Bem-estar & saúde, Liderança
7 minutos min de leitura

Quatro ondas de bem-estar corporativo. Por que as pessoas continuam adoecendo?

Como o Brasil chegou à NR1 e por que esta pode ser nossa última chance de acertar?
Nossa missão é fortalecer um ecossistema dinâmico de colaboração onde startups, empresas e pesquisadores colaboram para desenhar soluções inovadoras e discutir desafios e avanços significativos para o âmbito corporativo. Sempre com uma abordagem sistêmica e inovadora, promovendo reflexões sobre o futuro, visando impulsionar transformações reais e criativas.
Palestrante, consultora e pesquisadora em saúde mental e trabalho sustentável. Ex-executiva da Microsoft, viveu na própria trajetória o que estuda e ensina: depois de um burnout em 2014, foi estudar no Oxford Mindfulness Centre, tornando-se a primeira profissional da América Latina certificada pela instituição. Integrou essa formação com psicologia organizacional, neurociência e inteligência emocional, com certificações pelo MIT e Yale. Desenvolveu o Modelo de Trabalho Sustentável a partir de mais de uma década de atuação em organizações como Google, Meta, Nestlé, Vale, Salesforce e Alpargatas, impactando mais de 20 mil profissionais no Brasil, América Latina e Europa. Atua com palestras, workshops e programas para organizações que querem construir ambientes de alta performance sem custo humano. É graduanda em Psicologia e

Compartilhar:

Ela acordava cedo, entregava além das metas, respondia e-mails até de madrugada. Palestrava em eventos, era promovida, recebia prêmios. Por fora, tudo parecia certo. Por dentro, algo estava mudando rápido demais para ignorar: noites sem dormir, irritação constante, dificuldade de concentração. Sem tempo para parar, se medicou para continuar funcionando. Até que não pode mais esconder – de si mesma e dos outros – e colapsou.

Eu sei como essa história termina porque ela é a minha. E porque, na última década, escutei depoimentos muito parecidos, em empresas de todos os setores e tamanhos.

Muita coisa mudou desde o meu burnout, em 2014. Aprendemos a nomear o problema e passamos a tentar entender a sua origem. Mas o sofrimento psíquico no trabalho não diminuiu.

Segundo dados do Ministério da Previdência Social, foram registrados mais de 500 mil afastamentos do trabalho por saúde mental em 2025. Ansiedade e depressão, somadas, formam o segundo maior motivo de afastamento (atrás apenas dos problemas da coluna).  Foram concedidos mais de 7.500 benefícios por burnout, um aumento de 800% em quatro anos.

Os números, apesar de alarmantes, são só a ponta do iceberg: registram os profissionais afastados pelo INSS, com licenças superiores a 15 dias. Afastamentos mais breves e aqueles causados por questões de saúde relacionadas ao estresse não entram nessa conta.

A Federação das Indústrias de Minas Gerais estima que questões relacionadas à saúde mental podem ter um impacto de até 2,8% do PIB potencial brasileiro, o equivalente a R$282 bilhões por ano. O estudo leva em conta os efeitos diretos (custos com saúde) e indiretos (perda de produtividade e perda de renda), além dos impactos econômicos e sociais (diminuição da atividade econômica, aprofundamento da pobreza e da desigualdade).

O aumento do adoecimento revela o esgotamento causado por um modelo de gestão desenhado para uma realidade que já não existe – e vai muito além da comumente suposta fragilidade individual.

As quatro ondas do bem-estar corporativo

Diante desse cenário, é legítimo perguntar: onde erramos?

Nas últimas décadas, o mercado respondeu ao problema com uma série de soluções, que apresentavam um avanço real em relação à anterior. Não faltaram intenção, investimento ou consciência. O problema é que nenhuma foi longe o suficiente.

