Empreendedorismo
6 minutos min de leitura

A longevidade das PMEs como objetivo social

Se seis em cada dez empresas não sobrevivem, o problema não é apenas o ambiente. Este artigo revela que a alta mortalidade das PMEs no Brasil está ligada a falhas internas de gestão, governança e tomada de decisão
Tem mais de 30 anos de experiência como analista, gestor e advisor no mercado de capitais, mas também como quem entra em uma empresa para entender o que os números estão tentando dizer. Atua hoje como advisor independente para pequenas e médias empresas

Compartilhar:

Existe uma estatística que deveria perturbar qualquer pessoa interessada no desenvolvimento do Brasil, mas que passa despercebida em meio ao barulho das notícias sobre os problemas fiscais e taxa de juros: a taxa de mortalidade das empresas.

Segundo o IBGE, 6 em cada 10 companhias não sobreviveram após cinco anos de existência (Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo 2022, o último divulgado).

Em um país com demandas sociais gigantescas, esse indicador soa como uma tragédia silenciosa. A grande maioria dessas baixas não é de grandes corporações, que aparecem nos jornais, mas de pequenos e médios negócios, que representam 97% das empresas ativas do país.

Quando uma PME fecha, toda a sociedade sofre. De acordo com levantamento do Sebrae, com base em dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), 80% do saldo de empregos gerados nos últimos 3 anos são em pequenas e médias empresas.

Apesar disso, raramente tratamos a longevidade das PMEs como uma questão econômica e social de primeira ordem.

O que mata uma PME?

Quando investigamos as causas da mortalidade empresarial, as respostas mais comuns culpam o ambiente “externo”: juros altos, carga tributária, instabilidade macroeconômica. Não há dúvida de que esses fatores existem e, no Brasil particularmente, tornam a vida do empreendedor mais árdua que o ideal. Mas isso explica parte do problema.

Pesquisa do Sebrae sobre mortalidade de micro e pequenas empresas identificou há muito tempo um conjunto de causas internas igualmente relevantes: falta de capital de giro, endividamento excessivo, deficiências no planejamento e lacunas de conhecimento em gestão.

O que vejo na prática como consultor de empresas é as PMEs focarem somente em KPIs financeiros. Esses dados são importantes, mas quando estão ruins, na maioria das vezes, representam um sintoma, não a doença.

Os dados financeiros refletem o resultado de decisões já tomadas. Os problemas reais de uma empresa raramente estão no balanço e sim nas circunstâncias que produziram aquele resultado. Desde uma estratégia mal formulada, processos decisórios pouco estruturados, governança inexistente, métricas de desempenho inadequadas, relacionamento disfuncional com bancos e fornecedores, incapacidade de se tornar relevante para o cliente são apenas alguns dos motivos.

Recentemente, trabalhei em uma empresa agrícola de Minas Gerais, com faturamento de R$ 150 milhões por ano. A operação inteira era tocada por uma única pessoa. Falei para o dono: Não sei como você sobrevive. Ele reconheceu o problema, mas não tinha as ferramentas para resolvê-lo. Aliás, reconhecer e resolver são fases bem diferentes.

Os pilares práticos da longevidade

Em minha experiência analisando empresas de fora, como analista e gestor de fundos, e agora vivenciando a realidade das companhias por dentro, como consultor, identifiquei um conjunto de práticas que diferenciam as empresas que sobrevivem e prosperam das que sucumbem antes do tempo.

O primeiro pilar é a qualidade das métricas de desempenho. A maioria das PMEs não sabe, de fato, como está. Seus relatórios gerenciais são insuficientes, mal estruturados ou simplesmente inexistentes. Sem medir bem, não é possível decidir bem.

O segundo é o benchmarking. Uma empresa que não se compara com seus pares, locais ou internacionais, não tem como saber se suas margens são aceitáveis, se sua estrutura de custos está adequada, se a estratégia se alinha às melhores práticas do setor. O mercado não para enquanto você está olhando apenas para dentro.

O terceiro pilar, que considero o cerne da questão, é a governança. Não estou falando de conselho de administração com dezenas de comitês ao estilo das grandes corporações. É algo muito mais básico: processos mínimos de tomada de decisão que não dependam exclusivamente do humor e da memória de uma única pessoa, transparência nas informações e separação razoável entre o patrimônio da empresa e dos sócios.

A governança corporativa é um tema que me acompanha há décadas. Em 2022, lembro de ter ouvido de um executivo de alto nível, em um evento, a afirmação de que o Brasil não tinha problemas de governança corporativa. Discordei na época e essa percepção minha hoje se aprofundou sobretudo no território das empresas médias.

O quarto pilar é a gestão baseada em valor. Significa privilegiar, nas decisões estratégicas, ações que impactam positivamente a criação sustentável de valor para todos os stakeholders. Uma empresa que conhece seus drivers de valor, que sabe o que faz seu negócio valer mais ou valer menos, tem uma vantagem competitiva enorme sobre aquela que olha apenas para o faturamento mensal.

O quinto e último pilar é a capacidade de se antecipar. Isso envolve criar a prática regular de discutir cenários de curto e longo prazo para a economia, para o setor e para o mercado global. Uma empresa que é surpreendida por mudanças estruturais no seu ambiente de negócios que qualquer analista minimamente atento poderia ter antecipado é vítima da própria falta de visão estratégica, não das alterações do mercado.

A cultura do “Uhu”, exit e da startup

Há outro fator que está transformando perigosamente a forma como o empreendedorismo brasileiro é percebido, especialmente pelas novas gerações, e que acentua a falta de visão estratégica de longo prazo. É a cultura das startups nos últimos anos, mal-acostumada com um excesso atípico de liquidez no mercado de Venture Capital.

Muitos empreendedores hoje criam uma startup já pensando no exit. Vou levantar tantos milhões aqui e vender a empresa logo mais.

É o que chamo de cultura do “Uhu”, uma glamourização do levantamento de rodadas de investimento, crescimento acelerado e rápida realização de lucro, em detrimento da construção de empresas sólidas e feitas para durar.

Mudança de perspectiva se faz necessária

Diante de tudo isso, proponho que a longevidade de uma empresa deve ser um objetivo social do país, não apenas empresarial.

Quando uma companhia prospera por décadas, criando empregos estáveis, ela forma profissionais, desenvolve fornecedores, paga impostos, contribui para a comunidade ao redor e produz um valor real e mensurável em termos de bem-estar social. Esse valor se perde completamente quando a empresa fecha em três ou quatro anos, um desperdício evitável de recursos, de capital humano e de potencial econômico.

Portanto, trabalhar para uma cultura empresarial que valorize a construção de negócios sólidos, duradouros e com propósito claro de criação de valor para todos os seus stakeholders é uma missão de vida.

E não deveria ser só da minha, mas de todos que pensam no desenvolvimento brasileiro.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O luxo não vende exclusividade. Vende uma nova forma de viver.

Em um mundo onde quase tudo pode ser comprado, o verdadeiro luxo deixou de ser exclusividade e passou a ser simplicidade. Este artigo mostra por que as empresas mais valiosas da próxima década serão aquelas capazes de eliminar complexidade, reduzir decisões e transformar experiência em significado.

ROA, ROE e EBITDA estão ficando obsoletos?

O mercado aprendeu a medir estoques, fábricas e patrimônio físico. Mas como medir inteligência, dados e conhecimento? O desafio das empresas hoje não é apenas criar valor, mas desenvolver métricas capazes de reconhecê-lo.

O sucesso de ontem pode ser o maior risco do seu negócio

Da Kodak aos desafios da economia digital, a história dos negócios mostra que organizações raramente fracassam por um único erro. Elas perdem relevância quando insistem em estratégias, processos e crenças que deixaram de responder às transformações do mercado.

Estratégia
27 de junho de 2026 15H00
Mais do que acumular experiências, este artigo propõe uma mudança na forma de pensar carreira, apoiando-se em conceitos como “capital profissional” (composto de cinco capitais) e “professional equity”

Nathália Brandão - Head de Educação Corporativa no TikTok LATAM, Escritora e Forbes Under 30

5 minutos min de leitura
Liderança
27 de junho de 2026 08H00
Na estreia da coluna do Grupo Mulheres do Brasil, este artigo mostra que a liderança do futuro não será construída por decisões individuais, mas pela capacidade de mobilizar diversidade, escuta e inteligência coletiva para enfrentar desafios que já não cabem em uma única visão.

Andrea Gasques - Diretora de Comunicação do Grupo Mulheres do Brasil

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de junho de 2026 14H00
Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

Janaina Calazans - Gerente de Ensino Superior da CESAR School

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de junho de 2026 08H00
Este artigo revela por que o verdadeiro desafio da IA não é adoção, mas uso intencional, capaz de ampliar o pensamento, e não substituí-lo.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Estratégia, Gestão de recursos
25 de junho de 2026 15H00
A teoria dos jogos expõe o erro estrutural por trás do modelo reativo que consome bilhões sem gerar resultados proporcionais. Este artigo mostra que não falta dinheiro na saúde, falta estratégia para usar.

Dr. Jorge Luiz Andrade - Anestesiologista e vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
25 de junho de 2026 08H00
Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
24 de junho de 2026 15H00
Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo, professor de MBA na USP/ESALQ e FIAP, palestrante e especialista em Inteligência Artificial, Transformação Digital e Produtos Digitais

9 minutos min de leitura
Liderança
24 de junho de 2026 08H00
Este artigo propõe um deslocamento essencial: mais do que acumular informação, a liderança precisa desenvolver discernimento - a capacidade de interpretar com clareza quando a pressão empurra para decisões automáticas.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Liderança
23 de junho de 2026 14H00
Uma meta mal definida não impulsiona, trava. Este artigo revela como metas mal calibradas podem desconectar equipes e comprometer resultados, mostrando que o verdadeiro desafio da liderança está em equilibrar ambição e viabilidade para sustentar desempenho ao longo do tempo.

Denise Joaquim Marques -Consultora de negócios especializada em Vendas e Marketing

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
23 de junho de 2026 08H00
Em organizações que cobram inovação, mas penalizam o erro, este artigo revela um paradoxo central: sem espaço para frustração e aprendizado, equipes deixam de evoluir, e a transformação que se busca nunca acontece de fato.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo