Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
7 minutos min de leitura

Se o colaborador tóxico sai, o problema vai embora com ele?

Rotular profissionais como tóxicos pode encerrar uma conversa, mas raramente resolve o problema. Ao investigar como comportamentos se formam e se repetem nas organizações, o artigo convida líderes a substituírem julgamentos rápidos por diagnósticos mais profundos e eficazes.
Engenheira e especialista em transformação organizacional, com mais de 20 anos de experiência liderando operações, melhoria contínua e programas de mudança em contextos internacionais. Atua com desenho do trabalho, liderança e gestão de pessoas a partir de uma perspectiva operacional e sistêmica. É autora da série A Lean Book.

Compartilhar:

Está na empresa há dezoito anos. Viu quatro reestruturações, seis chefes e três programas de transformação que chegaram com camiseta e sumiram no trimestre seguinte. Quando alguém precisa saber por que aquela exceção do cliente foi aprovada em 2019, procura por ele. É a enciclopédia ambulante do departamento, a pessoa que guarda a norma que ninguém documentou.

Também é quem responde “isso já tentamos, não funcionou” antes de a frase terminar. Na conversa de corredor, aparece como alguém que puxa a equipe para baixo, que chega com a energia no fim e leva junto a de quem chegou com pilha.

Demitir custa caro depois de tanto tempo de casa. Então a empresa vai reduzindo o escopo, tira um projeto aqui, um relatório ali, e vai mantendo a pessoa num arranjo que ninguém decidiu formalmente. O crachá continua funcionando e a carreira parou faz anos.

Esse perfil tem nome nas organizações: colaborador tóxico. E o nome carrega uma suposição que quase nunca é examinada: a de que a pessoa chegou assim.

A lógica que todo mundo compra

Numa feira empresarial, uma palestrante apresentou o encadeamento para uma sala com dezenas de estudantes universitários: “Colaborador tóxico gera cultura tóxica. Cultura tóxica gera rotatividade”. A recomendação veio no slide seguinte: “identificar e remover”.

A cadeia é limpa, cabe em três caixas e todo mundo anotou. O problema está no que ela promete sem dizer em voz alta. Se a relação for mesmo essa, a remoção encerra o assunto: sai a pessoa, a cultura se recupera, a rotatividade cai.

Não é o que se observa: um ano e meio depois, outra pessoa ocupa o mesmo lugar na narrativa da equipe. Às vezes na mesma cadeira, com o mesmo escopo reduzido e a mesma fama. E a cadeia continua sendo apresentada em palco como se o teste já tivesse sido feito em algum lugar.

Achar o culpado resolve?

Em engenharia de processo, causa raiz não é uma opinião sobre a origem do problema. É uma hipótese com critério de verificação. Remove-se a causa e observa-se se a falha volta. Se voltar, não era a causa: era sintoma, ou era uma camada acima dela.

O critério é banal quando o assunto é máquina. Trocou-se o rolamento e o eixo travou de novo três semanas depois? O rolamento não era o problema, e ninguém discute isso. Com pessoas, o teste não é aplicado: o caso encerra no dia do desligamento. Não há revisão em seis meses, não há verificação em dezoito. Quando o mesmo comportamento reaparece na mesma equipe, e com frequência na mesma função, ninguém liga uma coisa à outra, porque o registro anterior foi arquivado como resolvido. É aqui que a conversa sobre colaborador tóxico se separa de qualquer outra conversa sobre falha organizacional. Rótulo não é diagnóstico. Um diagnóstico se sustenta ou cai diante da evidência que vem depois. O rótulo não tem essa obrigação, e por isso nunca é desmentido.

O que cabe dentro da palavra tóxico

No Brasil, a discussão costuma aparecer com outros nomes: assédio moral, liderança tóxica, ambiente tóxico, comportamento abusivo. E essa diferença de linguagem importa porque nem todos descrevem o mesmo fenômeno.

Um estudo realizado com 647 profissionais de saúde brasileiros encontrou que 22,41% relataram ter sofrido assédio moral no trabalho no último ano. Entre as consequências identificadas estavam impactos sobre a saúde, o desempenho profissional e a própria organização, incluindo rotatividade, absenteísmo e erros no trabalho.

Nada disso nega que existam comportamentos destrutivos. Existem, e com consequência mensurável. O problema começa quando comportamentos diferentes são agrupados sob um mesmo rótulo e o rótulo passa a funcionar como diagnóstico da pessoa.

Uma pesquisa do McKinsey Health Institute ajuda a separar as coisas. Entre fevereiro e abril de 2022, foram pesquisados cerca de 15 mil funcionários e 1.000 profissionais de RH em 15 países, incluindo o Brasil. O estudo avaliou, entre outros fatores, comportamentos tóxicos no ambiente de trabalho, carga de trabalho, inclusão, pertencimento e comprometimento da liderança. Em todos os países pesquisados, comportamento tóxico foi o fator com maior impacto sobre sintomas de burnout e intenção de pedir demissão.

E a própria definição usada pela pesquisa é reveladora: comportamento tóxico inclui tratamento injusto ou degradante, comportamento não inclusivo, sabotagem, competição destrutiva, gestão abusiva e conduta antiética. São seis coisas distintas, e nenhuma delas é um traço de personalidade. Todas acontecem entre pessoas, dentro de um ambiente.

A pergunta muda de forma. Deixa de ser quem é a pessoa e passa a ser o que mudou: a pessoa, a função, o contexto, ou a relação entre os três. Investigar uma causa é uma coisa. Nomear um culpado é outra, e é a mais rápida.

Como alguém chega a esse ponto

O que falta nessa conversa é o mecanismo. Ninguém é contratado com dezoito anos de casa.
O comportamento que hoje aparece na avaliação foi construído por uma sequência de decisões, e cada uma delas era defensável no dia em que foi tomada.

A promoção que foi para outra pessoa, com justificativa razoável. O cargo preenchido por alguém de fora, porque o prazo era curto. A formação que entrou no orçamento e saiu na revisão. A realocação para uma função que não combinava com o perfil, decidida às pressas numa reestruturação. O programa que chegou com entusiasmo e não teve segunda edição.

Nenhuma dessas decisões é um escândalo, e várias delas foram tomadas por gestores que já saíram da empresa. Somadas ao longo de uma década, viram um histórico. O comportamento que hoje incomoda pode ser o registro desse histórico, não necessariamente a origem dele.

O tempo passou a pesar mais do que pesava. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a parcela da população brasileira com 60 anos ou mais subiu de 11,3% em 2012 para 16,6% em 2025. Projeções construídas a partir dos microdados da mesma pesquisa apontam a idade média da força de trabalho indo de 38,8 anos em 2022 para 42,1 em 2060, com a fatia de pessoas de 50 anos ou mais saindo de 22,4% para perto de um terço. Permanências longas na mesma organização deixam de ser exceção.

Isso desloca o problema. Em vez de esperar a defasagem aparecer em forma de comportamento, a organização pode acompanhar a capacidade do primeiro ao último ano da pessoa na casa.

Existem operações que tratam esse ciclo como sistema de medição, e não como rótulo. Testes periódicos de aptidão para recolocar a pessoa numa função compatível com a capacidade atual. Formação continuada ao longo de toda a permanência, não só na entrada. Mestres aposentados que voltam como instrutores, com o conhecimento acumulado virando insumo de treinamento em vez de peso morto no organograma.

Nada disso depende de discurso sobre pessoas. Depende de existir, ou não, um mecanismo que percebe a defasagem antes de ela virar comportamento.

Explicar não é desculpar

Os 5% existem: assédio, fraude e violência não pedem diagnóstico organizacional, pedem consequência, e a remoção é a resposta certa. Explicar como alguém chegou a um comportamento não é desculpar o comportamento.

Dados do Novo Caged indicam que 51,3% dos trabalhadores formais foram desligados ou pediram demissão em doze meses.

Num mercado que troca metade do quadro por ano, remover é o caminho de menor atrito. É também o que menos ensina, porque nada fica registrado sobre o que produziu aquele comportamento, e a organização entra na substituição seguinte com a mesma informação que tinha antes.

E se o problema voltar?

Um diagnóstico pode estar errado, e existe maneira de descobrir. Retira-se a causa apontada e olha-se de novo alguns meses depois.

Se uma pessoa sai e o mesmo comportamento reaparece na mesma função, o que foi removido: a causa ou apenas o ocupante?

A pergunta vale para um rolamento, para um fluxo de aprovação e para uma decisão sobre gente.
Um rótulo não oferece essa verificação. Fecha o caso no dia em que é aplicado e não responde por nada depois.
A distinção é técnica, não retórica. E quando o diagnóstico erra, quem sai pela porta é uma pessoa, enquanto a causa continua dentro da empresa.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Se o colaborador tóxico sai, o problema vai embora com ele?

Rotular profissionais como tóxicos pode encerrar uma conversa, mas raramente resolve o problema. Ao investigar como comportamentos se formam e se repetem nas organizações, o artigo convida líderes a substituírem julgamentos rápidos por diagnósticos mais profundos e eficazes.

Todo fim de ano, o passado se reelege no seu orçamento

Sua estratégia está no PowerPoint ou no orçamento? No trimestre em que o plano de 2027 ganha aprovação, uma disputa invisível acontece dentro das empresas. De um lado, a estratégia que promete transformação. Do outro, o orçamento que preserva as prioridades de sempre. Quase sempre, é a planilha que decide o vencedor.

A AGI já chegou? E se Ray Kurzweil estiver certo há mais tempo do que imaginávamos?

As declarações recentes dos líderes da OpenAI e da NVIDIA reacenderam uma das discussões mais importantes da era digital: a Inteligência Artificial Geral já é uma realidade? Ao conectar os avanços mais recentes da IA às previsões feitas por Ray Kurzweil décadas atrás, o artigo explora não apenas a evolução da tecnologia, mas também o desafio humano, organizacional e social de acompanhar uma transformação que pode estar acontecendo mais rápido do que imaginávamos.

O que uma prótese de quadril me ensinou sobre os erros de decisão dentro das empresas

Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Inovação & estratégia
3 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a pergunta mais importante já não é qual solução de IA adotar, mas quem está definindo os limites, os objetivos e as regras de uso dessa tecnologia dentro da organização.

Erick Rezende - Diretor de Delivery na Cognitivo AI

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
2 de setembro de 2026 14H00
À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de repensar o papel da experiência nas organizações e na sociedade. Tomando o comportamento do eleitor 70+ como ponto de partida, o artigo questiona o que faz alguém continuar contribuindo quando já não é obrigado a fazê-lo e por que essa pode ser uma das perguntas mais importantes para empresas que desejam se preparar para a era da longevidade.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services

6 minutos min de leitura
User Experience, UX, Marketing & growth
2 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

Bruno Almeida - CEO da US Media

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 15H00
Em momentos de retração econômica, cortar custos costuma ser uma resposta imediata. O problema é que algumas das perdas mais importantes não aparecem nas planilhas. Conhecimento acumulado, confiança, experiência e capacidade de inovação formam um patrimônio invisível que pode levar anos para ser reconstruído.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 08H00
O artigo utiliza a clássica fábula dos três porquinhos para mostrar por que organizações que apostam apenas em estruturas robustas, sem capacidade de adaptação, podem se tornar mais vulneráveis justamente quando o ambiente exige flexibilidade e aprendizado contínuo.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 20H00
Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução