Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
6 minutos min de leitura

Se começássemos do zero hoje, construiríamos o mesmo negócio? Talvez você tenha caído na armadilha da transformação digital

Enquanto as empresas correm para adotar IA, pouquíssimas fazem a pergunta que realmente importa: o que somos quando nosso modelo de negócio muda completamente?
Fundador da NERD Partners, empresa que conecta inovação e pesquisa aos negócios estabelecidos, atendendo clientes como Petrobras, Itaú, Ambev, BASF, Bayer e Unilever. Foi Diretor Global de Inovação da Ambev e líder de Inovação Aberta no Itaú. Atua como conselheiro de inovação em grandes empresas e é professor da Fundação Dom Cabral, FGV e Insper. Além disso, integra o conselho da MIT Sloan Management Review no Brasil.

Compartilhar:

Nos últimos meses, tive conversas com executivos de algumas das maiores empresas do Brasil. Grandes nomes do setor de energia, financeiro, bens de consumo, agroquímica e saúde. Empresas com centenas de milhares de funcionários, décadas de história e bilhões em receita. E, com raras exceções, todas estão fazendo a mesma coisa: investindo pesado em IA para fazer melhor o que já fazem.

Pilotos de automação. Provas de conceito em processos internos. Licenças de copilots para aumentar a produtividade das equipes. Tudo isso é real, relevante e vai gerar resultado no curto prazo. Mas tem um problema: estão digitalizando o presente enquanto o futuro redesenha tudo ao redor delas.

Deixa eu ser direto: o desafio não é de tecnologia. É de modelo de negócio. E essa diferença muda completamente o que as organizações precisam fazer agora.

A metáfora da fábrica elétrica que todo mundo cita errado

Num artigo recente, Peter Hirst, do MIT Sloan, resgata um paralelo histórico que considero o mais preciso para o nosso momento. Quando a eletricidade chegou às fábricas, no final do século XIX, a maioria dos gestores fez uma coisa lógica. Substituiu os motores a vapor por motores elétricos e manteve tudo o mais como estava. O resultado? Ganho de produtividade quase zero.

Os ganhos reais vieram décadas depois, quando os engenheiros perceberam que a eletricidade possibilitava reorganizar completamente o chão de fábrica. Sem o eixo central de transmissão de força, cada máquina podia ficar em qualquer lugar. O layout podia ser redesenhado pela lógica do processo, não pela física da correia de transmissão. Isso é que mudou tudo.

O paralelo com a IA é perfeito, e é exatamente onde a maioria das empresas está errando. Estão apenas trocando o motor a vapor por motor elétrico, e achando que fizeram a transformação.

O que é, de fato, uma mudança de modelo de negócio?

Quando falo em modelo de negócio, não estou falando em processo. Processo é como você faz o que já faz. Modelo de negócio é a lógica inteira de como você cria, entrega e captura valor. É quem são seus clientes, qual problema você resolve, por que alguém pagaria por isso, e quem mais poderia fazer isso por um décimo do custo.

A IA está tornando os processos mais eficientes e reduzindo a zero as barreiras de entrada em setores inteiros. Está comprimindo para semanas o que antes levava anos para construir. Está permitindo que novos entrantes, muitas vezes sem estrutura, sem história e sem os custos afundados de uma operação legada, ofereçam valor equivalente ou superior ao que empresas estabelecidas levaram décadas para construir.

Isso não é uma transformação de tecnologia. É uma pressão sobre a relevância.

O setor bancário: quando a mudança é levada a sério

Tenho acompanhado de perto o que um dos maiores bancos do Brasil vem fazendo, e há algo diferente na forma como estão pensando o problema. Não é perfeito, nenhuma organização grande é. Mas a pergunta que eles fazem é diferente.

Em vez de perguntar “como usamos IA para melhorar nossos produtos atuais?”, a pergunta passa a ser outra: “o que um banco precisa ser quando a tecnologia reduz a zero o custo de distribuição de serviços financeiros?”. É uma questão existencial, não operacional. E ela muda completamente as prioridades de investimento, as contratações, as parcerias e, sobretudo, aquilo que a própria instituição está disposta a canibalizar dentro de casa.

Essa disposição para se questionar profundamente é rara. E, na minha experiência, é o que separa as empresas que vão sobreviver às próximas duas décadas daquelas que acabarão como estudos de caso sobre a queda de gigantes.

O problema com os frameworks de mudança que todo mundo usa

A pesquisa do MIT Sloan sobre mudança estratégica – o modelo “Step Up, Step Back” da Dra. Elsbeth Johnson – é sólida e útil. A ideia central é que mudança estratégica real leva de dois a três anos, exige clareza e alinhamento no começo, e paciência do líder para não interferir antes da hora. Concordo com tudo isso.

Mas esse framework assume uma premissa que está deixando de ser verdadeira: a de que a empresa sabe o que precisa mudar. Que existe um destino definido. E que a estratégia pode ser declarada no Ano Zero e executada nos anos seguintes.

No ambiente atual, essa premissa não se sustenta. Não por incompetência no planejamento, mas porque o ambiente está se transformando rápido demais para que qualquer plano de três anos permaneça relevante até o final. A IA está em aceleração exponencial. Os competidores que vão ameaçar seu modelo de negócio em 2027 talvez nem existam hoje.

Isso não invalida o planejamento estratégico, mas invalida a ilusão de que estabilidade é o estado default e a turbulência é a exceção.

O que, então, as empresas deveriam fazer?

Primeiro, separar claramente dois tipos de iniciativa: as que otimizam o modelo atual (necessárias, urgentes, geram caixa) e as que testam o modelo futuro (igualmente necessárias, mais difíceis de justificar internamente, mas as que vão determinar a relevância da empresa em cinco anos). Misturar os dois é receita para matar o segundo em favor do primeiro toda vez que a pressão por resultados aparecer.

Segundo, parar de usar a pergunta “como usamos IA?” e começar a usar “o que nos torna insubstituíveis quando a IA fizer o que fazemos por um décimo do custo?”. Essa pergunta é desconfortável. Muitos executivos evitam fazê-la porque a resposta pode ser assustadora. Mas é exatamente o desconforto que sinaliza onde está, de fato, o trabalho estratégico.

Terceiro, construir a capacidade organizacional de aprender e se adaptar continuamente – não como projeto, mas como músculo. O MIT chama isso de “organizational evolutionary fitness”. Eu chamo de a única vantagem competitiva que a IA não consegue replicar facilmente: a capacidade coletiva de uma organização de questionar suas próprias premissas e mudar antes de ser forçada.

A pergunta que ninguém quer fazer

No fundo, o problema que vejo nos meus clientes não é falta de investimento em tecnologia. Não é falta de talentos. Não é nem falta de vontade de mudar. O problema é que mudar o modelo de negócio exige questionar as razões pelas quais a empresa existe da forma como existe. E isso é uma conversa que ameaça poder, posições, orçamentos e identidades.

É mais confortável comprar mais licenças de IA, contratar mais engenheiros de dados e apresentar no board um roadmap de transformação digital impecavelmente formatado em slides do que se sentar na sala de reunião e perguntar: “se começássemos do zero hoje, construiríamos o mesmo negócio?”.

A resposta honesta a essa pergunta é o ponto de partida real de uma transformação que faz sentido.

O resto é digitalizar o passado com ferramentas do futuro.

Compartilhar:

Fundador da NERD Partners, empresa que conecta inovação e pesquisa aos negócios estabelecidos, atendendo clientes como Petrobras, Itaú, Ambev, BASF, Bayer e Unilever. Foi Diretor Global de Inovação da Ambev e líder de Inovação Aberta no Itaú. Atua como conselheiro de inovação em grandes empresas e é professor da Fundação Dom Cabral, FGV e Insper. Além disso, integra o conselho da MIT Sloan Management Review no Brasil.

Artigos relacionados

Por que pensar sua carreira como um sistema

Mais do que acumular experiências, este artigo propõe uma mudança na forma de pensar carreira. Para a autora, currículo registra conquistas, mas a verdadeira vantagem competitiva nasce de como elas se conectam.

O que significa educar quando as máquinas também aprendem?

Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

As pessoas vão permanecer mais tempo, sua empresa está pronta?

Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

Inovação & estratégia
22 de junho de 2026 15H00
Talvez o maior erro da inovação seja tentar adivinhar o futuro, em vez de entender o que já está diante de nós.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
22 de junho de 2026 09H00
Este artigo mostra como o avanço da IA e da computação em nuvem está redesenhando a eficiência operacional, e por que uma nova geração de gestão de custos se tornou estratégica.

Paulo Laurentys - Chief Commercial Officer (CCO) da A3Data

4 minutos min de leitura
Liderança
21 de junho de 2026 15H00
A partir de uma experiência em meio a mudanças estruturais no setor financeiro, este artigo mostra que, em cenários de alta complexidade, o papel da liderança vai além da operação, exigindo capacidade de sustentar cultura, alinhar expectativas e manter a confiança em meio à incerteza.

Victor Papi - General Manager da Transfeera

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
21 de junho de 2026 08H00
Pagar mais já não basta, médicos estão escolhendo onde trabalhar pelo “como”, não pelo “quanto”. Este artigo revela como a disputa por médicos qualificados está sendo redefinida por fatores estruturais, organizacionais e de experiência profissional.

Rafael Duarte - CEO e fundador do Grupo RD Medicine

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Tecnologia & inteligencia artificial
20 de junho de 2026 14H00
Se mais gente não significa mais resultado, o que ainda justifica equipes gigantes? Este artigo revela como a inteligência artificial está redefinindo estruturas, papéis e critérios de eficiência nas áreas de marketing e growth.

Brian Bittencourt - VP de Growth & Marketing da Woba

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
20 de junho de 2026 08H00
Mais de 92 mil pessoas foram demitidas em tech só nos primeiros meses de 2026, ao mesmo tempo em que big techs reportavam resultados recordes. O Gartner mostra que esses cortes não estão entregando ROI. O problema não é a tecnologia, é a intenção por trás dela.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

12 minutos min de leitura
Lifelong learning, Inovação & estratégia
19 de junho de 2026 14H00
Por trás de um dos reconhecimentos mais cobiçados da AWS, este artigo mostra que o verdadeiro diferencial não está em acumular certificações, mas em construir conhecimento consistente a partir da prática, da comunidade e da evolução contínua.

Alceu Conerado Neto - COO da Dati

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, User Experience, UX
19 de junho de 2026 08H00
A partir de uma cena cotidiana, este artigo expõe um erro recorrente nas organizações: confundir treinamento com preparo e transferir a curva de aprendizagem para o cliente, com impactos diretos na experiência e nos resultados.

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de junho de 2026 16H00
Entre a inovação e o risco, este artigo discute até onde se deve confiar na IA dentro do contexto clínico. A tecnologia, sem dúvidas, amplia capacidades, mas ainda depende de dados de qualidade, supervisão humana e confiança para cumprir seu potencial.

Adalene Tiso - Diretora da unidade Healthcare da Interplayers

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança, Lifelong learning
18 de junho de 2026 08H00
Por que empresas aprendem mais com fracassos analisados com honestidade do que com cases heroicos?

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão