Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia, Liderança
6 minutos min de leitura
Oferecido por:

Construa ou arrependa-se

Este artigo desmonta o mito de que “todo mundo já chegou” na inteligência artificial - os dados mostram que não é verdade. E é exatamente aí que mora a maior oportunidade desta década (para quem tiver coragem de começar).
Fundador da NERD Partners, empresa que conecta inovação e pesquisa aos negócios estabelecidos, atendendo clientes como Petrobras, Itaú, Ambev, BASF, Bayer e Unilever. Foi Diretor Global de Inovação da Ambev e líder de Inovação Aberta no Itaú. Atua como conselheiro de inovação em grandes empresas e é professor da Fundação Dom Cabral, FGV e Insper. Além disso, integra o conselho da MIT Sloan Management Review no Brasil.

Compartilhar:

Existe uma sensação, hoje, de que todo mundo está usando inteligência artificial. Que não existe mais vantagem em entrar no jogo – que a onda já passou, que o espaço está saturado, que quem não começou antes ficou para trás. Essa sensação é compreensível. E é quase completamente falsa.

Os dados mais recentes no Brasil mostram uma realidade muito diferente do que os feeds de LinkedIn sugerem. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, divulgada em dezembro pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, cerca de 50 milhões de brasileiros usam IA generativa. Parece muito – até você olhar o denominador. Esses 50 milhões representam apenas 32% dos usuários de internet no país. Dois em cada três brasileiros conectados ainda não usam essas ferramentas.

E a desigualdade é brutal. Na classe A, a adesão chega a 69%. Nas classes D e E, despenca para 16%. Entre quem tem ensino superior, 59%. Entre quem tem apenas o fundamental, 17%. O que temos no Brasil não é uma adoção massiva de IA. É uma adoção altamente concentrada numa elite econômica e educacional – e nem mesmo essa elite tem a penetração que o mercado imagina.

O retrato nas empresas é ainda mais revelador

Do lado corporativo, o quadro também desmonta o mito. A pesquisa da Bain & Company de 2025 mostra que apenas 25% das empresas brasileiras têm hoje ao menos um caso de uso baseado em IA generativa. Em 2024, era 12%. Ou seja, mesmo entre as empresas, a maioria ainda não começou – ou começou mal, com um piloto tímido que nunca escalou.

Esse padrão se repete globalmente. Dados de 2025 compilados pela Menlo Ventures mostram que, embora 88% das organizações afirmem usar IA em pelo menos uma função, 62% estão presas no que o próprio setor chamou de pilot purgatory – o purgatório dos pilotos: projetos que nunca saem da fase experimental. Apenas 7% das empresas conseguiram escalar a IA de forma integrada. Apenas sete. Em cem.

Colocando em palavras simples: a maioria está falando de IA, uma parcela menor está testando, e uma minoria minúscula está realmente construindo. A percepção de que todo mundo já está no jogo é uma ilusão de redes sociais, não uma descrição da realidade.

O momento mais barato da história para construir

Enquanto essa inércia coletiva acontece, algo extraordinário está em curso do lado técnico. Segundo a mesma pesquisa da Bain, o custo de usar modelos de linguagem caiu aproximadamente 95% desde 2022. Noventa e cinco por cento. O que custava mil reais há três anos, custa cinquenta hoje. E continua caindo.

Isso tem uma consequência que poucos gestores internalizaram: nunca na história da tecnologia foi tão barato construir um produto digital. Uma pessoa sozinha, com as ferramentas corretas, consegue hoje entregar em um fim de semana o que uma equipe de dez engenheiros entregava em três meses há cinco anos. Não é exagero. É o estado atual do que está possível.

Some isso ao fato de que a maioria das pessoas e empresas ainda não está usando IA de forma séria, e você tem um cenário raríssimo: um mercado enorme, pouco explorado, com barreira de entrada em queda livre. Historicamente, esse tipo de janela dura pouco. E ela está aberta agora.

Os dois tipos de arrependimento

Em psicologia comportamental, existe uma distinção clássica entre dois tipos de arrependimento: o da ação e o da inação. Arrependimentos de ação – fiz algo e deu errado – são intensos no curto prazo, mas tendem a se diluir com o tempo. Aprendemos, racionalizamos, seguimos. Arrependimentos de inação – poderia ter feito, e não fiz – funcionam de forma oposta. Começam pequenos e crescem com o tempo, alimentados pela comparação com quem fez e por trajetórias alternativas que imaginamos mas nunca viveremos.

A onda atual da IA tem o desenho clássico de um futuro arrependimento de inação para quem não agir agora. Em dez anos, a pergunta que muitos profissionais vão se fazer não será “por que arrisquei?”. Será “por que não construí nada quando ficou tão fácil?”.

Conheço executivos talentosos que passaram 2023, 2024 e 2025 inteiros lendo sobre IA, assistindo webinars, fazendo cursos, contratando consultorias – mas sem nunca terem feito nada. Nenhum produto. Nenhuma automação significativa na própria rotina. Nenhum experimento concreto com clientes. Eles se informaram tanto que criaram a ilusão de estarem participando. Não estavam. Não estão.

O que construir quando você não sabe por onde começar

A orientação, aqui, precisa ser concreta. Construir, na prática, não significa lançar uma startup, desenvolver um aplicativo para o mercado ou criar um produto revolucionário. Significa algo muito mais banal – e muito mais poderoso: começar a entregar alguma coisa funcional, em alguma forma, que não existia antes, usando IA como ferramenta central.

Pode ser um agente que organiza sua caixa de e-mail toda manhã. Um script que transforma reuniões em relatórios estruturados. Uma planilha inteligente que analisa seus contratos. Um chatbot interno que responde as dúvidas recorrentes da sua equipe. Um processo de onboarding novo. Uma automação que elimina uma hora boba do seu dia.

Parece pouco? Não é. Porque o valor do que você constrói no começo não está no produto – está na musculatura que você desenvolve. A cada coisa construída, você aprende a dar contexto a um agente, a decompor um problema em passos executáveis, a reconhecer quando o output está errado, a combinar ferramentas. Essa é a fundação sobre a qual produtos reais são construídos depois. E não existe atalho. Só quem constrói, aprende a construir.

O custo invisível de continuar assistindo

Para cada mês que passa sem você construir, algo acontece que é difícil de enxergar no momento: a distância entre você e quem está construindo aumenta. Não linearmente – exponencialmente. Porque quem constrói desenvolve intuição, descobre padrões, acumula casos e começa a ver oportunidades que você literalmente não consegue ver.

Não é uma questão de inteligência. É uma questão de exposição repetida. E esse gap, uma vez formado, é caro de fechar. Muito mais caro do que ele seria se você tivesse começado cedo, com o produto imperfeito, o experimento malfeito, a automação tosca. Todo mundo começa mal. Os que começam, melhoram.

Existe uma verdade desconfortável nos dados que apresentei no começo deste texto: o fato de a maioria não estar usando IA é a sua oportunidade, não uma desculpa. Se dois em cada três brasileiros conectados ainda não embarcaram, e se apenas 7% das empresas do mundo escalaram de verdade, há espaço competitivo imenso para quem tomar a decisão agora.

Um convite direto

Termino com uma provocação. Em vez de fechar este artigo e voltar para sua rotina, escolha uma coisa pequena – qualquer coisa – e construa algo com IA esta semana. Não em três meses. Não depois do planejamento estratégico. Não quando você tiver um tempo melhor. Esta semana.

Pode ser ridículo. Pode ser feio. Pode não funcionar direito. Tudo bem. O objetivo não é o produto – é quebrar a inércia e entrar no grupo que está aprendendo com as mãos no teclado, e não com os olhos no feed.

Daqui a alguns anos, você vai lembrar deste período como o momento em que a porta estava aberta. A pergunta é se você vai lembrar como alguém que atravessou – ou como alguém que assistiu.

Construa. Ou arrependa-se.

Compartilhar:

Fundador da NERD Partners, empresa que conecta inovação e pesquisa aos negócios estabelecidos, atendendo clientes como Petrobras, Itaú, Ambev, BASF, Bayer e Unilever. Foi Diretor Global de Inovação da Ambev e líder de Inovação Aberta no Itaú. Atua como conselheiro de inovação em grandes empresas e é professor da Fundação Dom Cabral, FGV e Insper. Além disso, integra o conselho da MIT Sloan Management Review no Brasil.

Artigos relacionados

Reduzimos o analfabetismo. Agora precisamos evitar que os jovens abandonem a escola.

Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais ficou abaixo de 5%. O avanço, porém, expõe uma nova urgência: milhares de jovens continuam deixando a escola para trabalhar. O desafio agora é construir caminhos que permitam estudar, gerar renda e desenvolver competências para um mercado de trabalho em rápida transformação.

Entre o burnout, a felicidade e a IA: o que aprendemos no Mind Summit 2026

Em sua primeira experiência em um grande evento de negócios, duas estudantes foram convidadas a refletir sobre temas que impactam diretamente a nova geração de profissionais. O resultado foi uma jornada de descobertas sobre bem-estar, propósito, trabalho e o papel das pessoas em um futuro cada vez mais tecnológico.

O futuro da governança continua sendo humano

Com a participação de nomes como Christopher Garman, Thomas Shannon, Sergio Rial, Jeane Tsutsui e Guilherme Horn, o Congresso IBGC 2026 propõe um debate sobre um dos temas mais relevantes da atualidade: como exercer liderança e governança em um mundo marcado por inteligência artificial, incertezas geopolíticas e mudanças cada vez mais rápidas, sem abrir mão das competências que permanecem essencialmente humanas.

Crédito justo depende de informação, não apenas de regulação

Investigações sobre práticas abusivas colocam em evidência a necessidade de repensar a relação entre instituições financeiras e consumidores. Em um ambiente marcado por inovação digital e alta demanda por crédito, a transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do setor.

O conselho do Mind Summit 2026: mens sana in “corporate” sano

Das reflexões de Amy Edmondson sobre segurança psicológica aos alertas de Michael Long sobre a economia da atenção, passando pelas provocações de Paul Goldsmith e Deepika Chopra, a última edição do Mind Summit revelou um ponto em comum: o futuro do trabalho dependerá menos da capacidade das máquinas e mais da nossa habilidade de preservar aquilo que nos torna humanos em meio à aceleração tecnológica.

Vendas, Liderança
17 de setembro de 2026 15H00
Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Carol Manciola - CEO da Conectas e autora dos best sellers #BORA BATER META, Coragem e mais alguns Cês da Vida e do recém-lançado Vendas Movem o Mundo.

Oferecido por:
7 minutos min de leitura
Marketing
17 de setembro de 2026 13H00
As principais lições para quem está entrando no mundo das buscas generativas e quer entender como marcas passam a ser encontradas, citadas e recomendadas pelas IAs

Clayton Melo - Jornalista, estrategista de inovação, GEO PR, storytelling estratégico e comunicador de futuros. Tem MBA em Marketing pela FGV, Master em Foresight e Design de Futuros pela ESPM e formação em Leadership for the AI Age (MIT Professional Education) e Multimedia Storytelling pela University of the Arts London. É diretor de IA, Foresight e Inovação da GBR.

Oferecido por:
Direito, Regulação & Compliance
17 de setembro de 2026 08H00
Quando uma grande empresa entra em recuperação judicial, os impactos não ficam restritos ao seu balanço. Fornecedores deixam de receber, investimentos são adiados, empregos ficam ameaçados e a atividade econômica perde força, criando um efeito dominó que alcança empresas e consumidores em todo o país.

João Alberto Graça - Advogado, consultor em Direito Tributário, Societário e Governança Corporativa, membro do Conselho de Contribuintes e Recursos Fiscais do Estado do Paraná

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Liderança
16 de setembro de 2026 18H00
Ao observar a comunicação constante de um pequeno grupo de galinhas-d’angola, o autor encontrou uma metáfora surpreendente para um dos maiores desafios dos líderes: perceber, interpretar e responder aos sinais que as pessoas emitem antes que o silêncio, a desmotivação ou a ruptura se tornem irreversíveis.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

Oferecido por:
12 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de setembro de 2026 14H00
A área branca se tornou um ativo estratégico! Energia, refrigeração, distribuição elétrica e gestão térmica passaram a determinar quais infraestruturas conseguirão acompanhar a próxima geração da transformação digital.

Felipe Vasco da Silva - Diretor de Aplicações Tecnológicas para a América Latina da Vertiv

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
16 de setembro de 2026 08H00
Em tempos de exposição digital permanente, o compartilhamento de fotos e informações de crianças nas redes sociais exige uma reflexão cada vez mais necessária: até que ponto registrar memórias é diferente de tornar a infância pública? O fenômeno do sharenting convida pais e responsáveis a repensarem os limites entre afeto, privacidade e responsabilidade no ambiente online.

Ana Bia Medeiros - Líder em Educação na Kiddle Pass

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
15 de setembro de 2026 14H00
Mais conectado, informado e exigente, o consumidor de hoje compara sua experiência de hospedagem com os melhores serviços que encontra em qualquer setor. Em um mercado cada vez mais competitivo, o futuro dos hotéis dependerá da combinação entre inovação, eficiência e de pessoas que tenham a capacidade de criar experiências memoráveis

Rodrigo Miluzzi - Diretor de Operações do Grupo Mabu

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
15 de setembro de 2026 08H00
A partir de uma conversa com Rogério Almeida, principal executivo do Cristália, este artigo discute como investimentos de longo prazo em pesquisa, tecnologia e capacidade produtiva podem contribuir para a construção de maior autonomia científica e industrial no Brasil.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

Oferecido por:
23 minutos min de leitura
Tecnologia e inovação, Estratégia
14 de setembro de 2026 18H00
A pergunta tem aparecido cada vez mais nas reuniões de orçamento. O desafio é que a resposta raramente está no código. Mais do que anunciar o fim do SaaS, a nova onda tecnológica está redefinindo onde o valor do software realmente está, quem o captura e quais capacidades as organizações escolherão desenvolver ou contratar.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

Oferecido por:
13 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
14 de setembro de 2026 14H00
Um erro pesa mais do que dez acertos! A ciência mostra que experiências negativas exercem um impacto desproporcional sobre nosso comportamento. Nas organizações, essa tendência pode fazer com que líderes se tornem especialistas em apontar falhas e deixem invisíveis os comportamentos que fortalecem resultados, aprendizado e colaboração.

Valter Bahia Filho - Autor e consultor educacional de Neurociência e Comportamento, Psicologia Positiva, Comunicação, Artes e Gestão de Pessoas.

Oferecido por:
12 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução