Cultura organizacional, Lifelong learning
9 minutos min de leitura

Neuroplasticidade organizacional: a nova vantagem competitiva está em desaprender

Mais do que absorver conhecimento, este artigo mostra por que a capacidade de revisar, abandonar e reconstruir modelos mentais se tornou o principal motor de aprendizagem e adaptação nas organizações em um mundo acelerado pela IA.
CEO da Altheia - Atelier de Tecnologias Humanas e Digitais. Atua consultivamente na intersecção entre inteligência artificial e humana, transformação digital e organizacional. Apoia empresas e pessoas a navegarem na complexidade da nova economia há mais de 20 anos - conectando tecnologias digitais, dados, marcas e pessoas com propósito.

Compartilhar:

Está cada vez mais evidente que a vantagem competitiva dos negócios em 2026 mudou de lugar. Não está mais em quem tem a melhor tecnologia, o melhor produto, o melhor preço. Está em quem consegue evoluir mais rápido que o próprio contexto. O desafio agora é traduzir essa intuição em prática nos negócios e a tradução exige uma definição mais precisa do que estamos chamando de aprendizagem organizacional.

Me deparei com um termo novo, e particularmente útil, para nomear essa capacidade no relatório  “The Definitive Guide to Corporate Learning 2026” da Josh Bersin Company: Neuroplasticidade Organizacional. A inspiração é obvia, o cérebro humano, que mantém sua vitalidade reorganizando continuamente conexões neurais (criando novas e podando as que não servem mais). Organizações vivas precisam praticar o mesmo movimento contínuo no plano coletivo. E é nessa capacidade, mais do que em qualquer ferramenta ou treinamento isolado, que reside a vantagem competitiva real.

O termo é particularmente generoso porque carrega, em uma só palavra, os dois movimentos que sustentam toda aprendizagem viva: criar conexões novas e abandonar as que perderam função. Sem o segundo movimento, o primeiro fica preso. Esse é, no fundo, o ponto-chave deste artigo.

Mas, antes de chegar lá, vale uma distinção que precede tudo, a diferença entre treinamento e aprendizagem. Entender essa diferença é o primeiro passo para destravar valor real.

Treinamento adiciona conhecimento. Aprendizagem muda comportamento.

Treinamento é cumprido em horas, módulos, certificações, plataformas. Aprendizagem é metabolizada, incorpora-se à forma como uma equipe decide, erra, conversa, prioriza. Treinamento opera no indivíduo. Aprendizagem opera no coletivo. As duas coisas convivem, se reforçam, mas não se substituem. E a maior parte do investimento corporativo, hoje, ainda está concentrada na primeira.

Os números recentes ajudam a dimensionar a oportunidade. O report que já mencionei acima, Definitive Guide to Corporate Learning, mostra que o mercado global de treinamento corporativo movimenta US$ 400 bilhões por ano. E que 74% dos líderes seniores reconhecem que suas empresas ainda não têm os skills necessários para competir. O dado importante aqui não é o gap em si é o que ele indica: existe disposição para investir, existe consciência do problema, existe energia institucional. Mas falta direção, que distingue, dentro do mesmo orçamento, o que efetivamente muda comportamento coletivo daquilo que apenas produz registro.

A pesquisa anual da Association for Talent Development (ATD) complementa o cenário quando traz que 72% das organizações reconhecem não ter ainda equipe nem tempo dedicado para sustentar uma cultura viva de aprendizado. O “TalentLMS 2026 L&D Benchmark Report” mostra que 70% dos funcionários admitem fazer multitasking durante o treinamento, e que quase metade ainda enxerga essas horas como tempo separado do trabalho real, como uma interrupção. Esses dados nos fazem refletir sobre o fracasso do modelo herdado e como se abre uma janela cheia de oportunidades para darmos um reset nesse sistema.

A pergunta nova: quanto a sua empresa consegue desaprender?

Aprender, na maturidade tecnológica em que vivemos, ficou mais fácil do que nunca. Há ferramentas, conteúdos, modelos e comunidades em abundância. O custo marginal do conhecimento caiu para perto de zero. O que continua escasso, valioso e profundamente humano é a outra metade do processo: a capacidade de revisar, ou seja, de abandonar modelos mentais, processos e métricas que já não sustentam o futuro, mesmo que ainda funcionem o suficiente para parecerem certos.

É exatamente o que a neurociência ensina sobre o cérebro vivo. Não sou especialista no tema mas aprendi que a neuroplasticidade não funciona apenas pela criação de novas conexões; funciona também, e sobretudo, pela poda sináptica das conexões que deixaram de servir. Sem essa poda, o sistema fica congestionado. Empresas funcionam de forma muito parecida. Quanto mais rápido uma organização consegue identificar o que parou de servir e abrir mão dele, mais leve fica para abraçar o novo. É um movimento que parece sutil, mas reorganiza tudo.