Era do Silêncio

Durante algum tempo, o adoecimento no trabalho não tinha lugar nas conversas corporativas. As pessoas se medicavam para continuar funcionando, pediam demissão sem explicar o motivo real ou simplesmente continuavam. Não havia vocabulário e espaço para isso, nem expectativa de que a empresa fosse parte da solução. A produtividade precisava ser pública, mas o sofrimento era privado. Chamo esse período de “a era do silêncio”.

Onda da Responsabilização Individual

Depois veio a primeira onda do bem-estar corporativo: o problema é seu. Mindfulness, resiliência e autocuidado. As organizações passaram a oferecer intervenções pontuais e muitas vezes desconectadas do dia a dia das pessoas. Era papel do indivíduo resolver as suas questões e continuar entregando resultado.

Onda da Liderança Consciente

Em seguida, a segunda onda: o problema é do seu líder. A solução continuava sendo canalizada para o indivíduo, mas dessa vez em posição de liderança. O ambiente, ainda que de forma sutil, começou a entrar na equação, com ferramentas para apoiar os gestores a agir de forma mais empática e consciente.

Onda da Responsabilidade Organizacional

Diante do avanço dos números de afastamentos, o governo federal anunciou uma atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que incluiu as empresas, de forma definitiva, no centro do problema – e da solução. Um avanço genuíno, em que riscos psicossociais, cultura e estrutura passam a ser considerados. Entramos na terceira onda: o problema é da empresa.

O mercado já está sentindo as consequências dessa responsabilidade na prática. Em decisão recente do TRT-2, uma empresa foi condenada a pagar pensão vitalícia a uma funcionária que desenvolveu burnout após quase 20 anos de metas abusivas e pressão constante.

Com o avanço da fiscalização e aplicação de multas, as empresas vão agir. Mas se o foco for somente evitar processos, nos perderemos em documentos bem preenchidos, questionários aplicados e desperdiçaremos a melhor oportunidade que tivemos em décadas.

Assim como qualidade deixou de ser função do controle industrial para se tornar estratégia corporativa, o bem-estar está deixando de ser benefício para se tornar infraestrutura organizacional.

Da mesma forma, a NR1 tem o potencial de ser lembrada no futuro como o momento em que o Estado brasileiro reconheceu, oficialmente, que o risco organizacional não é apenas físico, mas também psicológico e sistêmico. Para isso, a resposta à NR1 não pode ser assunto só do jurídico ou um processo bem-feito de compliance.

Era Sistêmica do Trabalho

Esse movimento aponta para a quarta onda, em que deixamos de buscar um grande vilão para culpar e passamos a olhar para a relação entre todos os elementos que formam o contexto do trabalho. É a onda do sistema.

É impossível evitar o adoecimento no trabalho apostando todos os recursos em um só lugar. É preciso adotar uma perspectiva biopsicossocial, em que se consideram os recursos do indivíduo, a qualidade das relações, a cultura organizacional e a forma como o trabalho está desenhado.

Autonomia, suporte, sentido e capacidade de recuperação são alguns dos recursos pessoais e organizacionais que, segundo os pesquisadores Arnold Bakker e Evangelia Demerouti, promovem motivação e engajamento. No modelo de Demandas e Recursos do Trabalho (JD-R), desenvolvido por eles, esses aspectos funcionam como antídoto direto para a exaustão física e psíquica. Não basta apoiar pessoas exaustas, é preciso refletir sobre o tipo de sistema ao qual estamos pedindo que elas sobrevivam diariamente.

O padrão das organizações sustentáveis

Ao longo de uma década trabalhando com centenas de organizações e milhares de pessoas, um padrão se mostrou consistente: as empresas que conseguem sustentar performance sem adoecer as pessoas se destacam pelo equilíbrio entre quatro dimensões fundamentais.

Foi a partir desse padrão que desenvolvi o Modelo de Trabalho Sustentável, uma abordagem sistêmica, com quatro dimensões interdependentes, que precisam ser trabalhadas simultaneamente:

  • Capacidades humanas: desenvolvimento de foco, autorregulação e gestão de energia. Criar as condições necessárias para que cada pessoa possa desenvolver habilidades fundamentais para sustentar atenção e presença em ambientes de alta pressão, com mudanças constantes e demandas simultâneas.
  • Qualidade das relações: fortalecimento de confiança, comunicação e colaboração. As relações são o tecido social que sustenta (ou corrói) a capacidade de indivíduos com repertórios e expectativas diferentes trabalharem em equipe com um objetivo comum.
  • Cultura organizacional: fomentar o senso de sentido, segurança psicológica e aprendizado contínuo, cuidando do ambiente e dos rituais que são perpetuados diariamente e contribuem – ou atrapalham – a performance das pessoas e a colaboração entre as equipes.
  • Arquitetura do trabalho: recalibrar as demandas, prioridades e recursos. Revisar a estrutura do trabalho, incluindo metas, jornada, autonomia e clareza de papel.

A atuação proativa e preventiva, orientada pela convicção de que são as pessoas que movimentam os resultados das empresas, cria contextos de trabalho em que o alto desempenho não precisa custar a saúde das pessoas.

Quando as quatro dimensões se encontram, o trabalho sustentável emerge como um resultado natural, favorecendo bem-estar, engajamento e performance.

Durante décadas, o sofrimento no trabalho foi privado. A conta, pública. Afastamentos, processos, bilhões em produtividade perdida. Não precisamos esperar a fiscalização chegar para confirmar que o modelo atual já não se sustenta.

A NR-1 não inaugura apenas uma nova obrigação regulatória, mas marca a transição entre dois modelos de gestão: um baseado na extração contínua de desempenho e outro baseado na sustentabilidade humana do trabalho.
As empresas que compreenderem essa mudança cedo protegerão pessoas e serão responsáveis por definir o  padrão competitivo da próxima década.

Compartilhar:

Nossa missão é fortalecer um ecossistema dinâmico de colaboração onde startups, empresas e pesquisadores colaboram para desenhar soluções inovadoras e discutir desafios e avanços significativos para o âmbito corporativo. Sempre com uma abordagem sistêmica e inovadora, promovendo reflexões sobre o futuro, visando impulsionar transformações reais e criativas.

Artigos relacionados

Todo fim de ano, o passado se reelege no seu orçamento

Sua estratégia está no PowerPoint ou no orçamento? No trimestre em que o plano de 2027 ganha aprovação, uma disputa invisível acontece dentro das empresas. De um lado, a estratégia que promete transformação. Do outro, o orçamento que preserva as prioridades de sempre. Quase sempre, é a planilha que decide o vencedor.

A AGI já chegou? E se Ray Kurzweil estiver certo há mais tempo do que imaginávamos?

As declarações recentes dos líderes da OpenAI e da NVIDIA reacenderam uma das discussões mais importantes da era digital: a Inteligência Artificial Geral já é uma realidade? Ao conectar os avanços mais recentes da IA às previsões feitas por Ray Kurzweil décadas atrás, o artigo explora não apenas a evolução da tecnologia, mas também o desafio humano, organizacional e social de acompanhar uma transformação que pode estar acontecendo mais rápido do que imaginávamos.

O que uma prótese de quadril me ensinou sobre os erros de decisão dentro das empresas

Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Nenhuma estratégia é melhor do que a lente que a criou

Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

User Experience, UX, Marketing & growth
2 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

Bruno Almeida - CEO da US Media

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 15H00
Em momentos de retração econômica, cortar custos costuma ser uma resposta imediata. O problema é que algumas das perdas mais importantes não aparecem nas planilhas. Conhecimento acumulado, confiança, experiência e capacidade de inovação formam um patrimônio invisível que pode levar anos para ser reconstruído.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 08H00
O artigo utiliza a clássica fábula dos três porquinhos para mostrar por que organizações que apostam apenas em estruturas robustas, sem capacidade de adaptação, podem se tornar mais vulneráveis justamente quando o ambiente exige flexibilidade e aprendizado contínuo.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 20H00
Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução