

Seguindo essa linha, a minha terceira pergunta foi: por que passamos a buscar pertencimento nas marcas? E aqui cheguei perto do ponto de Botsman: porque vivemos um cenário em que a confiança está abalada. Com a presença cada vez mais forte da inteligência artificial, já não sabemos com tanta clareza o que é genuíno e o que é construído. E, somado a isso, está o nosso desejo de fazermos boas escolhas para nós e para quem a gente ama, o que exige mais do que o discurso das marcas. Mas por que não confiamos mais só no que as empresas dizem para escolher entre uma ou outra marca? Essa foi a quarta pergunta. Porque, hoje, queremos ver e observar o uso de produtos e serviços na vida real, no contexto das pessoas parecidas com a gente, no nosso próprio cotidiano. Isso transmite mais verdade do que uma narrativa bem construída e distante.

E, por fim, chegamos à quinta e última pergunta: por que essa “verdade percebida” gera mais conexão? Eu diria que é porque as pessoas se conectam com aquilo que reconhecem como real, que não é perfeito, que não tenta agradar a todos, mas que é verdadeiro. E a verdade, nesse contexto, tem um papel muito único: ela reduz barreiras, gera identificação e aproxima.Talvez, por isso a autenticidade tenha virado vantagem competitiva. Mesmo com toda a tecnologia, ainda queremos fazer boas escolhas para nossas vidas e existe uma coisa que continua igual sobre as relações: elas continuam sendo construídas a partir de reconhecimento e identificação.Você deve estar ouvindo muito por aí o termos “humanizar”, seja na comunicação, no marketing, nas relações. Como gostamos de dar um nome para tudo, isso também tem um nome que é “tendência back to human”, que destaca o retorno das marcas ao que é autêntico e humano.

Nesse contexto, fica fácil entender por que os influenciadores de nicho fazem tanto sucesso atualmente. Em um mundo onde as redes sociais ampliaram o acesso e reduziram barreiras sociais, culturais e geográficas, fica quase impossível não acharmos uma tribo para chamar de nossa. E encontrar essa tribo, essa nossa “verdade comum” é como achar água no deserto: é um mix de alegria, alívio, reconhecimento da importância daquilo, e gera até um apego físico e emocional. A pesquisa  “#Publi 2025” realizada com 1.500 brasileiros revela que 8 em cada 10 já compraram por recomendação de influenciadores e reforça a exigência por publis genuínas, criativas e alinhadas aos valores do público. 

No contexto corporativo, temos visto o termo “fim da fachada corporativa”, com líderes sendo cada vez mais vulneráveis, verdadeiros, inspirando e impactando positivamente cada vez mais outras pessoas. A autenticidade surge aqui como um remédio, digamos, para um tipo de perfeccionismo tóxico: confiamos em quem parece “gente como a gente”, e não em quem parece um robô corporativo.

Então, se a autenticidade é importante, como ser autêntico? Penso que existe um paradoxo importante nesse cenário. É que ser de verdade, para marcas e também para pessoas físicas, não é tão fácil e óbvio. Significa abrir mão de agradar a todos, não ter medo de se posicionar e expor suas opiniões com responsabilidade, honrar os seus interesses, vontades e desejos, se deixar ser espontâneo e sustentar valores mesmo quando isso pode gerar desconforto. Isso tudo gera coerência, relevância e confiança.

Talvez seja exatamente por isso que a autenticidade tenha tanto valor. Porque, no fim, cada pessoa e cada marca são, ou deveriam ser, únicas. “Ninguém é igual a você e esse é seu maior superpoder”, já diria um post do Instagram que também me inspirou neste artigo. Então, o caminho para tornar isso uma vantagem é identificar e colocar para fora: quais são seus valores, suas crenças, pelo que se interessa, o que é inegociável para você, quais são suas características e curiosidades? Parece fácil de responder, mas é difícil.

Para concluir, quero deixar uma dica, claro, ligada à aprendizagem. Como toda habilidade, se a gente não praticar, a gente perde a capacidade de usá-la, porque nossas sinapses enfraquecem. Então, precisamos praticar sermos autênticos. Um exercício inicial pode ser conseguir se apresentar sem o seu crachá ou pensar no que você gostaria de postar nas redes sociais e que, por medo do julgamento dos outros, não posta. Por trás dessas coisas podem estar as suas verdades.

Em espaços que permitem que a gente se conecte, sejam online ou presenciais, vale lembrar que o que nos conecta não é o cargo ou a perfeição, mas a nossa essência. E conhecer a própria essência e ter coragem de expressá-la é, no fim das contas, não apenas um diferencial, mas o ponto de partida para relações mais verdadeiras.

Compartilhar:

Empreendedora, consultora e cofundadora da People Strat. Isabela conecta neurociência, comportamento e tecnologia para desenvolver pessoas e culturas mais humanas e inovadoras. Embaixadora de Inovação dos Hubs Learning Village e Porto Maravalley; e Top 3 Mulheres em Tecnologia pela Meta Ventures, acredita que aprender é o maior ato de liberdade e transformação.

Artigos relacionados

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

A meta não assusta. O comportamento do líder, às vezes, sim.

Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Onda de recuperações judiciais acende alerta

Quando uma grande empresa entra em recuperação judicial, os impactos não ficam restritos ao seu balanço. Fornecedores deixam de receber, investimentos são adiados, empregos ficam ameaçados e a atividade econômica perde força, criando um efeito dominó que alcança empresas e consumidores em todo o país.

Cultura organizacional
10 de setembro de 2026 18H00
Discordâncias fazem parte de qualquer equipe diversa, mas nem sempre encontram espaço para serem expressas. O verdadeiro risco para as organizações não está no excesso de conflitos, mas na ausência deles.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão

2 minutos min de leitura
Finanças, Estratégia
10 de setembro de 2026 12H00
Sua estratégia está no PowerPoint ou no orçamento? No trimestre em que o plano de 2027 ganha aprovação, uma disputa invisível acontece dentro das empresas. De um lado, a estratégia que promete transformação. Do outro, o orçamento que preserva as prioridades de sempre. Quase sempre, é a planilha que decide o vencedor.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

10 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
10 de setembro de 2026 08H00
As declarações recentes dos líderes da OpenAI e da NVIDIA reacenderam uma das discussões mais importantes da era digital: a Inteligência Artificial Geral já é uma realidade? Ao conectar os avanços mais recentes da IA às previsões feitas por Ray Kurzweil décadas atrás, o artigo explora não apenas a evolução da tecnologia, mas também o desafio humano, organizacional e social de acompanhar uma transformação que pode estar acontecendo mais rápido do que imaginávamos.

Leandro Mattos- Expert em neurociência da Singularity Brazil e CEO da CogniSigns

16 minutos min de leitura
Liderança, ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
9 de setembro de 2026 14H00
Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Djalma Scartezini - CEO da REIS, Sócio da Egalite e Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
9 de setembro de 2026 09H00
Os agentes de IA não pedem aumento, não tiram férias e não podem ser administrados como funcionários tradicionais. Como gerir colaboradores digitais que não seguem as regras tradicionais de contratação, supervisão e desligamento?

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Estratégia
8 de setembro de 2026 18H00
Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
8 de setembro de 2026 14H00
Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
8 de setembro de 2026 08H00
Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Daniel Cerveira - sócio do escritório Cerveira, Bloch, Goettems, Hansen & Longo Advogados Associados e Coordenador da Comissão de Expansão e Pontos Comerciais da ABF - Associação Brasileira de Franchising

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 14H00
Muito além da programação e da montagem de robôs, o artigo mostra como a robótica educacional está ajudando estudantes a pensar criticamente, experimentar, colaborar e criar soluções para problemas reais, conectando aprendizagem, propósito e impacto social desde a escola.

André Brandão Sala - CEO da Robomind

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 08H00
O Brasil já demonstrou sua capacidade de formar pesquisadores altamente qualificados. O desafio agora é fortalecer as pontes entre universidades, empresas, investidores e empreendedores para que a produção científica gere mais inovação, competitividade e impacto social.

Luiz Caires, PhD - Cofundador e CEO da Vyro Bio

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução