Liderança
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O que a Odisseia pode ensinar às empresas sobre liderança e crise

Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.
Fundadora e CEO da AB-Global Connections, autora do livro “Inteligência Cultural: Desenvolvendo Competências Globais para o Sucesso Internacional”. Consultora e palestrante especializada em inteligência cultural e negociação global, é professora na Fundação Dom Cabral e poliglota fluente em seis idiomas.

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Recentemente, fui ao cinema assistir a Odisseia, de Christopher Nolan. Antes, havia visto O Retorno (2024), uma leitura mais intimista dos últimos capítulos da trajetória de Odisseu. As duas produções seguem caminhos muito diferentes, mas me levaram à mesma pergunta: “As qualidades que permitem vencer uma guerra também ajudam a construir a paz?”

A Odisseia fala de poder, casamento, hospitalidade, liderança, violência, memória e identidade. Mas há um paradoxo especialmente atual para as organizações: Odisseu sobrevive porque observa, calcula, negocia, disfarça intenções, antecipa ameaças e muda de estratégia com rapidez. Quando a força não basta, usa inteligência. Quando revelar quem é representa risco, torna-se “ninguém”.

São competências extraordinárias em um ambiente hostil. O problema não é usá-las enquanto a ameaça existe. É deixar de revisá-las quando o contexto muda – ou transformar a crise em justificativa permanente para concentrar poder.

A competência certa, no contexto errado

Desconfiança, controle, sigilo e antecipação podem salvar um comandante. Mantidos depois da guerra, porém, podem impedir um homem de voltar a ser marido, pai e governante.

O desafio de Odisseu não é apenas chegar a Ítaca. É descobrir quem se tornou durante a ausência – e se ainda consegue viver no mundo para o qual passou tantos anos tentando retornar.

Nas organizações, ocorre algo semelhante. Sob ameaça, empresas tendem a restringir a circulação de informações, concentrar decisões e recorrer a respostas conhecidas. A literatura organizacional chama esse movimento de threat-rigidity effect: a ameaça estreita a leitura da realidade e comprime o controle. A reação pode ser funcional no curto prazo. O risco está em transformá-la em modelo permanente de gestão.

Centralizar pode acelerar uma resposta emergencial. Pressionar pode mobilizar uma equipe. Aumentar controles pode reduzir um risco imediato. O problema não é manter medidas excepcionais enquanto a ameaça continua. É deixar de testá-las quando o ambiente muda – ou preservar a emergência porque ela legitima uma forma de liderar.

Quando a empresa não declara o fim da emergência

Em um diagnóstico recente de cultura realizado em diferentes unidades de uma organização industrial, encontrei um padrão recorrente.

O que mais me chamou atenção não foi a falta de preocupação com a qualidade. Pelo contrário: havia esforço, cobrança e muitos controles. O problema era outro.

Em algumas unidades, interromper o fluxo para corrigir um desvio era percebido como falha de produtividade, mesmo quando seguir adiante aumentava o retrabalho e o risco. Na prática, a qualidade dependia da pressão externa, da vigilância da gestão e do esforço concentrado da área responsável.

Não era falta de comprometimento. Era um sistema que premiava a continuidade do fluxo e tratava a interrupção como ameaça. A crise não precisava ser oficialmente anunciada: já havia se tornado a lógica de funcionamento.

É assim que a urgência deixa de ser exceção e vira rotina. Tudo é prioritário. Relatórios, aprovações e reuniões se multiplicam, mas raramente se pergunta se ainda cumprem uma função real. A discordância, em vez de trazer informação, começa a ser lida como resistência, falta de comprometimento ou deslealdade.

Nesse ambiente, as pessoas aprendem que é mais seguro confirmar a visão do líder do que apresentar uma realidade inconveniente. Amy Edmondson demonstrou que a segurança psicológica favorece comportamentos de aprendizagem, como discutir erros, pedir ajuda e buscar feedback. Sem espaço para o risco interpessoal, a organização perde justamente a informação de que mais precisa para se adaptar.

O custo é também humano. Segundo o State of the Global Workplace 2026, da Gallup, apenas 22% dos gestores estavam engajados no trabalho em 2025, enquanto 45% relataram ter sentido muito estresse no dia anterior. Os dados não provam que todo desgaste decorra do “modo de guerra”, mas revelam a pressão acumulada sobre quem precisa traduzir demandas crescentes em execução. O comportamento que protegeu a empresa ontem pode comprometer sua capacidade de responder amanhã.

A narrativa que mantém a guerra viva

Organizações não preservam apenas processos de crise. Preservam também suas narrativas:

  • “Não podemos baixar a guarda.”
  • “Só chegamos até aqui porque fizemos sacrifícios.”
  • “O mercado está contra nós.”
  • “Agora não é hora de discutir.”


Essas frases podem ter sido verdadeiras e até necessárias. O problema é que narrativas não apenas descrevem a realidade: elas definem quais comportamentos parecem legítimos dentro dela.

Quando a identidade de uma organização é construída em torno da sobrevivência, delegar parece perda de autoridade, questionar controles parece irresponsabilidade e reconstruir confiança soa como ingenuidade.

Para o líder que conduziu a empresa durante a tempestade, a mudança pode ser ainda mais difícil. Sua autoridade, seu reconhecimento e sua identidade profissional foram construídos naquele modo de atuação. Deixar a guerra também significa abrir mão do personagem que a guerra tornou necessário.

Hospitalidade sem reciprocidade vira ocupação

Uma segunda camada da Odisseia reforça o mesmo princípio. A xenia, lei de hospitalidade protegida por Zeus, estabelecia deveres para os dois lados: o anfitrião acolhia e protegia; o hóspede respeitava a casa, os recursos e os limites de quem o recebia.

Os pretendentes de Penélope rompem esse pacto. Entram como hóspedes e permanecem como ocupantes. Em ambientes globais, a lição continua atual: abertura e adaptação são indispensáveis, mas não significam ausência de critérios. Hospitalidade sem reciprocidade deixa de ser virtude e se transforma em vulnerabilidade.

Em contextos globais, adaptar-se é indispensável. Mas há uma diferença entre flexibilizar a forma de agir e abandonar critérios, identidade ou limites.

Inteligência Global é, antes de tudo, inteligência contextual: compreender interesses, códigos culturais, relações de poder e narrativas – e recalibrar o comportamento quando o contexto muda.

Quatro perguntas para sair do modo de guerra

  1. Que ameaça já desapareceu, mas ainda organiza nossas decisões? Alguns mecanismos continuam ativos não porque sejam necessários, mas porque ninguém declarou o fim da emergência.
  2. Que comportamento foi útil na crise, mas hoje limita autonomia, confiança ou aprendizagem? Centralizar, pressionar e controlar podem ter sido respostas legítimas. Isso não as torna pilares permanentes de cultura.
  3. Que sinais estamos interpretando como deslealdade? Dúvidas, alertas e discordâncias podem incomodar, mas também podem ser a informação que impede a organização de repetir erros.
  4. O que a liderança precisa deixar de fazer para que a próxima etapa seja possível? Reconstruir pode exigir menos heroísmo individual e mais escuta, transparência, experimentação e distribuição de poder.

O verdadeiro retorno

Chegar a Ítaca não significa ter saído da guerra. Pessoas e organizações podem mudar de cenário enquanto continuam emocional, cultural e estrategicamente presas ao conflito anterior.

Talvez esse seja um dos aspectos mais profundos da Odisseia: sobreviver à travessia não basta. As competências necessárias para enfrentar o perigo nem sempre são as mesmas que permitem reconstruir relações, instituições e confiança.

O líder inteligente não é aquele que encontra uma fórmula vencedora e a repete indefinidamente. É aquele que percebe quando o contexto mudou – inclusive quando a mudança exige abandonar comportamentos que antes foram responsáveis por seu sucesso.

Sua organização já saiu da crise – ou apenas mudou de cenário enquanto continua travando a mesma batalha?

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Fundadora e CEO da AB-Global Connections, autora do livro “Inteligência Cultural: Desenvolvendo Competências Globais para o Sucesso Internacional”. Consultora e palestrante especializada em inteligência cultural e negociação global, é professora na Fundação Dom Cabral e poliglota fluente em seis idiomas.

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