Vale uma distinção essencial aqui: podar não é mudar de direção a toda hora. É o oposto!

Empresas que mudam de tese a cada trimestre não estão aprendendo, estão em desorganização estratégica, e isso esgota qualquer time. Aprendizagem organizacional, no sentido neuroplástico, é a forma mais madura de discernimento, é saber quais conexões precisam ser sustentadas com firmeza para que outras possam ser revisadas com critério.

Por isso a IA, mais do que uma tecnologia, é um convite. Ela amplifica a capacidade de quem já sabe revisar ideias, e desafia quem ainda não treinou esse músculo. Empresas que constroem, com intencionalidade, essa disposição contínua de criar e podar estão capturando valor desproporcional. Segundo a pesquisa de 2026 do Bersin, organizações que adotaram modelos chamados de ‘dynamic enablement’ – em que a aprendizagem está embutida no fluxo de trabalho, e não isolada em programas – são 28 vezes mais propensas a destravar potencial humano, seis vezes mais propensas a superar metas financeiras e sete vezes mais propensas a alcançar alta produtividade. Os múltiplos são generosos, e mostram que a diferença não está no investimento em tecnologia e sim na arquitetura de aprendizagem que a sustenta.

O que estamos falando aqui é sobre abandonar a separação entre trabalho e aprendizado e reconhecer que, em um ambiente de mudança contínua, aprender precisa estar dentro do trabalho, no momento, em fluxo. Aprender deixa de ser tarefa adicional na agenda já cheia das pessoas, e passa a ser uma forma diferente de trabalhar. Mais leve. Mais energizante. Mais sustentável.

Aprendizagem sob um novo ponto de vista.

Quando aprendizagem é tratada de forma isolada e como função de uma área específica, de RH, T&D, universidade corporativa, ela tende a virar programa pela natureza da delegação. O que é responsabilidade de um departamento perde a capacidade de virar cultura.

A aprendizagem como vantagem competitiva, na escala que estamos discutindo, é arquitetura. Não exclui treinamentos de ampliação de repertório (que são fundamentais), mas ela está na forma como esses treinamentos são ministrados e seus conteúdos ressignificados. E como a liderança pauta suas reuniões, como decisões erradas são tratadas (como falha individual ou como informação valiosa?), como capital é alocado (para escalar o que funciona ou para investigar o que está deixando de funcionar?), a forma como a sucessão é desenhada (premia quem entrega o trimestre ou quem sustenta a mudança difícil?), e a forma como métricas são revisadas (com que frequência a empresa se permite mudar o que mede?).

Essas perguntas mudam a conversa de lugar. Saem do campo de cumprimento (quantas horas, quantos cursos) e entram no campo da capacidade institucional. E é nesse campo que se constrói diferenciação real.

O que se abre quando mudamos a perspectiva.

O orçamento de IA por exemplo deixa de ser quase integralmente alocado a licenças e treinamentos pontuais e passa a financiar o redesenho de como decidimos, como erramos, como organizamos times, como medimos… A tecnologia segue importante, mas se torna parte de uma arquitetura mais ampla, com retorno mais consistente.

Governança ganha qualidade. O comitê executivo passa a equilibrar a função de ratificação com uma nova função de revisão. A pauta amplia e abre espaço estruturado para o que precisa ser revisitado. É um pequeno ajuste com impacto enorme porque legitima, dentro do fórum mais formal da empresa, o gesto de mudar de ideia.

Métrica ganha sofisticação. Continuar medindo o volume de treinamento faz sentido, mas a liderança passa a observar também a velocidade de revisão organizacional. Quanto tempo leva entre uma sinalização do mercado e uma decisão consequente? Esse número é difícil de medir, e por isso mesmo é o número certo para perseguir. Métricas fáceis costumam ser fáceis porque medem o que pouco importa.

Sucessão ganha amplitude. Identificar líderes pela capacidade de revisar posições diante de evidência nova, e não apenas pela coerência aparente com posições passadas, abre o pool de talento. Pessoas que antes eram lidas como inseguras passam a ser reconhecidas como maduras.

Liderança executiva ganha autenticidade. O CEO que modela publicamente o desaprender, por exemplo admitindo uma hipótese errada em comitê, comunicando uma revisão de rota com clareza, que fala abertamente sobre o que está repensando, gera um tipo de confiança institucional que nenhum discurso constrói. É o exemplo mais barato e mais escasso que uma empresa pode oferecer ao próprio time. E, em um momento de transformação acelerada, é o que mais energiza.

Imaginação ganha espessura. Novos formatos criativos para a abertura deliberada de repertório são promovidos. Filosofia para um time de produto, antropologia para marketing, neurociência para liderança, arte para quem escreve… Empresas que protegem uma fração intencional do investimento para essas capacidades formam pessoas com pontos de vista próprios, líderes autênticos e que sabem conectar pontos. E, em uma economia em que a IA produz a média, essas habilidades são ativos competitivos raros.

Talento ganha gravidade. As empresas que tratam aprendizagem como núcleo do negócio se tornam mais atrativas para um perfil específico de professional, aquelas pessoas curiosas, ambiciosas, que querem trabalhar onde podem evoluir junto com a organização. Sabemos que o que retém os melhores profissionais hoje não é apenas remuneração ou benefícios, é a percepção de que estão em um ambiente onde aprender faz parte do trabalho. Cultura de aprendizagem real funciona, então, como sistema gravitacional que atrai pessoas com energia e cuida para que elas permaneçam.

Por onde começar.

Não é preciso reescrever a empresa para ativar essa nova capacidade. Há movimentos pequenos que abrem um grande espaço. Uma reunião mensal de comitê dedicada exclusivamente a revisar premissas, uma rotina semanal de cada líder identificando uma evidência nova que mudou sua leitura sobre alguma coisa e métricas de aprendizagem que medem hipóteses testadas e abandonadas, não apenas iniciativas concluídas, são exemplos disso.

São gestos modestos. Mas, quando entram no metabolismo da empresa, mudam a forma como a organização respira. Nas conversas que tenho com lideranças, percebo que muitas vezes o gesto mais difícil não é desenhar a nova arquitetura, mas reconhecer publicamente que algo da arquitetura anterior já não cabe e abandona-la. Essa nomeação franca costuma destravar uma quantidade de energia vital que surpreende.

A boa notícia, e talvez a mais importante deste momento, é que aprender juntos é uma das experiências mais energizantes que um time pode ter. Empresas que constroem essa disposição percebem, em pouco tempo, um ambiente em que a curiosidade circula, a discordância produtiva floresce e a inovação deixa de ser projeto especial e vira fluxo natural. Essa é a vantagem competitiva real.

A IA não é a transformação, ela é o convite. E o que se constrói, em cada empresa, a partir desse convite, depende menos da tecnologia escolhida e mais da neuroplasticidade que essa empresa cultiva: a disposição coletiva e contínua de criar conexões novas, podar as que já não servem e sustentar com clareza as que dão identidade.

Onde há espaço para aprender, e para desaprender, há espaço para o que ainda não imaginamos.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Se a IA não te recomenda, você não está no jogo

A partir de uma experiência cotidiana de consumo, este artigo mostra como a inteligência artificial passou a redefinir a jornada de compra – e por que marcas que não são compreendidas, confiáveis e relevantes para os algoritmos simplesmente deixam de existir para o consumidor.

Flexibilidade não pode ser benefício

E se o problema não for a falta de compromisso das pessoas, mas a incapacidade das organizações de absorver a forma como elas realmente trabalham hoje?

IA não fracassa no modelo – fracassa no negócio

Muito além do algoritmo, o sucesso em inteligência artificial depende da integração entre estratégia, dados e times preparados – e é justamente essa desconexão que explica por que tantos projetos não geram valor.

O custo oculto da inclusão mal feita

Quando falta preparo das lideranças, a inclusão deixa de gerar valor e passa a produzir invisibilidade, rotatividade, baixa performance e riscos reputacionais que não aparecem no balanço – mas corroem os resultados.

ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de abril de 2026 07H00
Se talentos com deficiência não conseguem sequer operar os sistemas da empresa, como esperar performance e inovação? Este texto expõe por que inclusão sem estrutura é risco estratégico disfarçado de compliance

Djalma Scartezini - CEO da REIS, Sócio da Egalite e Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro

6 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
19 de abril de 2026 10H00
Ao tornar os riscos psicossociais auditáveis e mensuráveis, a norma força as empresas a profissionalizarem a gestão da saúde mental e a conectá-la, de vez, aos resultados do negócio.

Paulo Bittencourt - CEO do Plano Brasil Saúde

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
18 de abril de 2026 09H00
Este é o quarto texto da série "Como promptar a realidade" e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência - mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University.

27 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
17 de abril de 2026 15H00
Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater - quando a inteligência artificial vira espetáculo - e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Foresight
17 de abril de 2026 09H00
Este é o terceiro texto da série "Como promptar a realidade". Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado - e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University.

11 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
16 de abril de 2026 14H00
Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita - sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Marcos Ráyol - CTO do Lance!

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Foresight
16 de abril de 2026 09H00
Este é o segundo artigo da série "Como promptar a realidade" e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia - reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

13 minutos min de leitura
Liderança
15 de abril de 2026 17H00
Se liderar ainda é, para você, dar respostas e controlar processos, este artigo não é confortável. Liderança criativa começa quando o líder troca certezas por perguntas e controle por confiança.

Clarissa Almeida - Head de RH da Yank Solutions

2 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Foresight, Tecnologia & inteligencia artificial
15 de abril de 2026 08H00
Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento - e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

23 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de abril de 2026 18H00
Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais, introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.

Marta Ferreira

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão